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Este estudo afirma que o uso comum de protetor solar protege mal

Trabalho diz que o fator de proteção indicado no rótulo só vale para quando se aplicam camadas mais grossas do que as aplicadas na vida real

 

Alguns dos principais tipos de cânceres de pele se relacionam a lesões em genes presentes na cadeia de DNA. Essas lesões podem ser causadas pela exposição à luz solar, que também é capaz de fazer com que a pele fique dolorida e visivelmente irritada.

Uma das formas pelas quais se busca diminuir o risco de lesões é aplicar camadas de protetor solar sobre a pele. Essas substâncias têm capacidade de absorver ou refletir os raios ultravioleta presentes na luz solar.

O grau de proteção oferecido pelos diferentes tipos de protetor no mercado é informado nos rótulos dos produtos, com o nome de FPS, uma sigla para fator de proteção solar. Com essa informação, é possível estimar o tempo que a pele precisaria ser exposta a uma mesma dose de sol para que sua cor fosse alterada, um indício de que ela está exposta a danos.

No caso de pessoas com pele escura, a mudança pode ser escurecimento ou empalidecimento. No caso de pessoas com pele clara, a mudança é, normalmente, vermelhidão na pele.

Por exemplo: se a pele de uma pessoa muda de cor após 20 minutos de exposição ao sol forte, quando essa mesma pessoa usar um protetor solar com FPS 15, deve-se esperar que a mesma mudança ocorra em um tempo 15 vezes maior. Ou seja, 300 minutos, ou cinco horas.

Um trabalho publicado por pesquisadores franceses e britânicos em junho de 2018 na revista acadêmica especializada em dermatologia, Acta Dermato-Venereologica, argumenta, no entanto, que as pesquisas que servem de base para essa classificação do grau de proteção de cada substância consideram a aplicação de uma camada espessa de protetor solar. Nem sempre essa mesma aplicação ocorre na vida real.

Por isso, o grau de proteção detectado nas pesquisas que servem para informar o FPS no rótulo dos protetores não corresponde àquela que os usuários obtêm na prática. O trabalho buscou analisar, então, qual seria a proteção obtida com camadas mais finas que se assemelham mais às aplicadas na realidade.

E confirmou que, na vida real, a proteção oferecida pode ser insuficiente em determinadas situações, a despeito do que é informado nos rótulos. Para compensar o fato de que as pessoas usam camadas mais finas do produto do que a ideal, os autores do trabalho recomendam o uso de protetores com FPS mais alto, assim como medidas de conscientização sobre como usar protetor.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o pesquisador da universidade King’s College London Antony Young afirmou que:

“Dado que a maior parte das pessoas não usa protetores solares da forma como são testados pelos fabricantes, é melhor que usem um [produto com] FPS muito mais alto do que o que pensam ser necessário”

Como a pesquisa foi feita e seus resultados

Dezesseis voluntários foram recrutados por meio de propagandas. Todos eles possuíam pele branca, que fica queimada com mais facilidade.

Eles foram divididos em dois grupos com oito pessoas. Ambos os grupos receberam três tipos de aplicação de filtro solar com FPS 50 em diferentes pontos das nádegas, com espessuras diferentes. Uma aplicação era de 2 mg/cm², outra, de 1,3 mg/cm² e outra, de 0,75 mg/cm².

O primeiro grupo recebeu exposições únicas a raios ultravioleta emitidos artificialmente, em cada uma das áreas com aplicação de protetor. A intensidade dos raios era o equivalente a entre 15 e 30 doses padrão de radiação - no tipo de pele estudado, cerca de 3 doses padrão costumam bastar para causar vermelhidão.

O segundo grupo recebeu emissões mais brandas, porém durante cinco dias consecutivos. Nesse caso, as condições se assemelham mais a um tipo de exposição comum durante viagens de férias a balneários, afirma o trabalho. A exposição foi equivalente a 150 doses padrão de radiação.

Em seguida, os cientistas retiraram pedaços das peles expostas aos raios ultravioleta e os analisaram por meio de testes. Algumas das principais descobertas foram:

  • Peles expostas uma única vez a 30 doses padrão de raios ultravioleta, mas que foram protegidas por camadas de 1,3 mg/cm² e 2 mg/cm² de protetor solar sofreram significativamente menos dano ao DNA do que peles expostas a 4 doses, mas sem protetor solar
  • No caso em que as peles foram expostas a 30 doses padrão de raios ultravioleta, mas que possuíam camadas de apenas 0,75 mg/cm², não houve diferença significativa de proteção em comparação com as peles expostas a 4 doses, mas sem protetor solar
  • Peles expostas durante dias consecutivos a 150 doses padrão de raios ultravioleta, porém protegidas por camadas de 1,3 mg/cm² e 2 mg/cm² sofreram significativamente menos danos a DNA do que peles expostas a 4 doses em um único dia, mas sem protetor solar.
  • Não houve, no entanto, diferenças relevantes entre os danos causados ao DNA para peles com aplicação de protetor de entre 1,3 mg/cm² e 2 mg/cm², para qualquer quantidade de doses de raios ultravioleta.

Em sua argumentação, os cientistas citam uma pesquisa publicada em 2013, realizada entre frequentadores de um balneário no Egito. O trabalho observou a forma como o protetor solar fora utilizado. Eles detectaram que, em média, os participantes aplicaram camadas de 0,79 mg/cm² de protetor solar.

Como a pesquisa identificou que a aplicação de uma quantidade parecida de protetor, de 0,75 mg/cm², foi insuficiente para proteger a pele, os pesquisadores argumentam que é necessário aplicar camadas mais grossas ou de protetores com FPS mais elevado.

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