Quem é Jocy de Oliveira, pioneira da música eletrônica no Brasil

Presente na abertura da Flip 2018, musicista já colaborou com nomes como Igor Stravinsky e Luciano Berio e realizou um espetáculo multimídia em 1960

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    A emocionada leitura de Hilda Hilst realizada por Fernanda Montenegro na abertura da Flip 2018 foi destaque nos principais veículos de comunicação. Menos atenção teve a mulher que se apresentou em seguida: Jocy de Oliveira. Não foi por falta de peso histórico.

    Em 1960, a jovem Jocy, com 25 anos, levou aos palcos dos teatros municipais do Rio de Janeiro e São Paulo a ópera “Apague meu spotlight”, com música eletrônica, coreografia, cenários de luz e gravações com vozes de atores como Sérgio Britto e da própria Fernanda Montenegro.

    “Drama com música eletrônica”, descreveu o jornal O Estado de S. Paulo em resenha da época. Influenciada pelas vanguardas musicais europeia e americana, de compositores como o alemão Karlheinz Stockhausen, o italiano Luciano Berio e o americano John Cage, Jocy pertence ao ultra-seleto clube dos primeiros exploradores de sons eletrônicos no Brasil.

    Jocy estudou e trabalhou ao lado de vários desses nomes estrangeiros, entre eles o russo Igor Stravinsky. A própria “Apague meu spotlight” foi composta em parceria com Berio, italiano que morava nos Estados Unidos na década de 1960. Os experimentos do músico com fita magnética e aparelhos eletrônicos influenciaram os Beatles em trabalhos como “Tomorrow Never Knows” e “Revolution 9”.

     

    Um dos destaques da discografia de Jocy é o álbum de 1981 “Estórias Para Voz, Instrumentos Acústicos e Eletrônicos”, que reúne trabalhos seus realizados desde 1966. O disco foi relançado em 2017 pelo selo inglês Blume.

    Na Flip 2018, foi lançado o livro “Leituras de Jocy”, uma compilação com 27 autores de diferentes áreas, de especialistas a colaboradores, dando depoimentos ou fazendo análises sobre a obra da musicista. Entre eles, estão um depoimento de Fernanda Montenegro e o texto “Jocy e a vitória num gênero machista”, de Arthur Dapieve, que chama a atenção para o fato de a artista ser um caso raro de mulher no meio predominantemente masculino da música erudita.

    O Nexo conversou com Jocy de Oliveira por e-mail.

    Nos anos 1950, o que a atraiu para as inovações estéticas e técnicas propostas por nomes como Stockhausen, Cage e Berio?

    Jocy de Oliveira  Foi na década de 1960 que tive a oportunidade de conviver com grandes mestres da música contemporânea no século 20 como [Igor] Stravinsky, [Oliver] Messiaen, Berio, Stockhausen, John Cage, [Iánnis] Xenákis e [Cláudio] Santoro, entre outros. Foi como um divisor de águas para uma jovem em seus 20 anos! Um novo universo sonoro no qual mergulhei e me dediquei como pianista, estudando e interpretando a obra desses compositores muitas vezes em primeiras audições, assim como tocando sob a batuta de Stravinsky, sem dúvida o momento mais emocionante de minha vida profissional.

    A década de 1960 foi como um novo dadaísmo no sentido da pesquisa, descobertas, novas linguagens, de certa forma refletindo também o mundo de rupturas na área socio-política, na questão de gênero e demais convenções.

     

    Aquele período foi marcado por uma vontade de varrer convenções e tradições musicais. O que estava por trás dessa atitude? Ela ainda faz sentido hoje?

    Jocy de Oliveira A libertação, a busca de novos horizontes. Não se tratava de varrer tradições musicais, mas de encontrar outros caminhos, pois esse foi inclusive o momento em que se consolidaram os meios eletrônicos. Talvez nada mais faça sentido hoje porquanto estamos nos tornando anestesiados e deixando escapar à escuta como ouvir e penetrar nos misteriosos meandros da arte e da organização sonora. Ouvir o outro! Em nenhum outro período histórico houve como hoje um tal distanciamento entre a criação musical e o ouvinte.

    “Apague meu spotlight” foi um espetáculo pioneiro por ter sido de música eletrônica e também multimídia. Como foi recebido na época?

    Jocy de Oliveira Ele representou a primeira vez em que a música eletrônica foi ouvida no Brasil nos teatros municipais do Rio e de São Paulo. Composta por mim em parceria com Luciano Berio, com a participação do Teatro dos Sete, Fernanda Montenegro, Italo Rossi, Sérgio Britto, como um drama eletrônico seguindo minha dramaturgia. Os teatros ficaram lotados, tanto em São Paulo como no Rio. As pessoas que assistiram ainda se lembram do impacto sonoro e visual. A crítica se escandalizou com a inovação e naquela época o público reagia, era um público ativo e não passivo como hoje.

    O fato de ser mulher em um meio que era (e até hoje é) dominado por homens trouxe muitos obstáculos?

    Jocy de Oliveira Sim. O fato de ser mulher compositora num universo masculino naturalmente interfere. Em toda programação mundial de música erudita, apenas 2% são de mulheres compositoras. Existe um tabu em certas profissões, assim como também com regentes. São áreas do pensamento, escolhas estéticas que se acredita que devem ser regidas pelos homens.

    A música eletrônica pertencia a um ambiente vanguardista e erudito nos anos 1960. Hoje está por toda parte. A sra. acompanha desenvolvimentos mais recentes na área, tanto no campo popular como erudito?

    Jocy de Oliveira Música eletrônica criada nas décadas de 1950 e 1960 nada tem a ver com a estética de hoje, mas foi devido àquelas pesquisas que a música pop hoje faz uso desse meio. Ainda uso a música eletroacústica aliada a instrumentos acústicos e vozes. Existem alguns movimentos de música eletrônica progressista dentro de conceitos mais pop que são interessantes.

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