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Este mapa mostra quais as áreas marinhas intocadas do planeta

Levantamento estima que apenas 13,2% das águas oceânicas sofreram pouca ou nenhuma influência de atividades humanas

Cerca de 70% da superfície terrestre, ou algo em torno de 360 milhões de quilômetros quadrados (km²), é composta por oceanos. Segundo o Serviço Nacional dos Oceanos, órgão do Ministério do Comércio dos Estados Unidos, mais de 80% de toda essa água salgada não foi sequer mapeada. Mesmo sem saber ao certo o que cada canto do alto-mar esconde, no entanto, a humanidade conseguiu estender sua influência a grande parte dessas áreas.

Uma pesquisa publicada em 26 de julho de 2018 na revista científica Current Biology, estimou que apenas 13.2% das águas oceânicas permanecem “intocadas”, ou seja, praticamente não foram perturbadas por atividades humanas.

“Nossos resultados mostram que há poucos lugares nos oceanos em que as pessoas não estejam interessadas em usar para algum propósito”, disse Kendall Jones, co-autor do estudo e pesquisador da Universidade de Queensland, na Austrália, ao site LiveScience.

Para descobrir a extensão do problema, os pesquisadores consideraram 15 efeitos causados por atividades humanas, como pesca, poluição, mudanças climáticas e navegação, e que podem afetar águas marinhas em algum nível.

Tais efeitos foram associados às alterações ambientais de cada uma das regiões oceânicas, como mudanças na temperatura da superfície marinha, incidência de radiação UV, acidificação dos oceanos e aumento do nível do mar.

Para ser definida como “intocada”, cada área precisava alcançar dois índices diferentes. Primeiro, tinha de registrar impacto menor que 10% em todos os 15 fatores relacionados à presença humana. Além disso, a influência de cada um deles deveria ser de até 10% quando se considerava todos os 19 fatores indicativos de problemas (15 que faziam referência às atividades humanas e quatro relacionados ao ambiente).

Foto: Reprodução/Jones et al
Áreas "intocadas" dentro e fora de zonas de exploração econômica, indicadas na linha tracejada
Áreas "intocadas" dentro e fora de zonas de exploração econômica, indicadas na linha tracejada
 

Apenas 4,9% das áreas “intocadas” estão concentradas em zonas de proteção internacional (da sigla em inglês MPA, como você vê na imagem acima), que possuem regulações para as atividades marítimas. Cerca de 7% da área total dos oceanos se encaixa nessa categoria.

“Áreas oceânicas intocadas reúnem grandes índices de biodiversidade e espécies endêmicas, e são alguns dos lugares da Terra onde grandes predadores ainda são encontrados”, disse Jones, em comunicado.

Qual a localização dessas áreas

Em comum, as regiões preservadas se encontram mais afastadas do Hemisfério Norte, porção mais populosa do globo, e em “alto-mar”.

Tal definição faz referência a regiões que estão fora da jurisdição de países. Cada nação tem controle e responsabilidade administrativa por uma distância de 200 milhas náuticas de sua costa. Além dessa marca, territórios oceânicos passam a ser considerados “águas internacionais”.

“Oceanos cobrem uma área com quase 140 milhões de milhas quadradas de tamanho. Ela é tão imensa que os exploradores já chegaram a se questionar se seria possível atravessá-la por completo. Uma vez que conseguimos criar embarcações suficientemente avançadas para fazê-lo, naturalistas duvidaram se seria possível exaurir áreas pesqueiras ou provocar a extinção de espécies marinhas. Provamos que eles estavam errados.”

Kendall Jones,

cientista que liderou a pesquisa, em artigo para a revista Scientific American

Os oceanos gelados Ártico e Antártico, além de zonas insulares remotas do Pacífico, têm destaque. Como publicou a National Geographic, essas três áreas específicas concentram 97% das águas marinhas consideradas “intocáveis” no planeta:

  • águas frias do hemisfério norte - 44 milhões de km², de uma área total de 155 milhões de km²
  • águas quentes do Indo-Pacífico - 25 milhões de km², de 313 milhões de km²
  • águas frias do hemisfério sul - 10 milhões de km², de uma área de 36 milhões de km²

Os 3% restantes estão distribuídos por 150 milhões de quilômetros quadrados. Áreas em que atividades comerciais e produtivas são permitidas representam apenas 10%. Países como a Nova Zelândia (25%), Chile (6%) e Austrália (4,3%) possuem a maior parte desse total.

Os pesquisadores destacam que não foi considerada, por exemplo, a influência da poluição por plástico, por não existirem dados suficientes a nível global. Segundo o grupo, caso o fator “aquecimento global” estivesse entre o grupo de 19 efeitos, nenhum dos oceanos do planeta poderia ser chamado de “intocado”.

“Essas áreas estão em declínio, e protegê-las precisa se tornar o foco de acordos ambientais multilaterais. Caso contrário, elas provavelmente desaparecerão dentro de 50 anos”, disse Jones, em entrevista à AFP.

A ONU (Organização das Nações Unidas) começou a negociar a formulação de um tratado internacional de conservação de águas marinhas. A primeira de quatro conferências deve acontecer em setembro de 2018. Espera-se que o acordo possa ser assinado pelos países-membros a partir de 2020.

 

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