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Por que se manter hidratado melhora sua atenção e concentração

Pesquisa recente analisou trabalhos que investigam relação entre desidratação e prejuízo de funções cognitivas como focos e execução de tarefas

Desidratação é um problema sério para a saúde de qualquer pessoa. Antes, porém, de a falta de água no corpo causar efeitos mais graves como alucinações ou morte, ela é responsável por “pequenas, porém significativas baixas na sua performance cognitiva”, o que envolve a capacidade de se manter atento e concentrado, solucionar problemas, ou ainda guardar informações como um número de telefone para execução de pequenas tarefas.

Esta é a conclusão  de uma pesquisa publicada em  julho de 2018 e liderada pela professora americana Mindy Millard-Stafford, pesquisadora e diretora do Laboratório de Fisiologia do Exercício do Instituto de Tecnologia da Georgia.

Para a desidratação chegar a um ponto prejudicial, diz a pesquisadora, basta que uma pessoa perca em líquido o equivalente a pelo menos 2% da sua massa corporal. Para se ter uma ideia do que isso representa, ajuda lembrar que 60% a 70% do corpo de um adulto saudável é composto por água.

Para se atingir os tais 2%, basta uma hora de exercício moderado – situação que pode variar de acordo com o clima local.

O estudo conduzido pela americana Millard-Stafford é uma meta-análise, ou seja, um trabalho que envolve seleção, integração e comparação de resultados de diversas pesquisas sobre o mesmo tema. De um universo de mais de 6 mil publicações acadêmicas que buscavam entender a relação entre desidratação e funções cognitivas, a pesquisadora ficou com 33 delas.

“Acredita-se que a desidratação prejudique o desempenho cognitivo e, potencialmente, aumente os riscos de acidentes de trabalho”, diz a pesquisadora, explicando os motivos da sua metanálise. “Embora revisões narrativas [qualitativas] indiquem que a desidratação possa prejudicar o desempenho cognitivo, pesquisas anteriores não apoiaram uniformemente essa posição.”

Efeitos diversos

O que ela descobriu é que, em geral, como resultado da desidratação, o processamento cognitivo (que envolve habilidades como manter-se atento, memorizar informações em um prazo curto, a chamada memória de trabalho ou operacional, seguir instruções ou cumprir tarefas), bem como a coordenação motora da pessoa estão mais suscetíveis a serem prejudicadas.

Em menor nível, o conjunto de pesquisas mostra que a desidratação afeta o desempenho de funções menos complexas, tais como o tempo de reação do indivíduo.

As razões que explicam por que algumas funções cognitivas são mais afetadas do que outras ainda devem ser exploradas por estudos futuros. A pesquisadora, no entanto, tem algumas hipóteses.

“Domínios cognitivos específicos podem demandar diferentes regiões do cérebro e sistemas neurotransmissores para seu processamento adequado, potencialmente tornando algumas áreas cerebrais (e domínios cognitivos) mais suscetíveis a perdas de água no corpo”, diz.

O estudo mostra, diz Millard-Stafford, que em situações de alarme promovidas pela escassez de água no corpo, nosso cérebro parece priorizar a performance (tempo de reação) do que a precisão na execução de tarefas.

Em outro estudo, publicado em março de 2018 e encabeçado por uma especialista da Faculdade de Medicina da Universidade Yale, um teste reforça a demonstração da pesquisa americana e evidencia o risco de desidratação durante atividades que exigem atenção e precisão, como estudantes em provas, ou ainda pilotos e cirurgiões.

Nele, mulheres foram privadas de água e submetidas a testes de cognição antes e depois de devidamente hidratadas. Após beberem a quantidade ideal de água, a taxa de erros foi reduzida em cerca de 12%.

100% hidratado

O caminho óbvio para fugir das consequências da baixa hidratação do corpo é sempre reabastecer-se de água. A resposta sobre a quantidade e a frequência necessárias para isso, no entanto, não precisam cair na clássica orientação de 2 litros ou oito copos de líquido ao longo do dia.

Como aponta a Organização Mundial da Saúde, embora se assuma que a quantidade necessária de líquidos seja de 2 litros para adultos, o consumo “varia de acordo com o clima, nível de atividade e dieta”.

No calor, o corpo humano usa muita energia para manter a temperatura estável, processo no qual aumenta sua produção de suor. No frio, o problema no caso dos brasileiros é outro: ainda que em quantidade diferente, o consumo de água se faz necessário para compensar o ar seco, que torna a população mais suscetível a doenças respiratórias, por exemplo.

Além disso, um corredor de maratona vai precisar repor muito mais água do que alguém de físico equivalente que não esteja praticando nenhum exercício. Por fim, quanto à dieta, a recomendação dos 2 litros pode variar porque a reposição de líquido pode ser feita diretamente com a ingestão de água, mas também por meio de outras bebidas como chás e sucos, ou ainda pelo consumo de alimentos como frutas e legumes.

No caso de idosos, há ainda outros fatores a serem levados em conta, como o fato de terem uma composição reduzida de líquido no corpo e uma percepção alterada sobre sede – que nada mais é do que a forma de o cérebro alertar para o baixo nível de água no corpo.

Para não errar na medida ingerindo quantidades desnecessárias – e prejudiciais – de líquido, a recomendação é analisar a cor da urina. Quando transparente ou muito clara, há excesso de água no corpo. Quanto alaranjada ou obscurecida com outras colorações, as razões podem ser que há água de menos ou ainda problemas de saúde mais graves.

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