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Quem precisa tomar vitamina D. E seu uso como suplemento

Apesar de estudos recentes associarem o nutriente à melhoria de diversos problemas de saúde, suplementação permanece indicada apenas para grupos de risco

O nome popular “vitamina D” faz referência a um grupo de substâncias. Ela envolve os compostos D2 e D3 e, em humanos, é obtida principalmente por meio da exposição à luz solar.

A síntese da vitamina D3, que atua na absorção de nutrientes como cálcio e fósforo, é fruto da interação dos raios ultravioletas B (UVB) do sol e o composto 7-dehidrocolesterol, presente na pele. Para a produção adequada de vitamina D o ideal é expor tronco, braços e pernas, sem filtro solar, por cerca de 15 minutos, entre 10h e 15h.

Ao ser absorvido pela corrente sanguínea, o composto é transformado em calcitriol, forma ativa da vitamina D, pelo fígado e rins. Isso facilita a absorção de cálcio pelo intestino, fazendo com que a ingestão de derivados do leite, grãos variados e verduras, por meio da alimentação, forneça quantidade maior do nutriente. Sem a vitamina D, estima-se que apenas cerca de 15% da nossa ingestão de cálcio e 60% do fósforo sejam incorporados pela dieta.

Além da via solar, a vitamina D também é encontrada, em quantidades bem menos expressivas, em peixes gordurosos (como atum, sardinha e salmão) e alguns poucos outros alimentos como cogumelos. Nesta tabela elaborada pelo Ministério da Agricultura dos Estados Unidos, está disponibilizada a concentração de vitaminas do grupo D em diferentes alimentos.

Para que serve

Seu papel mais conhecido é a proteção óssea, exatamente por conta da relação direta com a absorção de cálcio. Entre outras funções importantes da vitamina D no corpo humano, destacam-se o crescimento celular, a regulação da função imune e redução de inflamações.

“O fato de o Brasil ser um país tropical (com muito sol) leva a falsa ideia de que a população brasileira não apresenta deficiência de vitamina D, mas a realidade não é assim. Devido à rotina da vida contemporânea, à baixa exposição à luz solar e ao cuidado excessivo com a pele por causa do risco de câncer, a prevalência de deficiência de vitamina D no Brasil é muito alta.”

Trecho do artigo “Vitamina D e saúde”, disponível no site da Academia Nacional de Medicina

Em crianças, a deficiência de vitamina D é uma das principais causas de raquitismo. Mães com insuficiência da vitamina durante a gravidez têm filhos com alterações no desenvolvimento de órgãos como rins, fígado e pâncreas. A chance de que as crianças adquiram doenças como diabetes tipo 2 e obesidade também é maior, segundo a Academia Nacional de Medicina.

Por conta dessa vulnerabilidade, é recomendado que bebês até dois anos façam uso de pelo menos 400 UI por dia. O termo “UI” faz referência a “unidade internacional”, medida que costuma ser utilizada para indicar dosagens de medicamentos. Para vitamina D, cada “UI” equivale a 40 mcg.

Para que adultos atinjam o nível adequado de vitamina D, a ingestão diária recomendada é de 600 UI. Após os 60 anos, tal uso passa a ser da ordem de 800 UI/dia.

Tal preocupação com uma demanda a ser atingida diariamente contribuiu para a popularização da prática de suplementação - que, eventualmente, acaba sendo prescrita para pessoas que não precisariam fazê-la. Nesta reportagem da Revista Saúde de 2016, há uma estimativa de que o total de vitamina D receitado pelo mundo chega a superar o limite estipulado por entidades médicas em 35 vezes.

Para quem a suplementação é recomendada

“Esses [gestantes e bebês] são os dois grupos que recebem vitamina D já há muitos anos. A discussão atual é sobre quem precisa realmente tomar”, disse Marise Lazaretti Castro, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, em entrevista ao Nexo.

De acordo com Castro, outro grupo que deveria ser incluído como prioritário, da mesma maneira como já acontece entre mulheres e crianças, é o dos idosos.

“Nosso órgão que sintetiza vitamina D é a pele. Com o envelhecimento, a pele vai perdendo essa capacidade. O idoso, além de a pele produzir menos, também se expõe menos ao sol. No geral, saem menos de casa, costumam usar roupas mais fechadas.” O Ministério da Saúde, no entanto, ainda não reconhece essa demanda, deixando de fornecer a suplementação do SUS (Sistema de Saúde) e impedindo o acesso à população de maneira mais ampla.

Outros grupos podem ser considerados como prioritários, em que o uso da vitamina D como suplemento é recomendado:

  • pessoas com osteoporose
  • submetidos a cirurgia bariátrica
  • pacientes que têm restrições à luminosidade

Enquanto doenças como a osteoporose implicam um risco de fraturas mais elevado, a retirada de parte do estômago prejudica a absorção de nutrientes. Isso pode levar a deficiências graves de diversas vitaminas e problemas como fraturas e fraqueza muscular, mesmo anos após a cirurgia.

Da mesma maneira, pessoas que já sofreram com câncer de pele ou têm risco aumentado de ter câncer de pele - cútis muito branca, histórico familiar da doença - entram nos grupos de risco. Pacientes com doenças crônicas, como problemas neurológicos e doenças inflamatórias, acabam tendo pouca oportunidade de tomar sol.

“Existem pessoas que tomam achando que vão ficar mais fortes, mas não é verdade. A vitamina D vai beneficiar  quem é deficiente. Para quem não é, não é como se quanto maior a ingestão, melhor. Está errado, porque a vitamina D também intoxica. Intoxicações graves podem levar a quadros de insuficiência renal e até mesmo morte.”

Marise Lazaretti Castro,

professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia

Doses extremamente altas (em torno de 10,000 UI/dia) podem levar a depósitos de cálcio nos vasos sanguíneos e sua obstrução.

Outras aplicações da vitamina D

Prevenir câncer, diminuir a chance de artrite reumatoide, doenças cardiovasculares, cortar processos inflamatórios de doenças autoimunes como lúpus e esclerose múltipla, cânceres e até mesmo resfriados e emagrecimento. Todos esses problemas de saúde já apareceram associados ao uso da vitamina D.

Um estudo realizado por cientistas neozelandeses, porém, não encontrou relação entre a ingestão de vitamina D e diminuição significativa do risco de doenças ou fraturas. Diferentes estudos clínicos focaram na utilização de doses elevadas para tratar doenças autoimunes, como a esclerose múltipla.

De acordo com Castro, porém, estudos mais consistentes, em que se considere o efeito placebo e o teste cego, em que nem pesquisador nem paciente têm consciência do uso do medicamento, ainda precisam ser conduzidos.

“Isso é questionável, porque ninguém fez um estudo clínico que realmente pudesse provar que essas doses funcionam e são seguras. Quem usa isso, usa meio empiricamente. A experiência pessoal de alguns médicos diz que realmente pode funcionar”, disse.

Entre os benefícios amplamente comprovados pela literatura científica, estão, por exemplo, a melhora de prognósticos de pacientes com câncer. “Se você deixa o paciente que está passando por tratamento contra o câncer, como quimioterapias, pleno de vitamina D, você vai ter uma melhor resposta ao tratamento”, explica.

A vitamina D também já se mostrou eficiente na melhoria das funções pulmonares de pacientes, no caso de pessoas que sofrem de problemas como asma e infecções respiratórias.

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