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O que é o cinema ‘slow’. E alguns filmes que seguem a tendência

Diretores contemporâneos de várias partes do mundo investem na lentidão e contemplação para se contrapor aos cortes velozes da produção comercial

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    Surgido no final do século 20, o movimento ‘slow’ propõe desacelerar hábitos de alimentação, de consumo e mesmo a fruição de obras de arte.

    Em uma reação semelhante à velocidade do mundo contemporâneo, alguns cineastas de diversas partes do mundo passaram a fazer filmes que se contrapõem à curta duração dos planos do cinema hollywoodiano recente e do audiovisual televisivo.

    O conceito de “slow cinema” (cinema lento, em tradução livre) surgiu no início dos anos 2000. Foi criado por críticos e pesquisadores para agrupar este conjunto de filmes e as características formais compartilhadas por eles.

    Em um texto escrito para o 46º Festival Internacional de Cinema de São Francisco, em 2003, o crítico francês Michel Ciment usou a expressão “cinema da lentidão”.

    “Ao se tornarem impacientes com o bombardeamento de som e imagem em que eram submetidos como espectadores de TV e de cinema, alguns diretores reagiram com um cinema da lentidão, da contemplação”, escreveu. 

    As obras desses diretores procuram “resistir à fragmentação da cena cada vez mais em voga”, como define o crítico e cineasta Arthur Tuoto em um vídeo produzido para a edição especial a respeito do Slow Cinema, lançada em julho de 2018, da revista de cinema Multiplot!.

    A ideia de slow cinema se tornou mais difundida entre críticos e cinéfilos anglófonos a partir de 2010, de acordo com o texto que introduz a edição de julho da Multiplot, escrito pela crítica e editora Camila Vieira.

    Em um editorial da revista britânica Sight & Sound de abril de 2010, o autor Nick James questionou o impacto político dos “slow films”. O debate se polarizou entre críticos e pesquisadores que os celebram e aqueles que os rechaçam. 

    Quais são as características gerais

    Entre os traços formais apontados pelo pesquisador Matthew Flanagan, autor do artigo “Towards an Aesthetic of Slow in Contemporary Cinema” estão “o emprego (muitas vezes, extremo) de planos longos, modos descentrados e discretos de narrar e uma ênfase acentuada na quietude e no cotidiano”.

    “Críticos e pesquisadores caracterizam o slow cinema como filmes que investem na experiência da contemplação, na manutenção da espera, na permanência do olhar. Seria menos a exploração do take longo , mas, sobretudo, uma reelaboração da mise-en-scène em favor dos pequenos acontecimentos.”

    Camila Vieira

    No texto ‘Introdução ao Slow Cinema’

    No artigo “The Politics of Slowness and the Traps of Modernity”, a pesquisadora Lucia Nagib diz que a defesa do slow cinema pressupõe “a existência de um cinema rápido, contra o qual ele se posiciona como alternativa vantajosa”.

    “Em uma época em que a mercantilização da velocidade está obliterando impiedosamente a fruição dos nossos prazeres mais básicos, de comer a desfrutar de uma bela paisagem, parece realmente prudente defender a lentidão como antídoto contra o consumismo insensato”, escreveu Nagib.

    A origem do fenômeno e sua vigência também dividem pesquisadores. Para alguns, o cinema slow “descende” de filmografias do século 20, muito distintas entre si, como as de Michelangelo Antonioni e Yasujiro Ozu.

    Outros o restringem ao cinema contemporâneo, “em um contexto global e intercultural que busca resgatar, por meio da estética fílmica, uma temporalidade mais dilatada em contraposição ao tempo acelerado do capitalismo tardio”, escreveu Vieira para a Multiplot!.

    Filmes e cineastas

    Da categoria de “cinema da lentidão” estabelecida pelo crítico Michel Ciment, fazem parte os filmes do húngaro Béla Tarr, do malaio Tsai Ming-Liang, do iraniano Abbas Kiarostami, e do grego Theo Angelopoulos, entre outros.

    Filmes do catalão Albert Serra, do argentino Lisandro Alonso e a obra do filipino Lav Diaz também são citados com frequência como filiados à tendência.

    A pedido do Nexo, Pedro Tavares, cineasta e editor da revista Multiplot!, listou quatro filmes representativos do “slow cinema”.

    “Tejút” (2007), de Benedek Fliegauf

    Filmado em doze sequências de planos únicos, em diferentes lugares, o filme do cineasta húngaro cria ambientes com seus elementos visuais e sonoros. É um “filme ambiente”, assim como a música ambiente de Brian Eno.

    “Jornada ao Oeste” (2014), de Tsai Ming-Liang

    Um monge vestido de vermelho caminha pelas ruas e praças da cidade de Marselha, em ritmo lento. Ao seu redor, há a vida agitada dos moradores, que a princípio o ignoram. Mas ele ganha um pupilo que passa a seguir seus passos.

    O longa encerra a série de filmes do cineasta malaio que ficou conhecida como “Walker”. Em todos, ele registra a peregrinação do monge, sempre interpretado por Lee Kang-Shen.

    “Landscape Suicide” (1987), de James Benning

    Em seu docudrama experimental, o americano examina a história de dois assassinos e a relação com a paisagem que os cerca.

    “Wendy and Lucy” (2008), de Kelly Reichardt

    Wendy é uma jovem adulta sem dinheiro que viaja ao Alasca por conta de uma oportunidade de trabalho. No caminho, seu carro quebra e sua cadela Lucy desaparece. Chamado de “anti-drama” pela crítica, o filme é um olhar sóbrio, ainda que sensível, sobre a pobreza.

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