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O que leva um partido a ficar neutro na eleição presidencial

A partir de um acordo fechado com o PT de Lula, PSB anuncia que não apoiará ninguém ao Planalto

     

    O PT e o PSB fecharam na quarta-feira (1º) um acordo para o primeiro turno das eleições de 2018. Ele inclui uma série de acertos regionais, mirando as eleições para governador, assim como a neutralidade de pessebistas na disputa pela Presidência da República.

     

    O PSB estava até então sem aliança nacional para a campanha, que começa oficialmente em 16 de agosto. Vinha sendo cortejado também por Ciro Gomes, candidato do PDT à Presidência.

     

    Os petistas prometeram retirar sua candidatura ao governo de Pernambuco, onde Paulo Câmara, do PSB, tentará reeleição.

    Já os pessebistas prometeram retirar sua pré-candidatura ao governo de Minas, onde Fernando Pimentel, do PT, também tentará se reeleger. Há outros acertos em estados menores.

     

    Quem ganha

    Lula

    A sigla tem um candidato próprio: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde 7 de abril. Mesmo na cadeia, Lula lidera todas as pesquisas de intenção de voto. O PT não tem garantias de que vá conseguir ter Lula no páreo, já que ele teve condenação confirmada em segunda instância, e deve ser barrado pela Justiça Eleitoral com base na Lei da Ficha Limpa. Mesmo assim, a legenda continua com influência no campo da esquerda. Com a neutralidade do PSB, o PT tira a possibilidade de outras candidaturas fecharem aliança com a sigla. Essas alianças são importantes porque agregam mais tempo de exposição ao candidato no horário eleitoral e aumentam o número de palanques onde o político poderá subir nos estados.

     

    Fernando Pimentel

    Pré-candidato do PT ao governo de Minas, Fernando Pimentel terá um adversário a menos na disputa estadual. Isso porque Márcio Lacerda, pré-candidato do PSB ao governo mineiro, foi tirado da disputa. O acerto foi feito no plano nacional entre as legendas. Pimentel é vice-líder nas pesquisas de intenção de voto. Lacerda, que já foi prefeito de Belo Horizonte, aparecia em terceiro lugar. Quem lidera a disputa pelo governo de Minas é o senador Antonio Anastasia (PSDB).

     

    Paulo Câmara

    A contrapartida feita pelo PSB afeta o cenário em Pernambuco. A sigla pediu que PT retirasse a candidatura própria ao governo e apoiasse o candidato do PSB à reeleição, Paulo Câmara. Os pessebistas são fortes no estado, que elegeu governadores do partido seguidamente desde 2006. Foi lá que a sigla ganhou projeção nacional, por meio das gestões de Eduardo Campos. Seus mandatos alçaram Campos a candidato do PSB à Presidência em 2014, com a promessa de ser a terceira via em eleições polarizadas entre PT e PSDB desde 1994. O então governador morreu durante a campanha, em agosto de 2014, na queda de um avião. O PT nacional prometeu abrir mão da candidatura da vereadora Marília Arraes no estado. Câmara e Arraes apareciam tecnicamente empatados nas pesquisas de intenção de voto.

     

    Alckmin

    A fragmentação da esquerda ajuda o pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin. O acordo entre PT e PSB isolou Ciro Gomes na corrida presidencial. Enquanto isso, Alckmin construiu a maior coligação até agora, depois de ter conseguido apoio do centrão, bloco composto por cinco partidos de centro-direta que garantirá a Alckmin o maior tempo de TV da campanha. A aposta dos tucanos é manter a polarização nacional com os petistas. Além disso, a neutralidade permite ao candidato do PSB do governo de São Paulo, Márcio França, apoiar livremente Alckmin, de quem era vice e com quem mantém aliança há anos.

     

    Quem perde

    Ciro Gomes

    Quarto lugar nas pesquisas de intenção de voto, o candidato do PDT à Presidência está sem nenhum aliado até agora em sua coligação. Sem alianças, Ciro deve ter pouco tempo de exposição no rádio e na televisão. O acordo do PSB com o PT tirou de Ciro a última possibilidade de aliança que lhe restava para tornar sua candidatura mais competitiva.

     

    Márcio Lacerda

    O ex-prefeito de Belo Horizonte não concordou com a decisão da executiva nacional do PSB. Segundo uma reportagem publicada na quarta-feira (1º) pelo jornal Folha de S. Paulo, Pimentel ofereceu a Lacerda a vaga de candidato ao Senado.

     

    Marília Arraes

    A vereadora classificou a decisão como um equívoco. É pouco provável que o PT nacional volte atrás da decisão, pois a maioria da cúpula petista votou a favor do apoio ao candidato do PSB. É esse entendimento que prevalece.

     
    Qual a ideia que está em jogo
    É a importância das alianças no processo eleitoral brasileiro. Sem elas, o político que deseja disputar um cargo não é capaz de construir uma candidatura competitiva. Esses parceiros são fundamentais, pois garantem ao candidato os palanques regionais que dão capilaridade ao seu nome, além de mais exposição a ele na televisão e no rádio durante o horário eleitoral.

     

    O acordo, a partir de duas visões

    Diante disso, o Nexo perguntou a dois cientistas políticos as consequências do acordo entre PT e PSB. São eles:

    • Deisy Cioccari, doutora em ciência política pela PUC-SP
    • Rogério Baptistini, professor de ciência política da Unesp

     

    O que leva um partido a optar pela neutralidade diante de uma eleição tão imprevisível e num momento de polarização como esse?

    Deisy Cioccari O PSB tenta sobreviver nos colégios eleitorais estaduais em que tem mais força (Pernambuco, Paraíba, Amazonas e Amapá). O grande golpe do PSB, não podemos esquecer, foi a desistência de Joaquim Barbosa. A partir daí, apoiar Ciro Gomes era decidir ir contra ou não o grande nome da esquerda, Lula, que ainda pesa. A neutralidade na disputa pela presidência não é um preço tão caro a se pagar, visto que seus colégios eleitorais mais fortes no Norte e Nordeste ganham o peso do Partido dos Trabalhadores. Quem se arrisca mais é o próprio PT, que rifa Marília Arraes.

     

    Rogério Baptistini A opção do PSB pela neutralidade significa que o partido prefere valorizar suas candidaturas estaduais, seus espaços nos redutos estaduais de maior visibilidade, onde há maior possibilidade de vitória.

     

    Por outro lado, isso não compromete o partido para uma adesão no segundo turno eleitoral nacional, caso aconteça. Do lado do PT, garantir a neutralidade do PSB significa tentar estrangular a candidatura de Ciro Gomes e fortalecer a esperança hegemônica do PT em canalizar para si um bloco de esquerda, algo muito arriscado e difícil de ser elaborado neste momento. Quem mais perde com a neutralidade do PSB, evidentemente, é Ciro Gomes, que tem pouco tempo de TV e vai ficando isolado, como um candidato de centro esquerda.

     

    Quem mais ganha, aparentemente, é Geraldo Alckmin, que pode empolgar como um candidato de centro-direita e, eventualmente, num segundo turno, até ter apoio de pessoas importantes e partidos como o próprio PSB.

     

    Como fica a eleição agora?

    Deisy Cioccari As eleições voltam para a velha polarização PT x PSDB. Antes do pleito, víamos a promessa da grande união das esquerdas, que está virando uma bagunça com nomes potenciais sendo rifados. Víamos também a direita prometendo um novo nome e, no final, optou pelo de sempre.

     

    O apoio do centrão traz de volta a velha política representada pelo candidato do PSDB [Geraldo Alckmin], com os mesmos aliados de outras eleições.

     

    A esquerda ainda tenta encontrar seu rumo em meio às trapalhadas. Não consegue se desvencilhar de seu eterno pré-candidato Lula, preso.  A questão é que conseguiram limar, por enquanto, os outros nomes de outros partidos, isolados pela falta de apoio e pela falta de tempo de televisão. Vejo Alckmin saindo um pouco na frente. Enquanto os outros partidos ainda tentam descobrir como agir e como se coligar, o tucano assiste a tudo incólume, como sempre foi.

     

    Rogério Baptistini A eleição, neste momento, parece mais favorável à direita. Quem mais vai se beneficiando com a situação toda é [Jair] Bolsonaro [candidato do PSL à Presidência]. Ele não tem adversários fortes para confrontá-lo até agora. Tanto a centro-esquerda quanto a centro-direita estão muito fragilizadas, longe de costurar um acordo e um programa comum. O cenário é de incerteza, que favorece o candidato franco atirador.

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