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Antonio Dias e a arte sem muros nem fronteiras

Morto em 1º de agosto de 2018, artista paraibano desafiou tradições da arte, que considerava sempre ‘política’

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    Em “Dias de Deus dará”, o artista plástico Antonio Dias procurou refletir uma realidade em que “a ideologia foi pescar”. A série incluía entre seus trabalhos uma bandeira vermelha da qual foi recortado um quadrado, fincada em uma ocupação em Milão, em 1977. Para o artista, a ideia era simbolizar uma época em que as revoluções patrocinadas pelo Estado falharam e foram substituídas por experimentos utópicos menores. Daí o nome em inglês da série, “The invented country” (O país inventado, em tradução livre).

    “Toda arte é política”, disse Dias em entrevista de 2014. Nascido em Campina Grande, na Paraíba, em 1944, e morto vítima de um câncer em 1 de agosto de 2018, aos 74 anos, no Rio de Janeiro, o artista exerceu essa visão em pinturas, esculturas, colagens, vídeo-artes e peças em tecido, entre outros formatos.

     

    Em 1968, depois de presenciar in loco as manifestações estudantis de Paris, realizou a obra “Do It Yourself/Freedom Territory (Faça você mesmo: território da liberdade)”: sinais gráficos feitos com fita adesiva dispostos pelo solo, entre os quais se encontram três pedras de bronze com a inscrição “To the police” (para a polícia). O pressuposto é que cabe ao espectador agir para que se conclua a obra.

    Foi para a França em 1965, um ano depois do golpe militar. Trabalhou na capital francesa custeado pelo governo daquele país. Partia sem “nenhum projeto, além de desejar estar longe da ditadura”, diria em texto publicado na revista Serrote.

    Dias acaba passando praticamente toda a década de 1970 fora do Brasil. Em 1972, recebe a bolsa Guggenheim, em Nova York, para realizar a série de filmes “Illustrations of art”, em Milão. Pouco depois, recebe convite do artista alemão Joseph Beuys para encabeçar a seção latino-americana da Free International University (FIU). Em 1974, o MAM (Museu de Arte Moderna), do Rio de Janeiro, monta uma exposição sua.

    Nos anos seguintes, avança com seus trabalhos multimídia, como “The Illustration of art: economy”, exposto no Festival for Expanded Media, em Belgrado, na Sérvia, e a criação de ambientes no Palazzo Reale de Milão e na mostra Arte & Cinema, de Veneza.

     

    Como muitos de sua geração, mexidos pela agitação política e cultural da década de 1960, Dias encarnava uma resistência não apenas à opressão política, mas também às tradições da pintura. Rejeitou a representação e investiu no abstrato. Inseriu texturas e relevos na tela. Recortou e seccionou obras. Pintou sobre embalagens de papelão, cartão e jornais. Incorporou vídeo e objetos. Trouxe o espectador para dentro da obra.

    “Os meus territórios não têm muros nem fronteiras. Servem para compensar esses muros de medo que continuam a erigir para dividir pessoas”, explicou.

    A temporada no Nepal

    Na década de 1970, Dias ainda passa uma temporada no Nepal para aprender maneiras diferentes de trabalhar com papel. Acabou vivendo e trabalhando com artesãos locais, instalado em um cômodo de alvenaria em uma “pequena favela” perto da fronteira com o Tibete. Para além da colaboração técnica, Dias também deu crédito artístico aos artesãos com quem trabalhou.

    “Quando cheguei, estava despreparado para o que encontrei”, contou à revista Select. “Quando vi o potencial que queria experimentar, me joguei de cabeça, sem pensar qual seria a repercussão do trabalho. Era mais importante a relação que eu tinha com quem estava trabalhando comigo.”

    Na mesma entrevista, falou sobre a ausência do “fetiche da autoria” em seus trabalhos. “Já em 1968 eu havia proposto trabalhos que poderiam ser desenvolvidos por qualquer pessoa, até em outras dimensões, como ‘Do It Yourself/Freedom Territory’”, explicou.

    Dez pranchas xilografadas nestes papéis artesanais foram usadas para realizar o álbum gráfico “Trama”, publicado em 1977.

     

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