Corrida ao Planalto: por que está tão difícil achar um vice

Principais candidaturas à Presidência ainda estão com a chapa indefinida, a menos de um mês do início oficial da campanha

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A essa altura da pré-campanha, em 2014, todas as principais candidaturas à Presidência estavam com as chapas definidas, com o nome do vice já anunciado. Em julho de 2018, o cenário é exatamente o oposto.

Nenhuma das pré-candidaturas mais bem posicionadas nas pesquisas de intenção de voto definiu quem será o vice e parte delas enfrenta entraves nas negociações em andamento em busca de aliados.

As movimentações mais recentes vieram das pré-campanhas do deputado Jair Bolsonaro (PSL), do ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) e do ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB).

O centrão, bloco composto por cinco partidos médios de centro-direita, depois de falar com Bolsonaro e negociar com Ciro, se aproximou de Alckmin. A aliança, porém, ainda não foi formalizada.

 
Qual ideia está em jogo
Um vice-presidente tem a responsabilidade de assumir o país na ausência do titular, seja temporária (em viagens ou motivos de doença) ou definitiva (em caso de renúncia, impeachment ou morte). Durante o exercício temporário do cargo, o vice ganha as atribuições do titular, podendo, por exemplo, exonerar, ou nomear funcionários. O cargo ganhou relevância durante a atual crise política, pois Dilma Rousseff, reeleita em 2014, sofreu impeachment dois anos depois numa articulação apoiada por seu próprio vice, Michel Temer. No período pós-redemocratização, o Brasil foi dirigido por três vices (José Sarney, que assumiu em 1985 após a morte de Tancredo Neves; Itamar Franco, que assumiu em 1992 após o impeachment de Fernando Collor; e Temer, que assumiu em 2016 após o impeachment de Dilma).

A chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera as intenções de voto, também está em aberto, por causa das incertezas jurídicas que cercam a candidatura do ex-presidente. Preso e condenado na Lava Jato, ele pode ser proibido de disputar em razão da aplicação da Lei da Ficha Limpa.

As chapas definidas até o momento são de siglas menores, como PSOL e PSTU, que tradicionalmente formam chapa pura, ou seja, entre integrantes do próprio partido.

A rigor, partidos têm até 5 de agosto para anunciar candidatos e alianças, data em que se encerram as convenções partidárias. Mas uma brecha na legislação eleitoral permite que as chapas sejam formalizadas durante o registro das candidaturas na Justiça Eleitoral, o que pode ser feito até 15 de agosto. No dia seguinte, a campanha começa oficialmente.

As chapas eleitorais

Quem tem vice

Guilherme Boulos (PSOL), com a líder indígena Sonia Guajajara (PSOL); Vera Lúcia (PSTU), com o ativista Hertz Dias (PSTU); e João Amôedo (Novo), com cientista político Christian Lohbauer (Novo), esta ainda não formalizada em convenção.

Quem não tem

Lula (PT), Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT), Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB), Alvaro Dias (Podemos), Levy Fidelix (PRTB), Paulo Rabello de Castro (PSC) e José Maria Eymael (PSDC).

A pedido do Nexo, dois cientistas políticos analisam o atual cenário e avaliam por que candidatos ainda estão sem vice a menos de um mês do início da campanha. São eles:

  • Marcia Ribeiro Dias, professora da Unirio
  • Cláudio Couto, professor da FGV-SP

Por que as campanhas têm tido tanta dificuldade em encontrar vices?

Marcia Ribeiro Dias Estamos em uma conjuntura muito específica, de indefinição do processo eleitoral. Normalmente existem duas candidaturas claramente definidas, que nas últimas eleições foram ocupadas pelo PT e pelo PSDB.

Este ano, esses partidos estão em situação atípica. O PT por ter um candidato que está preso. E os demais partidos, que não têm vocação majoritária, ainda estão tentando avaliar como vão se posicionar e estão com dificuldades de identificar quem será o candidato viável. O Bolsonaro tem um limite [de intenção de voto] por conta do seu extremismo, o que acaba dificultando a construção de maioria.

Alckmin não alavanca [nas pesquisas] mais por causa do desgaste do PSDB, em parte pela vinculação que se faz do partido ao governo Temer, bastante rejeitado. Não tem como o PSDB se descolar da imagem do governo Temer, já que a agenda que foi implementada [econômica, de reformas] é a agenda do PSDB.

Cláudio Couto Essa eleição está muito em aberto. Acho que decorre do fato de não saber se Lula será ou não candidato (provavelmente não vai, mas fica essa indefinição). E o nome que, sem Lula, fica em primeiro nas pesquisas é de um candidato incontrolável, que é o Bolsonaro. Alckmin, que seria um outro nome forte, está muito mal nas pesquisas até esse momento. Esse cenário de indefinição e de fragmentação faz com que haja uma demora para confirmar as alianças.

E não vejo nenhum candidato que seja beneficiado por esse cenário. Até para Bolsonaro, que a rigor tende a ganhar com a piora da situação geral, está ruim porque ele não conseguiu ter candidatos a vice que lhe agregassem algo [tempo de TV ou estrutura de campanha].

O eleitor em geral não presta muita atenção em vice. Mas é um quadro ruim para os próprios políticos, porque atrasa o início da campanha de fato.

Qual papel do vice numa campanha no atual momento?

Marcia Ribeiro Dias O papel do vice, normalmente, é de compor aliança, o que envolve tempo de TV, estrutura de campanha, fatores importantes em uma eleição. Em alguma medida pode ajudar a levar votos também para o candidato.

Mas agora é mais do que isso. Depois de tudo o que aconteceu [com o impeachment da Dilma], as pessoas vão querer saber quem é o vice. Se aprendeu ao longo dos últimos anos que vice importa. Quando se faz uma composição, a ideia é que se dará continuidade a um projeto político. Temer rompeu com o projeto [eleito em 2014] e implantou o projeto da oposição. Isso dá um nó na democracia.

Acho que o vice virou uma figura-chave porque houve uma mudança radical de 2014 para cá, não só pelo impeachment, mas pela mudança de agenda de governo.

Cláudio Couto O vice, na realidade, é simplesmente o representante do parceiro na coligação. Embora o vice, como a gente aprendeu na relação entre Dilma e Temer, pode ser um perigo. O vice pode ser um traidor, alguém que pode puxar o tapete.

Antes o vice era visto só como um figurante, mas tem esse outro lado. O eleitor pode não prestar atenção nessa escolha, mas o político certamente está.

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