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A descoberta de água líquida em Marte. E o que isso significa

Estudo de astrônomos italianos indica que o planeta vermelho pode reunir condições suficientes para abrigar alguma forma de vida

A superfície de Marte é seca e árida, mas seu interior pode ser bem diferente. Dados coletados por cientistas italianos indicam que existe por lá um lago salino com 20 km de extensão, que reúne água em estado líquido. Um artigo científico que detalha a descoberta foi publicado na revista Science na quarta-feira (25).

A chance de existência de água em certas áreas de Marte, na forma de gelo, foi apontada pela primeira vez na década de 1970, quando as sondas Viking sobrevoaram o planeta.

Mais recentemente, missões espaciais já haviam encontrado geleiras subterrâneas em diferentes pontos do território marciano. Em 2015, foi possível flagrar encostas que mudam sua aparência sazonalmente, como se a água escorresse e deixasse marcas no relevo.

Sondas enviadas pela Nasa, da mesma maneira, trouxeram evidências de que há água em Marte também no formato de vapor, em partículas dissolvidas na atmosfera. Faltavam, no entanto, indícios de que o recurso poderia ser encontrado represado em grandes quantidades na forma líquida.

“Foram anos de debate e investigações, ficamos anos discutindo se isso era mesmo possível. Mas agora podemos dizer: descobrimos água em Marte”, disse Roberto Orosei, astrônomo do INAF (Instituto Nacional de Astrofísica da Itália) que liderou o estudo, em entrevista à BBC.

Diferentemente de outras fontes de água descobertas em território marciano, que ou estão sempre congeladas ou aparecem apenas de tempos em tempos, o reservatório em questão parece estar sempre no estado líquido. Ele foi detectado em uma área gelada do planeta vermelho, próxima ao seu pólo sul, e está a 1,5 km abaixo do solo.

Como se sabe que é mesmo um lago

Para a descoberta, os pesquisadores analisaram ondas de baixa frequência captadas pelo radar Marsis, da sonda Mars Express. Mantida pela ESA (Agência Espacial Europeia), a Mars Express é uma missão espacial não tripulada focada nos estudos do planeta vermelho, e está no espaço desde 2003.

O período de análise se deu entre maio de 2012 e dezembro de 2015 e focou em uma área que tem cerca de 200 km de extensão. Foram consideradas, ao todo, 29 amostras captadas pelo radar.

O funcionamento do radar acontece da seguinte maneira: primeiro, o satélite em órbita envia pulsos eletromagnéticos na direção do solo. Esses pulsos são capazes de penetrar a superfície e as calotas de gelo de Marte, atingindo camadas inferiores.

O tempo que cada um dos sinais leva para voltar até o satélite, e a intensidade na qual eles retornam, podem dar indícios sobre a composição geológica marciana - uma vez que materiais diferentes refletem as ondas de formas diferentes.

Comparando as ondas refletidas por Marte com amostras feitas em lagos gelados subterrâneos encontrados na Terra, os cientistas puderam inferir que, de fato, se trata de um grande corpo hídrico.

“As reflexões das camadas inferiores são mais fortes que as da superfície. Isso é algo que nos permite identificar a presença de água”, explicou Orosei, em um vídeo publicado pela INAF. “Essa condição, na Terra, só acontece quando você observa água subglacial, como acontece na Antártida.” Você pode assistir à entrevista completa, em italiano, no vídeo abaixo.

 

Segundo estimativas, a profundidade do lago subterrâneo é de pelo menos um metro. A confirmação de sua extensão, porém, só será possível em expedições futuras, que consigam acessar camadas mais profundas do solo.

“Ir até lá e conseguir a evidência final de que se trata mesmo de um lago não há de ser uma tarefa fácil”, disse Orosei. “Precisaremos levar um robô capaz de perfurar mais de 1,5 quilômetos de gelo, o que certamente requer alguns desenvolvimentos tecnológicos que no momento ainda não estão disponíveis.”

Por que a água do lago marciano não congela

Ainda que Marte registre temperatura média de - 63ºC, o que, a princípio, inviabilizaria o estado líquido e a ocorrência de reservatórios subterrâneos, essa condição é possível pela presença de minerais dissolvidos presentes na água e pela pressão devida à profundidade, que reduzem seu ponto de congelamento.

Na Terra acontece fenômeno parecido, ainda que em menor intensidade. Sabe-se que a água do mar, graças à quantidade de sódio dissolvido que possui, tem seu ponto de congelamento em - 2ºC, diferentemente da água pura, que vira gelo a 0ºC. Em Marte, essa condição é levada a um nível extremo.

Sais de magnésio, cálcio e sódio, abundantes em rochas marcianas, podem ajudar a manter a temperatura de líquidos em até - 74°C, sem que eles assumam a forma de gelo. Essa mistura de elementos torna a água muito salina, e potencialmente tóxica para seres humanos, por exemplo.

Outro fator limitante à vida tão profunda é a pressão: a uma distância da superfície dessa ordem, o peso pode inibir reações químicas essenciais e obrigar organismos a gastar grandes quantidades de energia na regulação de sua pressão interna. Ainda assim, pesquisadores defendem que há a chance de que esse meio possa abrigar formas de vida mais simples.

Por que encontrar água é importante

A disponibilidade de água em estado líquido é indispensável para que a vida - pelo menos da maneira como conhecemos - consiga prosperar. Ainda que um lago marciano gelado e salino seja um meio extremamente insalubre, há registros de certos micro-organismos aqui da Terra que se deram bem em habitats do tipo.

“Esse tipo de ambiente não é exatamente o ideal para nossas férias, ou um local para pescar ou nadar”, afirmou Orosei à agência Reuters. “Mas existem organismos que podem sobreviver e se dar bem em meios parecidos.”

Em 2013, milhares de micro-organismos foram encontrados no lago Whillans na Antártida submersos por camadas de gelo com mais de 800 metros. Estima-se que o continente gelado abrigue mais de 400 lagos do tipo, abaixo da superfície.

Há também relatos de espécies primitivas de micróbios escondidos em minas profundas que, antigamente, viviam na superfície. Acredita-se que há chance do mesmo ter acontecido em Marte.

Há milhões de anos, Marte já foi quente e úmido, com potenciais rios, lagos e mares. Com o resfriamento do planeta, a hipótese é de que a vida tenha “seguido” a água, e ido parar em reservatórios a centenas de metros da superfície.

Baseado no que conhecemos sobre formas de vida e a bioquímica presente no universo, é mais provável que algum ser sobreviva em um meio com abundância de algum “solvente” e uma “unidade elementar” responsável por suas estruturas e funções. É o que acontece com o carbono, por exemplo, base do que chamamos de matéria orgânica.

Como aponta este artigo do site Universe Today, solventes têm a função de permitir reações químicas e o transporte de materiais. Por causa de seu elevado ponto de ebulição e maior chance de permanecer em estado líquido, a água tende a ser o solvente mais capaz de absorver energia suficiente e permitir esses processos.

“Quaisquer descobertas que missões futuras fizerem serão importantes. Se alguns mundos tiverem condições de abrigar vida, mas não forem habitados, nossa querida Terra parecerá um caso ainda mais especial. Se outros planetas tiverem vida, não estamos sozinhos [no universo].”

Trecho de comunicado do site do JPL (Laboratório de Propulsão a Jato), da Nasa, responsável pela criação de sondas espaciais não tripuladas

A necessidade de fontes perenes de água aparece também em possíveis missões tripuladas exploratórias. Conseguir extrair o recurso mais importante à vida humana, sem precisar levá-lo na viagem, pode auxiliar em tentativas de sedentarização, ou exploração dos recursos do planeta.

O futuro das buscas em Marte

A próxima grande expedição que pode aumentar a quantidade de evidências da presença do referido lago marciano é a InSight, esperada para aterrissar no planeta e conduzir observações geológicas a partir de novembro de 2018.

O rover europeu “ExoMars”, lançado em 2016, espera atingir a superfície de Marte em 2020. Durante nove meses, a tarefa do veículo não tripulado será recolher amostras do terreno, à procura de novas evidências que permitam a detecção de qualquer sinal de vida.

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