Como uma empresa perde mais de R$ 440 bilhões em um único dia

Facebook divulga balanço e vê valor de mercado diminuir o equivalente ao PIB da Hungria. Entenda como se calcula e o que influencia a avaliação de uma empresa

     

    As ações do Facebook tiveram uma queda histórica no pregão de quinta-feira (26) nos Estados Unidos. Os papéis, que valiam cerca de US$ 217,50 na quarta, terminaram o dia seguinte negociados a US$ 176,26 - uma redução de quase 19%.

     

    Em números absolutos a queda é ainda mais impressionante. Em apenas 7 horas de pregão, o Facebook perdeu US$ 120 bilhões em valor de mercado, cerca de R$ 445 bilhões na cotação do dia. Em dólares, foi a maior queda da história do mercado americano.

     

    Isso significa que o valor total da empresa diminuiu, em um dia, o equivalente ao PIB do Kuwait ou da Hungria. O que o Facebook perdeu em algumas horas é o que a economia do Brasil inteira demora, aproximadamente, 24 dias para produzir.

     

    Comparando com outras empresas, a perda do Facebook equivale ao valor de mercado de gigantes como a Nike e o McDonald's. Petrobras e Vale, as duas maiores empresas listadas na bolsa brasileira, valem, respectivamente, US$ 74,5 e US$ 72,4 bilhões.

     

    Mark Zuckerberg, fundador e maior acionista do Facebook, perdeu sozinho US$ 15,4 bilhões. Ainda assim a empresa segue valendo mais de US$ 500 bilhões.

     

    Queda histórica

     

     

     

     

    Na economia do passado, a perda de um valor tão grande em tão pouco tempo só poderia acontecer em caso de alguma catástrofe palpável: um incêndio que consumisse um complexo de produção, por exemplo. Mas na bolsa de valores, ainda mais quando se fala de uma empresa de tecnologia, a volatilidade tem a ver com as expectativas. Nesse caso, com a frustração de expectativas.

     

    Os sinais de alerta

     

    A decepção foi uma reação ao balanço do segundo trimestre, transcorrido entre abril e junho, divulgado pela empresa na quarta (25). A arrecadação com anúncios foi menor que o esperado. O crescimento no número de usuários desacelerou. Isso não quer dizer que o Facebook perdeu usuários, apenas que eles estão aumentando em um ritmo mais lento e abaixo do que investidores projetavam.

     

    Ao comentar os resultados, o diretor financeiro da empresa, David Wehner, admitiu que o crescimento do Facebook pode ser mais lento nos próximos trimestres e o lucro também pode ser afetado pela necessidade de investimento em novos produtos e gastos com segurança e proteção.

     

    Um terceiro motivo de receio é o novo Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Europeia, que pode afetar os negócios da empresa no continente. As novas regras entraram em vigor no fim de maio e seus efeitos não podem ser completamente conhecidos em um balanço que só vai até junho.

     

    Pode parecer óbvio, mas o preço de uma ação, e consequentemente de uma empresa, é o valor que um comprador aceita pagar e um vendedor aceita receber por ela. Os donos das ações do Facebook, antecipando uma suposta nova realidade, correram para vender e foram aceitando ofertas mais baixas por ela. Durante o dia, com a oferta de papéis maior que a procura, o valor continuou caindo até uma ação ser negociada 19% mais barata do que pela manhã.

     

    Como se avalia uma empresa

     

    As ações são como fatias de uma empresa. Se uma empresa hipotética tem 10 ações, cada uma equivale a 10% do valor total da empresa. Assim, o valor de mercado de uma empresa na bolsa nada mais é do que a soma do valor de todas as ações. Como o valor de uma ação muda a todo momento em que ela é negociada, o valor de mercado da empresa também varia.

     

    A avaliação de uma ação, e consequentemente de uma empresa, é feita não só com base em seus bens, sua capacidade atual de produção e venda, e as margens de lucro. Ao avaliar uma ação, o importante é tentar medir também quanto a empresa pode dar de retorno no futuro. Esse é o motivo pelo qual as expectativas importam, e pelo qual o valor da empresa pode se alterar se seus executivos anunciam que as projeções para o futuro são hoje piores do que eram antes.

     

     

     

    Capacidade de gerar retorno no futuro

     

    Às vezes, os investidores enxergam valor em uma empresa de menor porte e que pode até dar prejuízo num momento inicial. Ela pode ter, por exemplo, a patente de uma nova invenção ou a tecnologia que vai baratear a produção de um determinado bem. Nesse caso, ela não é grande ainda, mas tem as ferramentas necessárias para crescer, e se valorizar.

     

    Vamos supor que uma mineradora tenha terras perto de onde se descobriu ouro. Mesmo que não haja nenhuma informação definitiva sobre ouro nas terras da empresa, aumenta a expectativa e as ações podem subir.

     

    A expectativa pode ser confirmada ou desmentida pelo tempo. O caso da derrocada da EBX, grupo de Eike Batista, está ligado a projeções não confirmadas. Estudos preliminares mostravam uma quantidade de recursos minerais que não se confirmou na hora da exploração. Os preços subiram com a expectativa e depois despencaram com a realidade.

     

    A queda brusca no preço do Facebook tem a ver com a mudança de percepção sobre a capacidade de a empresa gerar lucro. E a mudança de percepção contagia outras empresas que, em teoria, não têm ligação com o Facebook. O Twitter, que é outra empresa, anunciou que perdeu 0,3% de usuários após excluir contas falsas e viu suas ações caírem 20% durante a sexta-feira (27). Além de frustrar expectativas de crescimento, o preço da ação foi também contaminado pela mudança na avaliação de investidores sobre a capacidade das empresas de redes sociais.

     

    Comparando com a mineradora, é como se os investidores agora achassem que há menos ouro ali do que eles pensavam no fim do dia de terça-feira.

     

    Polêmicas recentes do Facebook

     

    O Facebook está no centro de debates sobre privacidade no mundo, o que vem forçando a empresa a mudar políticas e a responder questionamentos - inclusive do Congresso dos Estados Unidos. A empresa vem sofrendo pressão de governos e órgãos reguladores ao redor do mundo por problemas relacionados a privacidade e fake news.

     

    Em março, veio à tona a informação de que a empresa de consultoria Cambridge Analytica usava dados de 50 milhões de usuários do Facebook em campanhas políticas como o Brexit e a eleição de Donald Trump. O fundador do Facebook pediu desculpas publicamente pelo caso e prometeu fechar as brechas usadas pela consultoria.

     

    No Brasil, o mais recente episódio envolvendo o Facebook está relacionado à retirada de páginas e perfis que atuavam em rede infringindo os termos de uso da empresa, inclusive com uso de perfis falsos, para espalhar "desinformação". A retirada das páginas, ligadas a movimentos de direita, provocou protestos de grupos como o Movimento Brasil Livre.

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