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Este mapa interativo mostra os sons e ruídos do mundo

Criado por um artista alemão, o site Radio Aporee reúne milhares de registros sonoros de áreas rurais e urbanas

     

    O que é isso aqui? É mamão?”, pergunta uma voz de mulher. Som de talheres e barulho de rua interrompem o diálogo. Ao lado, depois de alguém dizer que só tem R$ 1, um engarrafamento provoca segundos de buzinaço, cortado por uma música dançante árabe, que emenda em “We Are The World”. Estamos próximos ao Mercado Municipal de São Paulo, no centro da cidade, andando entre os camelôs.

    Em Neuquén, região de Mendoza, na Argentina, um microfone capta a melodia dos sinos de vento em um terraço. Ouvido à média distância, o ronco dos motores de motos e carros permite acompanhar a troca de marcha para a aceleração, no que parece uma avenida ou autoestrada.

    Do outro lado do mundo, em Dubai, no Oriente Médio, a água bate na areia da praia em vaivém ritmado, após a passagem de um barco.

    Estes são alguns dos milhares de trechos de áudio reunidos na Radio Aporee, projeto do artista alemão Udo Noll iniciado em 2006.

    Noll, que também é engenheiro de som e cartógrafo, vem investigando o que chama de “geografia afetiva” desde os anos 1990.

    Seus projetos artísticos, expostos em Berlim e em cidades europeias, estudam a construção do espaço por meio do som. Pelo Aporee, decidiu “criar uma cartografia focada apenas no som e aberta ao público como um projeto colaborativo”.

    Em entrevista ao Nexo, Noll conta que o nome do site, Aporee, não tem significado. “Era um termo recorrente na obra do escritor Erich Nossack, um autor alemão vanguardista dos anos 1950 que admiro muito. Ele usa essa palavra para se referir a um lugar ou uma área. É um conceito de localização com significado cambiante, que se adequa à ideia em que estava pensando, de congregar espaços reais e virtuais ao mesmo tempo, é algo mais amplo.”

     

    Neste áudio, Noll explica seu trabalho, definido como uma “rádio-vivência”. “Você pode entendê-lo como uma rádio que o rodeia, literalmente, quando você entra nela. E, se desejar, você pode dissolver os limites entre ouvir e agir.”

    Noll recebe contribuições de artistas, engenheiros de som e voluntários que querem deixar registrado o som ambiente do lugar onde vivem.

    Os registros são sons colhidos em ruas, praças, parques, praias, florestas, ambientes familiares, bares, confraternizações. Para publicar um registro novo, o usuário precisa se localizar no mapa e descrever seu “som”, com algum tipo de comentário e a data.

    As gravações precisam ter mais de um minuto, e não é permitido fazer propaganda. Em um dos arquivos mais recentes disponibilizados, JK Johnson, direto dos subúrbios da Geórgia, nos Estados Unidos, grava uma cafeteira em ação. Noll e um colaborador fazem a verificação dos áudios, que precisam estar nítidos e não serem resumidos à “música preferida de alguém”.

    Para navegar e ouvir os trechos, basta passear com o cursor pelo mapa animado, ou ainda buscar sons e lugares específicos. A Radio Aporee também permite ser ouvida como “rádio”, em esquema randômico.

    O site ainda hospeda um aplicativo, disponível para sistema Android e iOS, que permite explorar as gravações e participar do projeto, gravando sons com o celular.

    Na região da Grande São Paulo, o mapa traz 56 captações. Até 24 de julho de 2018, o site registrava mais de 42 mil entradas em 37.186 lugares diferentes.

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