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Quais países sofrem com ondas de calor. E o que causa o fenômeno

Hemisfério Norte vive um verão mais quente que a média. Cidades no Japão, Grécia, Canadá e até Suécia estão sendo afetadas por altas temperaturas, secas e incêndios

Diferentes países da porção norte do mundo estão enfrentando uma temporada de clima incomum. Do Japão ao Canadá, passando por Paquistão, Grécia e Suécia, as regiões enfrentam um fenômeno conhecido como onda de calor: altas temperaturas que duram um período de dias a semanas, o que favorece a ocorrência de secas, queimadas e complicações de saúde na população que, em muitos casos, são fatais.

No Reino Unido, o mês de junho foi o segundo mais quente já registrado na história da região, bem como um dos mais secos (Londres teve apenas 6% da chuva que costuma receber no mês), o que afetou o nível de reservatórios e rios e permitiu a ocorrência de queimadas na Inglaterra. Na Escócia, no fim daquele mês, os termômetros da cidade de Motherwell marcaram 33,2°C, a temperatura mais alta já registrada no local.

Pelo Twitter, a ESA (Agência Espacial Europeia) evidenciou a gravidade da seca na região comparando imagens aéreas do Reino Unido e do oeste da França, entre junho e julho de 2018.

A situação europeia alcançou outro patamar quando até mesmo a Suécia, país em que parte do território ocupa o Círculo Polar Ártico, passou a evacuar vilarejos e pedir assistência de nações vizinhas em razão dos incêndios. Até o dia 19 de julho, 49 queimadas  ocorriam simultaneamente no país.

Um especialista do Instituto Nacional de Metereologia e Hidrologia sueco, em entrevista ao jornal The New York Times, se referiu a 2018 como “um ano muito estranho”. “É uma situação atípica que está alinhada com o que esperaríamos ver de extremo, em perspectiva com o aquecimento global.”

As temperaturas também bateram recorde na Argélia, em meio ao deserto do Saara, no Norte da África. Por lá, as temperaturas bateram a marca de 51,3 °C no dia 5 de julho.

Na América do Norte, cidades do estado americano da Califórnia foram afetadas pela onda de calor durante todo o mês de julho – atualmente as temperaturas em algumas regiões do estado passam de 50°C e assim devem continuar nos próximos dias.

Em situação ainda mais grave está o Canadá, onde pelo menos 50 mortes já foram associadas à onda de calor enfrentada no país.

No continente asiático, o Paquistão já havia sofrido com as altas temperaturas que afetaram a região por vários dias, matando pelo menos 65 pessoas.

O Japão, também gravemente afetado pela situação climática, passou a se referir recentemente à onda de calor como um desastre natural, depois de mais de 80 pessoas morrerem no país desde maio de 2018 e outras 22 mil serem hospitalizadas em razão das altas temperaturas.

Na cidade japonesa de Kumagaya, localizada a 60 km de Tóquio, os termômetros registraram a temperatura mais alta de que se tem registro no Japão: 41,1°C. A agência de meteorologia local emitiu alerta apontando para o fato de que a onda de calor não deve cessar logo e temperaturas da ordem de 35°C são esperadas até meados de agosto.

Na Grécia, no litoral sul da Europa, queimadas vêm se espalhando rapidamente desde 23 de julho. Muitas delas fecharam estradas e consumiram casas em regiões próximas à capital Atenas, causando a morte de pelo menos 82 pessoas. O governo, que colocou toda a frota de aviões para combater as chamas, diz que o número de vítimas ainda deve crescer.

Foto: Antonis Nicolopoulos/Eurokinissi/Reuters
Imagem no dia 25 de julho mostra estrago causado na vila grega de Mati
Imagem feita no dia 25 de julho mostra estrago causado na vila grega de Mati

O que define uma onda de calor

O clima, que pode ser entendido como insuportável e perigoso em termos de saúde pública para um escandinavo, pode ser apenas um dia comum na vida de um brasileiro. Da mesma forma, altas (ou baixas) temperaturas duram mais ou menos tempo, dependendo de onde se está no planeta.

Por isso, a definição sobre o que deve ser entendido como onda de calor varia. O problema é reconhecido pela Organização Meteorológica Mundial, que recomenda a adoção da seguinte definição geral:

“Um clima quente evidentemente incomum (em termos de máxima, mínima e média diárias) sobre uma região que persiste por pelo menos dois dias consecutivos durante a estação quente do ano com base nas condições climatológicas locais, e com registros das condições térmicas acima dos limites padrões.”

Organização Meteorológica Mundial

Definição de onda de calor

A entidade também se refere ao fenômeno meteorológico como causador de mortes, responsável por prejuízos na agricultura, queimadas e falta de energia – em razão do aumento repentino de uso de ar-condicionado – e água.

Sem o devido preparo para a condição climática adversa, parte da população sofre. Há quem não beba água na frequência devida e é internado por desidratação, pessoas com histórico de problemas cardiorrespiratórios, na maioria idosos, têm maior chance de sofrer infarto ou derrame. 

As possíveis causas

O fenômeno não é novidade. Ondas de calor, bem como de frio, surpreendem diferentes regiões do mundo há muitos anos. Dentre os casos recentes mais graves relacionados ao aumento de temperatura, destacam-se os verões de 2003 na Europa – que deixou mais de 70 mil mortos, sobretudo na França e na Itália – e o de 2000 na Rússia, quando, sob temperaturas acima de 42°C, o país lidou com mais de 50 focos de incêndio e registrou mais de 55 mil mortes.

Embora não seja inédito, o quadro atual é exemplo de como ondas de calor têm se tornado cada vez mais graves, fatais e regionalmente abrangentes. 

“O que incomum é a escala hemisférica da onda de calor”, disse Michael Mann, diretor de um centro de pesquisa de clima da Universidade da Pensilvânia no dia 13 de julho, ao jornal inglês The Guardian. “Não é só apenas a magnitude nos diferentes lugares, mas o fato de que as altas temperaturas estão sendo vistas sobre uma área muito mais ampla.”

Visualmente, usando o serviço e os dados do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa (a Agência Espacial Americana) – voltado ao monitoramento de mudanças climáticas –, é possível comparar a variação de temperatura e a sua distribuição no globo, por exemplo, entre junho de 1976 (data em que países do oeste europeu sofreram com uma grave onda de calor) e 2018.

Os mapas tomam como referência de variação as temperaturas médias registradas globalmente, entre os anos de 1951 e 1980.

Variação de temperatura global (1976 e 2018)

Ainda segundo o instituto da Nasa, o mês de junho de 2018 deu continuidade a uma tendência de aquecimento climático observado nos últimos 40 anos e culminou como o terceiro junho mais quente “dos 138 anos de registros modernos” de temperatura (veja o gráfico). Junho de 2018 perde apenas para o mesmo mês em 2016 e 2015.

Diante dos dados, a busca por uma explicação sobre a força do fenômeno nesse ano passa invariavelmente pelo aquecimento global causado por ação humana.

“É difícil não acreditar que as mudanças climáticas têm um papel no que está acontecendo no globo no momento”, disse Dann Mitchell, especialista da Universidade de Bristol ao The Guardian.

“Não há dúvidas de que a influência humana no clima tem uma grande culpa nessa onda de calor”, disse o professor e climatologista de Oxford, Myles Allen, também ao jornal inglês.

Além disso, especialistas apontam outros fatores em jogo e que ajudam a agravar a situação. É o caso das correntes de jato (jet streams, em inglês), correntes de ar que circulam na atmosfera do planeta em diferentes direções e intensidade. Atualmente, como aponta o pesquisador de Bristol, a Europa lida com uma corrente “extremamente fraca” indo de oeste para leste na região.

“Como resultado, áreas de alta pressão atmosférica estão persistindo por longos períodos sobre o mesmo lugar”, disse Mitchell, o que resulta em um ar mais seco e com menos chances de chuva.

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