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Qual o efeito da fala de Bolsonaro contra a urna eletrônica

Em entrevista ao Roda Viva, nome do PSL que vai disputar a Presidência chegou a dizer que eleições de 2018 estão sob suspeita

     

    O candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, participou na segunda-feira (30) do Roda Viva, da TV Cultura, num programa em que reforçou sua estratégia de dar declarações polêmicas que dialogam diretamente com parte do público que o apoia.

    Num dos momentos, chegou a colocar a própria eleição da qual vai participar sob suspeita. Ao defender a impressão do voto, para além do registro eletrônico, o vice-líder nas pesquisas nos cenários com Luiz Inácio Lula da Silva e líder nos cenários sem o ex-presidente afirmou o seguinte:

     

    “As eleições, de qualquer forma, estão sob suspeição. Vamos supor que eu venha a ganhar no voto eletrônico. O outro lado [dos adversários] vai arguir a suspeição”

    Jair Bolsonaro

    candidato do PSL à Presidência, ao ser questionado se aceitaria uma eventual derrota em eleição por voto eletrônico

     

    Os questionamentos sobre as eleições feitas por voto eletrônico não são uma exclusividade de Bolsonaro. Eles ganharam força em 2014, após a reeleição de Dilma Rousseff. Naquele ano, a petista venceu o senador Aécio Neves (PSDB) no segundo turno, em uma das disputas mais acirradas da história.

    O PSDB pediu ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para fazer uma auditoria da votação. Depois de meses de análise, o partido não encontrou irregularidades capazes de comprometer o resultado.

    Nesse clima de insegurança incentivado pelos próprios partidos, a Câmara aprovou em abril de 2015 uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que previa a impressão do voto da urna eletrônica.

    O projeto era de autoria de Bolsonaro. Em junho de 2018, o Supremo Tribunal Federal barrou a emenda: a maioria dos ministros do Supremo entendeu que a proposta de Bolsonaro colocava em risco o sigilo do voto.

    O TSE diz garantir a segurança das urnas eletrônicas. Em seu site, o tribunal explica os mecanismos desenvolvidos para impedir que elas sejam fraudadas. Segundo o tribunal, a urna eletrônica dispõe de:

    • assinatura digital: técnica criptográfica que impede a modificação do arquivo final gerado pelo aparelho, isto é, o resultado final de uma votação em determinada seção
    • resumo digital: técnica criptográfica que permite calcular um resumo digital de cada urna, publicado automaticamente no portal do TSE
    • camadas: barreiras programadas em conjunto que, uma vez violadas em qualquer nível, travam imediatamente a urna

     

    O impacto no debate público

    O Nexo conversou com dois cientistas políticos para saber as consequências da declaração de Bolsonaro na campanha eleitoral de 2018. São eles:

     

    • Andreia Freitas, professora de ciência política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
    • Hilton Fernandes, professor de ciência política da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)

     

    Qual o efeito da declaração de Bolsonaro para o clima atual de campanha?

     

    Andreia Freitas Esse tipo de declaração tende a polarizar ainda mais a eleição, que provavelmente já não vai ser simples. Essa estratégia não é nova. Há pouco tempo, quem usou essa estratégia foi Donald Trump [presidente dos EUA]. Ele dizia o tempo todo que tinha uma desconfiança sobre o processo eleitoral norte-americano. E ele acabou vencendo [as eleições]. Foi calculado por Trump, porque ele esperava esse efeito positivo. O que Bolsonaro também espera é animar ainda mais os eleitores comuns a reagirem de forma animosa em relação ao processo eleitoral. A ideia é animar seus eleitores para uma briga, e não necessariamente para uma disputa competitiva por votos, como seria o normal em um processo eleitoral.

    De outro lado, tem um efeito muito negativo na democracia. Uma série de trabalhos acadêmicos já mostraram que um dos elementos centrais para manutenção da democracia é a confiança nas instituições. Confiança vinda dos atores políticos, e também do eleitorado. Bolsonaro está investindo em um processo de deslegitimação da democracia que é muito perigoso.

    Hilton Fernandes A urna eletrônica já ajudou muito a evitar fraudes que ocorriam com frequência nas eleições brasileiras. É um sistema consideravelmente melhor que o voto em papel. Do ponto de vista técnico, é importante ressaltar que nenhum sistema para votação é à prova de falhas. E mesmo o voto impresso não seria garantia de evitar  eventuais fraudes. Ainda assim, a urna eletrônica é um avanço.

    Bolsonaro tem dito que as pesquisas eleitorais são fraudadas, assim como a urna eletrônica. Esse é um discurso que parece servir mais para justificar um possível resultado negativo nas eleições de 2018. Afinal, se não é possível confiar na urna eletrônica, é possível confiar que o Bolsonaro foi o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro em 2014?

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dava a entender, em um de seus trechos, que a proposta de Bolsonaro para o registro do voto se restringia ao papel, quando na verdade ele defende o uso da urna eletrônica somado à impressão. A informação foi corrigida às 18h30 de 1º de agosto de 2018.  

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