Quem é a cantora de flamenco que está reavivando esse gênero musical

Aos 24 anos, a catalã Rosalía apresenta a expressão mais tradicional da cultura espanhola a gerações mais novas e borra os limites do estilo

    O clipe da música “Pienso en tu mirá (Cap. 3: Celos)”, lançado em 23 de julho de 2018, repercutiu em questão de horas. Na segunda-feira (30), o contador de visualizações do YouTube passava da casa dos 3,7 milhões.

    O sucesso quase instantâneo — em curtidas nas redes sociais e em textos em jornais e revistas — é um feito considerável para Rosalía, uma cantora de flamenco de apenas 24 anos que tem dado nova cara à música espanhola desde que lançou seu primeiro disco, em 2017.

    As palmas para marcar o tempo, o olhar profundo e alguns passos de dança não deixam dúvida: o que ela faz é flamenco, gênero musical dramático e tradicional, ligado, na origem, à cultura mourisca e cigana do sul do país, na Andaluzia, e explorado como expressão da alma espanhola durante a ditadura (1936-1975) de Francisco Franco.

    Entretanto, a embalagem rítmica de Rosalía, assim como a maneira com que se veste - agasalhos esportivos, bonés, tops curtos - e o fato de não ser andaluza nem cigana são usados por uma parte da opinião pública para criticar tal “desonra” a um símbolo de identidade nacional.

    Apesar do debate sobre apropriação cultural levantado por Rosalía, o diretor de cinema Pedro Almodóvar, de olho no fenômeno pop, já a escalou para estrelar seu próximo filme, “Dolor y Gloria”, ao lado de Penélope Cruz e António Banderas.

    “Pienso en tu mirá” é o segundo single de seu novo disco, “El Mal Querer”. O vídeo de “Malamente (Cap. 1: Augurio)”, que abriu a divulgação do álbum em maio de 2018, foi descrito no jornal El País como uma síntese da história espanhola moderna. O clipe mostra bailarinos, aprendizes de touradas, skatistas, flores enfeitando o painel de um carro tunado, um estacionamento vazio, Rosalía cantando dentro de um caminhão: visões de uma Espanha jovem, mais periférica e millennial, por vezes muito semelhante à imagem cultural da música pop da América Latina.

    Quem é Rosalía

    Rosalía Vila nasceu em Sán Esteban de Sasroviras, um vilarejo de pouco mais de 7.000 habitantes nas cercanias de Barcelona.

    “Filha de pais muito trabalhadores”, como definiu-se em uma entrevista ao jornal El Mundo, encantou-se na adolescência com o flamenco, nada ligado às suas raízes catalãs.

    Em entrevista ao canal Cero da TV espanhola, ela conta que se apaixonou pelo gênero quando, aos 13 anos, passou a ouvir música com amigos de escola depois da aula e descobriu Camarón de la Isla (1950-1992), um dos maiores cantores de flamenco. “Naquela hora minha cabeça explodiu.”

    Rosalía estudou música na universidade e se especializou em técnica lírica e canto flamenco. Nas redes sociais, além de falar de flamenco, ela também se apresenta como uma cantora ligada à cultura trap, nascido do rap e da música urbana, baseado em uso pesado de sintetizadores e batidas eletrônicas. Esse flerte a fez trabalhar em parceria com artistas espanhóis de vertentes diversas, do rap à música folclórica. 

    É essa base sonora que sustenta a maior parte das canções de seu primeiro álbum, “Los Ángeles”, produzido com o multi-instrumentista Raül Refree e lançado em abril de 2017. Amor e morte são os temas do disco. No catálogo de apresentação, a definição sobre o trabalho: “Partindo do flamenco, [Rosalía e Refree] traçam novos caminhos de difícil catalogação. Novidade e experimentação para retornar ao antigo, ao primário”. No repertório, muitas canções tradicionais de flamenco que já estão em domínio público e um cover de “I see a darkness”, do músico americano Will Oldham.

    Elogiada por “cantar como uma velha” as dores típicas do gênero e convencer millennials a escutar flamenco, Rosalía foi indicada ao Grammy Latino na categoria “revelação”.

    O flamenco e a Catalunha

    A partir de 2018, com o lançamento de “Malamente” e a guinada em direção ao pop, as críticas se tornaram mais intensas. Além das roupas extravagantes, Rosalía é questionada por cantar com forte sotaque andaluz, cortando as últimas sílabas e usando gírias locais. 

    “Rosalía usa os ciganos como algo ‘cool’ para compor seu disfarce, mas não somos importantes para ela, socialmente falando”, afirmou no Twitter Noelia Cortés, uma ativista cigana.

    Mala Rodríguez, cantora de hip-hop nascida na Andaluzia, a criticou publicamente por ser uma “fingida”. “Parece lógico que as ciganas estejam enfurecidas com Rosalía. De fato, ela está fazendo uso de certas coisas que pertencem à identidade do povo andaluz e da comunidade cigana”, disse, em entrevista à ABC.

    “Flamenco não é patrimônio exclusivo da Andaluzia, e também não há nada no caráter catalão ou na cultura catalã que nos distancie dele”, afirma a cantora, em resposta às críticas. “Não tenho intenção de agradar a todos. Creio que, em algum lugar, alguém vai gostar do que faço. Haverá puristas que vão gostar, e outros que não vão. Música, ao final das contas, tem que ser algo genuíno, autêntico, visceral.”

    Afirma ainda que a proposta visual precisa ser coerente com as referências que o artista traz, com o lugar de onde vem. “Tenho que ser transparente com isso. Me parece absurdo me vestir de acordo com os clichês de um gênero musical, até porque os estilos se misturam.”

    A provocação de Rosalía acirra os sentimentos nacionalistas dos espanhóis andaluzes, que também reclamam autonomia, e a disputa cultural com os catalães. Isso porque a origem do flamenco está intimamente ligada à Andaluzia, região historicamente marcada por guerras e pobreza, que tem como principais cidades Sevilha, Córdoba, Granada, Cádiz e Málaga. Durante a Idade Média, essa região espanhola foi dominada pelos mouros e habitada por árabes muçulmanos e também judeus.

    O flamenco é capaz de admitir múltiplas variações, tanto na dança como no canto. A partir do século 15, o gênero se espalhou por todo o país graças à movimentação de ciganos pelo território, além do próprio fluxo migratório de sulistas, que se mudavam para a Catalunha em busca de emprego, ao longo do século 20.

    Durante seu governo, o ditador Francisco Franco reconfigurou o flamenco. Segundo a obra “Flamenco: conflicting histories of the dance” (Flamenco: histórias conflitantes sobre a dança, em tradução livre), de Michelle Heffner Hayes, durante o regime de Franco o flamenco tornou-se uma expressão cultural massificada e mais moralista, embora a temática tenha permanecido a mesma (amor, sexo, morte, dor, violência), numa tentativa de domesticá-lo. Na Espanha sob Franco, muitas “cantaoras” - cantoras de flamenco - passavam uma imagem de maternidade e responsabilidade.

    Os ciúmes

    “Pienso en tu mirá” fala de violência e ciúme (“los celos”), temática cara ao flamenco e que na canção ganha outra camada de interpretação, muito mais crítica.

    No jornal El País, a jornalista Isabel Valdés assim define o trabalho de Rosalía no clipe de “Pienso en tu mirá”: “Em quatro minutos, ele [o clipe] cria e destrói, em certo sentido, algumas das ideias mais mofadas e enraizadas do machismo, aquelas que têm a ver com o controle e a posse da mulher que se ama. Não é a primeira vez e nem será a última que se canta sobre ciúmes. Mas essa é uma das poucas - se compararmos com o imenso número de vezes em que o ciúme é posto como prova de amor - em que se reflete sobre sua violência e seu domínio constantes. Para aniquilá-los.”

    O ritmo da música tem uma pegada moderna, mas segundo a jornalista, “quem entende do assunto diz que a canção é uma típica ‘bulería por soleá’”, uma das variações rítmicas de flamenco. 

     

    Os versos de “Pienso en tu mirá”

    “Tenho medo quando você sai Sorrindo pela ruaPorque todos podem verAs covinhas que te saemE ao ar quando você passaPor levantar teu cabeloE ao ouro que te vestePor se amarrar ao seu pescoçoE ao céu da luaPorque você o quer verE até da água que bebeQuando te molha os lábiosPenso em seu olharSeu olharCrava uma bala no peito”

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