Quem é Eduardo Jorge, o político do PV que é vice de Marina

Ex-deputado foi filiado ao PT, mas deixou o partido em 2002 para se aliar a antigos adversários políticos. Em 2014, disputou a Presidência

     

    A Rede Sustentabilidade confirmou na quinta-feira (2) que o ex-deputado Eduardo Jorge, do PV, será o vice na chapa de Marina Silva nas eleições de 2018.

     

    O anúncio sela a aliança entre os dois partidos e garante alguns segundos a mais para Marina na campanha de rádio e TV, que começa a partir de 31 de agosto.

     

    Não resolve, porém, a falta de estrutura partidária da candidata, além do pequeno tempo de palanque eletrônico. Isso porque Rede e PV são partidos pequenos. A própria Marina já foi do PV, pelo qual disputou a eleição presidencial de 2010 e ficou em terceiro lugar.

     

    Jorge é médico sanitarista. Iniciou sua vida pública em 1960 no movimento estudantil. De lá para cá, ajudou a fundar o PT, mas saiu do partido, assim como Marina o fez.

     

    O político trabalhou depois em gestões do PSDB, principal adversário dos petistas, e ingressou no PV, partido pelo qual disputou as eleições presidenciais de 2014.

     

     
    Qual ideia está em jogo
    Um vice-presidente tem a responsabilidade de assumir o país na ausência do titular, seja temporária (em viagens ou motivos de doença) ou definitiva (em caso de renúncia, impeachment ou morte). Durante o exercício temporário do cargo, o vice ganha as atribuições do titular, podendo, por exemplo, exonerar ou nomear funcionários. O cargo ganhou relevância durante a atual crise política, pois Dilma Rousseff, reeleita em 2014, sofreu impeachment dois anos depois numa articulação apoiada por seu próprio vice, Michel Temer. No período pós-redemocratização, o Brasil foi dirigido por três vices (José Sarney, que assumiu em 1985 após a morte de Tancredo Neves; Itamar Franco, que assumiu em 1992 após o impeachment de Fernando Collor; e Temer, que assumiu em 2016 após o impeachment de Dilma).

     

    O começo no PT

     

    Jorge foi um dos fundadores do PT na década de 1980. Pelo partido, o médico sanitarista foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1986. Reeleito para outros três mandatos, ficou na Câmara até 2003. Enquanto parlamentar, ele foi líder do PT na Casa na época do impeachment do então presidente Fernando Collor, em 1992.

     

    Como deputado federal, licenciou-se do mandato duas vezes. A primeira foi em 1989, quando se afastou para assumir a Secretaria da Saúde da cidade de São Paulo no governo de Luiza Erundina (então do PT), cargo que ocupou até abril de 1990. A segunda foi em 2001, também para se encarregar do posto de secretário de Saúde da capital paulista, agora na gestão de Marta Suplicy (então do PT). Ele ocupou a vaga até dezembro de 2002.

     

    Como secretário de Marta, Jorge foi um dos principais responsáveis pela regulamentação das leis do SUS (Sistema Único de Saúde) em São Paulo e por dobrar o número de médicos na cidade para o Saúde da Família, programa cujo objetivo é dar atenção básica à população por meio de médicos especialistas.

     

    Jorge foi dirigente do PT por 20 anos. Em 2002, ele resolveu deixar o partido por "ter perdido a confiança" nos outros líderes da sigla.

     

    “Eu perdi a confiança na direção do PT. Muitos ali se comportavam com uma visão muito própria da esquerda revolucionária de que o partido é mais importante que o país, mais importante do que a vida do próprio povo”

    Eduardo Jorge

    candidato a vice na chapa de Marina Silva

     

    A aliança com antigos adversários

    Em 2002, Jorge filiou-se ao PV. Três anos depois, em 2005, assumiu a Secretaria do Verde e Meio Ambiente na gestão de José Serra, do PSDB, na Prefeitura de São Paulo. O PSDB é o principal adversário do PT, antigo partido de Jorge.

     

    Ele ficou no cargo até 2012, com o fim da gestão de Gilberto Kassab (então do DEM), de quem o PV também foi aliado. Quando esteve no comando da pasta, Jorge criou o programa Carta da Terra e ampliou a área verde protegida de São Paulo de 15 milhões para 45 milhões de metros quadrados.

     

    Durante a gestão no Meio Ambiente, Jorge foi alvo de denúncias envolvendo um esquema de pagamento de propinas em troca de emissão de licenças na prefeitura. Em depoimento ao Ministério Público, uma testemunha afirmou que ele teria recebido R$ 200 mil para facilitar a liberação de licença para a construção do Shopping Higienópolis, empreendimento estimado em R$ 200 milhões localizado em um dos bairros mais nobres de São Paulo.

     

    Na época, Jorge era cotado para ser vice na chapa de Serra nas eleições municipais de 2012. O então secretário disse que, por isso, era vítima de calúnia e de “requintes de selvageria da batalha política”. Ele negou as acusações. O depoimento da testemunha motivou a abertura de um inquérito no Ministério Público que ainda está em andamento.  

    “A luta política tem esses requintes de selvageria. Se for comprovado o que estão me dizendo [acusações para tentar derrubar seu nome como vice na chapa tucana], isso é muito grave. Eu não reivindico esse cargo de vice. Isso é uma selvageria por um cargo político”

    Eduardo Jorge

    pré-candidato a vice na chapa de Marina Silva

     

    O rei dos memes

    Jorge foi candidato do PV nas eleições presidenciais de 2014. Naquele ano, terminou o primeiro turno em sexto lugar, com 0,61% dos votos.

    No segundo turno, Jorge voltou a apoiar um político do PSDB. Desta vez, foi o senador mineiro Aécio Neves, que, na época, concorria à Presidência. O senador tucano acabou sendo derrotado pela então candidata do PT, Dilma Rousseff, em uma das disputas mais acirradas da história das eleições brasileiras.

     

    A candidatura de Jorge nas eleições de 2014, durante o primeiro turno, se transformou em uma fonte de memes, piadas feitas na internet por meio de montagens de fotos com frases rápidas e alto poder de viralização digital.

     

    Essas piadas geralmente eram feitas quando Jorge defendia nos debates bandeiras consideradas polêmicas pelos brasileiros, como descriminalização do aborto e a legalização da maconha.

     

    Durante um debate promovido pelo SBT, em setembro de 2014, ele soltou a frase “eu não tenho nada a ver com isso” quando foi convidado a comentar uma resposta de Levy Fidelix, candidato do PRTB, sobre partidos de aluguel. A declaração se espalhou rapidamente pela internet.

     

    Marina evita temas polêmicos. Jorge, não

     

    Ao contrário de Marina, que não costuma entrar em debates delicados, Jorge ganhou destaque no meio político por ter opiniões muito claras sobre determinados assuntos.

     

    Sobre aborto, por exemplo, ele já deu várias manifestações públicas sobre ser a favor da legalização. “Deixar de considerar criminosas entre 700 e 800 mil mulheres que fazem aborto por ano é acabar com uma lei medieval em pleno século 21. Revogar essa lei é uma questão urgente de saúde pública”, disse o ex-deputado. Marina, por outro lado, é contrária à prática e sempre evita dar sua opinião sobre o assunto, embora proponha resolvê-lo com um plebiscito. “Defendo plebiscito para que se faça o debate, porque o que nós todos queremos é que ninguém tenha uma gravidez indesejada”, afirmou a pré-candidata.

     

    Jorge também já defendeu abertamente a legalização das drogas. “Vai ter um efeito positivo, porque nós vamos poder esvaziar grande parte das penitenciárias, vamos liberar as polícias para ir atrás dos crimes realmente perigosos”, afirmou. Sobre esse assunto, Marina também é a favor de realizar um plebiscito, mas já disse que é contra a liberação.

     

    O ex-deputado também se manifestou a favor do casamento gay. “Por que seria contra? Fico pasmo. O que afeta minha vida, sua vida, o fato de um rapaz ir lá, casar com outro rapaz e viver tranquilamente, sem me prejudicar em nada?”, disse Jorge. Marina, porém, que é evangélica, leva em conta a religião na hora de opinar sobre o tema, o que acaba deixando sua posição pouco clara. “Tenho dito que tenho uma posição contrária ao casamento gay. Quando falo em relação ao casamento, não estou me referindo à união civil de bens. Eu não vou ficar tergiversando para poder ganhar simpatia das pessoas”, disse.

     

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