Foto: Brian Snyder/Reuters

Durante dois meses, jornada de trabalho foi reduzida de 40 para 32 horas distribuídas em apenas quatro dias
Durante dois meses, jornada de trabalho foi reduzida de 40 para 32 horas distribuídas em apenas quatro dias

Entre março e abril de 2018, uma empresa da Nova Zelândia propôs uma experiência que desafia a tradicional relação entre horas de trabalho e produtividade.

Durante dois meses, a Perpetual Guardian, companhia neozelandesa de serviços fiduciários, colocou mais de 200 dos seus funcionários para trabalhar sob uma jornada de trabalho reduzida de 32 horas distribuídas em apenas quatro dias – em vez de 40 horas ao longo de cinco dias.

A semana mais curta não afetou salários e benefícios, mantidos intactos. O resultado do experimento, acompanhado por pesquisadores de universidades locais, é agora compartilhado pelo presidente da empresa, Andrew Barnes, que afirma  que buscará formas de fazer da jornada menor algo permanente.

“Uma coisa é fazer o experimento. Outra é torná-lo permanente porque há alguns problemas no caminho, como a forma como a nossa legislação trabalhista é construída, mas eu acredito que encontramos uma forma de contornar isso”, disse o executivo.

Mesmo trabalhando um dia a menos, a direção da empresa não notou queda na produtividade. Além disso, de acordo com os funcionários participantes – que responderam a questionários antes, em 2017, e depois do período da experiência –, a nova jornada trouxe uma série de benefícios.

Para os empregados, que relataram terem usado o dia a mais livre para passar mais tempo com a família, se exercitar, cozinhar e se dedicar a outras atividades, como jardinagem, o nível de estresse caiu de 45% para 38% e a sensação de equilíbrio entre a vida dentro e fora do trabalho subiu de 54% para 78%.

“Supervisores disseram que a equipe ficou mais criativa, o comparecimento melhorou, eles chegam na hora e pararam de ir embora mais cedo ou fazer longos intervalos durante o expediente”, disse Jarrod Haar, professor de recursos humanos da Universidade de Tecnologia de Auckland, ao jornal The New York Times.

Produtividade

O dono da empresa diz ter tido a ideia da semana de trabalho menor após ler um estudo britânico que mostrava que, no geral, funcionários passam menos de três horas por dia trabalhando de modo eficiente – as demais são gastas em redes sociais, lendo notícias, falando sobre o trabalho com colegas, fazendo pausas para cafés e cigarros.

“Nós pagamos por produtividade. A chave aqui é que estamos fazendo uma clara distinção entre a quantidade de horas que você passa no escritório e o que conseguimos com isso. Estamos focados em dizer que, se você produzir essa quantidade de coisas, nós vamos te pagar essa quantidade de dinheiro. Não se trata de quanto tempo você passa no escritório.”

Andrew Barnes

Presidente da Perpetual Guardian

Além de melhorar o grau de satisfação da equipe, outro efeito notado pela empresa foi a redução de 20% no valor das contas de energia elétrica. O que, para Barnes, serve de referência para outra gama de benefícios que viriam, caso mais empresas adotassem o mesmo esquema. Como exemplo, cita a possível redução da quantidade de carros circulando pela cidade em horário de pico, ou o fim da necessidade de construir escritórios imensos que comportem todos os funcionários trabalhando ao mesmo tempo.

A experiência, segundo o jornal The New York Times, é vista com bons olhos pelo ministro do Trabalho do governo neozelandês, Iain Lees-Galloway. “É ótimo ver uma empresa encontrando uma saída melhor”, disse o ministro, referindo-se ao fato de que muitos locais enfrentam jornadas muito longas no país. “Aplaudo esse exemplo de trabalho mais inteligente e encorajo mais negócios a adotarem”, disse.

Riscos

Outras empresas, como a Amazon em 2016, bem como governantes em países como a Suécia, já fizeram testes semelhantes.

As avaliações variam.

À parte os benefícios partilhados pelo experimento neozelandês, especialistas apontam também para a possibilidade de que semanas mais curtas de trabalho deixem funcionários mais estressados por não conseguirem organizar suas atividades em menos dias.

Não raro, o funcionário sob a jornada de quatro dias acaba esticando as horas trabalhadas por dia para dar conta de toda a demanda, o que resulta em um aumento do risco de se envolverem em acidentes de trabalho no caso de indústrias, por exemplo. 

Segundo especialistas, as empresas públicas e privadas que quiserem implementar a redução de jornada devem unir a semana mais curta a uma mudança de cultura.

“Nós não mandamos emails desnecessários ou nos prendemos em reuniões”, disse Thommy Ottinger, funcionário de uma startup de tecnologia sueca que, em 2016, passou a testar jornadas de trabalho de seis horas. “Se você tem só seis horas de trabalho, você não perde seu tempo nem o tempo das outras pessoas (...) É uma mudança de vida.”

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