Por que estas mulheres percorreram a Tour de France sem concorrer

Grupo de ciclistas liderado por 13 mulheres pedalou os 3,3 mil quilômetros da prova durante 23 dias para mostrar aos organizadores da corrida que não concordam com as regras do evento

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    Foto: Divulgação
    Chegada das 13 ciclistas do ‘Donnons des elles au vélo’ em Paris
    Chegada das 13 ciclistas do ‘Donnons des elles au vélo’ em Paris

    No domingo (29), o galês Geraint Thomas cruzou com sua bicicleta a linha de chegada da Tour de France, uma das mais famosas competições de ciclismo do mundo, sagrando-se campeão da edição de 2018. Abaixo dele no pódio, ficaram o holandês Tom Dumoulin e o inglês Chris Froome.

    Um dia antes, no entanto, outro grupo de ciclistas profissionais avançou sobre a Champs Élysées, em Paris, na França, para completar a última etapa depois de 23 dias de prova e 3.351 km rodados. Com apenas duas diferenças notáveis: todas as bicicletas eram ocupadas por mulheres e nenhuma delas estava inscrita ou sequer recebeu qualquer prêmio da organização oficial.

    O grupo de mulheres foi liderado por 13 atletas e ativistas de um coletivo intitulado Donnons des elles au vélo (algo como “Dê a elas uma bicicleta”, em tradução livre) que desde 2014 cobra a inclusão de mulheres na Tour de France, prova anual que desde sua criação em 1903 só pode ser disputada por atletas homens.

    Pé de igualdade

    As 13 atletas fizeram exatamente o mesmo trajeto e cumpriram as exatas 21 etapas originais da competição. O objetivo não era o pódio, mas demonstrar que as profissionais do ciclismo têm condições de estar na Tour de France – ou em uma prova equivalente voltada para mulheres –, tanto quanto seus colegas masculinos.

    A reivindicação atual, no entanto, tem origem em mobilizações feitas por mulheres anos atrás.

    Na década de 1980, a organização Tour de France criou uma prova exclusiva para mulheres, o Tour de France Féminin. Com variações de nome e organização, a prova seguiu acontecendo até 2009 quando, sem interesse de mídia ou patrocinadores, a competição deixou de ser realizada.

    Em 2013, um grupo de ciclistas profissionais se mobilizou e passou a exigir a inclusão de mulheres na Tour de France, ainda que pedalando em tempos diferentes aos dos homens. Com medalhistas olímpicas como Emma Pooley e Marianne Vos à frente, a mobilização envolveu um abaixo-assinado que obteve quase 100 mil assinaturas.

    As atletas apontavam o ciclismo como um dos esportes mais desiguais entre homens e mulheres do mundo. Elas tinham menos oportunidades de corridas, realizavam provas de circuitos menores, campeonatos com pouca cobertura televisiva e premiações em dinheiro menores.

    “Nós não buscamos competir contra os homens, mas ter o nosso próprio circuito profissional em conjunto com o evento masculino, na mesma época, com as mesmas distâncias, nos mesmos dias, com modificações nos horários de largada e chegada para que nenhuma corrida interfira na outra”, dizia o texto da petição.

    Para as ciclistas, competir dessa maneira seria uma  oportunidade de “derrubar os mitos sobre as limitações físicas das atletas femininas”.

    A mobilização resultou na criação em 2014 da “La Course by Le Tour de France”, prova de um dia em que atletas mulheres percorrem um trecho montanhoso de 112,5 km, cerca de 3,3% do trajeto completo disputado pelos homens.

    A premiação, em razão da diferença na prova, também foi menor. Neste ano, enquanto Geraint Thomas embolsou 500 mil euros pela sua vitória, à holandesa Annemiek van Vleuten coube o prêmio de 6 mil euros.

    Até o fim

    A ciclista profissional Anna Barrero estava entre as 13 atletas que percorreram a Tour de France antes da corrida oficial. Ao site Mashable, ela disse que o objetivo é “mostrar para o resto do mundo que as mulheres são perfeitamente capazes de fazer e completar a Tour de France” e que elas querem “exatamente as mesmas oportunidades que os homens”.

    Segundo Barrero, a campanha levada pelo grupo tem “muito apoio”, exceto dos organizadores. “Os únicos que dizem não ser possível são os organizadores da Tour de France”, referindo-se à empresa ASO (Amaury Sport Organisation), a qual teria respondido ao coletivo feminino, segundo a atleta, que “no momento não é possível” realizar uma prova equivalente para mulheres.

    Essa é a terceira vez que as atletas completam o circuito reservado a homens logo antes da prova. Para o ano que vem, o grupo convida mais mulheres a aderir. “Existe uma razão para termos uma corrida feminina”, disse Barrero. “Vamos continuar fazendo isso até termos uma resposta positiva e ganharmos igualdade.”

    Garotas do pódio

    A ASO também está sendo alvo de críticas por ainda contar com as chamadas “garotas do pódio”, mulheres de salto alto posicionadas nos locais de premiação cuja função é sorrir e entregar o prêmio ao ciclista vitorioso. Na Fórmula 1, por exemplo, a figura da “grid girl” foi recentemente substituída por crianças.

    Foto: Philippe Wojazer/Reuters

    “A ASO, francamente, tem um problema com mulheres”, disse a medalhista britânica Emma Pooley ao jornal The New York Times. “Há um papel para as pessoas no pódio de tornar a apresentação glamurosa. Realmente ajuda ter pessoas lá que sabem o que estão fazendo quando entregam os prêmios. O que eu não entendo é o que sexo ou sexualidade tem a ver com isso.”

    “Você consegue imaginar ir à Maratona de Nova York e as únicas mulheres presentes estão entregando troféus para os homens? E pensar que a corrida das mulheres ocorresse em outro lugar e fosse de apenas 5 km?”, disse a atleta.

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