Qual a influência dos alimentos na inflação dos últimos anos

Depois de registrar deflação em 2017, IPCA mostra que preços voltaram a subir nos últimos meses

     

    O preço dos alimentos voltou a subir no Brasil. Dos últimos sete resultados do índice oficial de inflação, o IPCA, seis registraram aumentos nos preços da categoria alimentos e bebidas, uma das mais importantes do índice. Entre dezembro de 2017 e junho de 2018, a alta já é de 3,5%.

    No Brasil, historicamente, há aumento de preços de alimentos. Mas não vinha sendo assim no passado recente. Nos 16 meses entre setembro de 2016 e dezembro de 2017, o IPCA registrou deflação de alimentos em 11 deles. Com isso, os alimentos terminaram o ano de 2017 em deflação perto de 2%. Contando apenas a alimentação no domicílio, mais sensível, a queda nos preços foi de 4,7%. Em 2018 a situação é diferente.

    Mudança de tendência

     

    Histórico recente

    Entre janeiro de 2012 e fevereiro de 2017, a inflação de alimentos acumulada ficou quase sempre acima do IPCA geral. Ou seja, o quesito alimentos e bebidas, que representa cerca de 25% do total do índice, passou todo esse tempo puxando a inflação para cima. Em seguida veio o período de deflação e agora, com a nova tendência, o preço dos alimentos entram em uma terceira fase desde que a crise começou.

    Os dois índices

     

    Diferentemente de outros produtos ou serviços, os alimentos sofrem muito mais variação de preço a depender da oferta. E essa variação é pouco controlável.

    A produção depende do clima, pouco previsível. Fatores como volume de chuvas e distribuição delas influenciam diretamente na oferta de alimentos. E, consequentemente, no preço deles. Isso não depende da política de juros do Banco Central.

    Agora, parte das condições extremamente favoráveis atípicas que causaram a deflação em 2017 não existem mais. Além disso, há fatores puxando o preço dos alimentos.

    Duas causas

    Dólar

    A alta do dólar impacta os preços. Impacta diretamente os alimentos importados, como o trigo que está em vários tipos de comida. Mas há também uma influência indireta.

    Commodities agrícolas, como a soja e o milho, têm o preço definido no mercado internacional, em dólar. Isso significa que, mesmo com o Brasil produzindo soja em abundância, ela fica mais cara também no mercado interno quando o dólar sobe. E isso tem reflexo em outros alimentos.

    O preço do frango, por exemplo, é extremamente influenciado pelo valor do milho, base da alimentação. Se o milho sobe, fica mais caro engordar um frango, o que é repassado para o consumidor.

    Greve

    Os 11 dias de paralisação dos caminhoneiros e a consequente crise de desabastecimento fizeram o preço dos alimentos subirem muito. Como a oferta diminuiu drasticamente, os preços subiram muito.

    O aumento dos preços pela crise política é um evento atípico. Segundo o coordenador do índice de preços ao consumidor da Fundação Getúlio Vargas, André Braz, a tendência é que, ao longo das próximas semanas, os preços voltem ao normal. Pelo menos a parte do aumento causada pela greve dos caminhoneiros deve ser recuperada.

    O que está aumentando

    O item alimentação é dividido em dois subitens: alimentação no domicílio e fora do domicílio.

    A mudança de tendência é mais perceptível quando se olha o subitem alimentação no domicílio, que é basicamente o preço da feira, do supermercado do açougue ou do sacolão. Esses preços são mais sensíveis a choques de oferta causados pelo clima ou alta do dólar e da soja, por exemplo. O varejista não hesita mudar o preço, repassar seu aumento de custos ao consumidor final.

    Por outro lado, o índice que mede a alimentação fora de casa é mais estável. Ele nem registrou deflação no período em que o preço dos alimentos caíam, nem sobem com a mesma força agora. Isso mostra que os donos de restaurante têm mais dificuldade em mudar toda hora o preço dos produtos.

    No supermercado

     

    Com as altas recentes, o índice de preços de alimentos acumulado em doze meses voltou a ficar positivo. Isso significa que, na média, entre julho de 2017 e junho de 2018 os preços aumentaram 1,05%. À medida que os meses de deflação forem sendo substituídos por novas resultados de inflação, o índice em 12 meses deve se consolidar no campo positivo.

    A consultoria MB Agro prevê que a alimentação no domicílio vai terminar o ano com uma inflação de 4,8%.

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