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A animação ‘Super Drags’. E o acesso de crianças ao tema

Produção brasileira na Netflix é voltada para público adulto e tem heroínas drag queens como protagonistas

    Foto: Reprodução/Netflix
    Personagem que compõe o trio de super-heroínas de ‘Super Drags’
    Personagem que compõe o trio de super-heroínas de ‘Super Drags’

    Até o fim de 2018, a Netflix, plataforma de exibição de filmes em streaming, deve lançar uma animação original produzida, de forma inédita, por um estúdio brasileiro. O enredo da série, chamada “Super Drags”, envolve três funcionários de uma loja de departamentos que, de noite, “se transformam nas Super Drags, prontas para salvar o mundo da maldade e da caretice”.

    No fim de maio de 2018, a empresa tornou pública uma prévia de “Super Drags” que mostra os três jovens se transformando nas heroínas drag.

    “Super Drags” é uma animação feita pela Combo Estúdio, do Rio de Janeiro, que trabalha há três anos no seu desenvolvimento. Em maio, o diretor executivo da empresa, Marcelo Pereira, comentou a satisfação de poder “levar a animação brasileira e principalmente a representatividade LGBTQ para os 190 países que têm acesso ao serviço”, bem como “sonhar com um mundo onde os gays podem arrebentar os bandidos, e não o contrário”.

    Sobre a produção, a diretora de conteúdo original da Netflix, Chris Sanagustin, falou sobre o entusiasmo de lançar “nossa primeira animação brasileira”, a qual apresentava “o mundo ousado, escandaloso e fabuloso de Super Drags”.

    Boatos e polêmica

    A notícia sobre o lançamento da série – que, segundo a Netflix, ainda está em produção – gerou uma repercussão conservadora na internet, segundo o jornal O Estado de S. Paulo. Grupos de pais e religiosos passaram a compartilhar a informação falsa de que a série era voltada para o público infantil e que “tem por objetivo explorar o homossexualismo [sic] nas crianças”, diz uma publicação.

    A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) entrou na história e publicou uma nota na segunda-feira (16) em que demonstra “preocupação” com a “exposição de crianças e adolescentes a conteúdos impróprios na TV” e pede o cancelamento da série à Netflix “como expressão de compromisso do desenvolvimento de futuras gerações”.

    A nota relaciona a produção a programas com conteúdos que envolvem “imagens e conteúdos com menções diretas e/ou indiretas a situações de sexo, de violência, de emprego de linguagem imprópria ou de uso de drogas”.

    A entidade, “em nome de cerca de 40 mil especialistas na saúde física, mental e emocional”, diz respeitar a diversidade e a liberdade de expressão e artística, mas decidiu, neste caso, alertar “para os riscos de se utilizar uma linguagem iminentemente [sic] infantil”, referindo-se ao fato de se tratar de uma produção animada, “para discutir tópicos próprios do mundo adulto, o que exige maior capacidade cognitiva e de elaboração por parte dos espectadores”.

    O que diz a Netflix

    A Netflix, que fala em nome do estúdio, diz que oferece “uma grande variedade de conteúdos para todos os gostos e preferências”. Embora não tenha divulgado ainda a classificação indicativa, a empresa diz que “Super Drags” é uma série de animação “para uma audiência adulta e não estará disponível na plataforma infantil”, referindo-se à seção “Kids” da plataforma, voltada  ao público infantil.

    Além de “Super Drags”, a Netflix conta com um catálogo de animações destinadas ao público adulto que envolve títulos populares como “BoJack Horseman”, “Rick and Morty”, “Unsupervised”, “F is for Family”, “Napoleon Dynamite” e “Big Mouth”.

    Fora da seção “Kids”, pais podem usar a ferramenta de controle parental e restringir o acesso de crianças a conteúdos que julgarem impróprios por meio de senhas. “Colocamos o controle nas mãos dos pais sobre quando e a que tipo de conteúdo seus filhos podem assistir”, diz a empresa.

    Nos seus termos de uso, a Netflix diz que apenas pessoas com mais de 18 anos podem assinar seu serviço; “menores de idade somente podem usar o serviço sob a supervisão de um adulto”, diz a regra.

    Crianças e sexualidade

    Para a psicóloga Desirèe Monteiro Cordeiro, responsável pelo atendimento de adolescentes no Amtigos (Ambulatório Transdiciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual) no Hospital das Clínicas, em São Paulo, é correto dizer que crianças não devem ter contato com conteúdo envolvendo violência e sexo explícito, mas que a grita a respeito de “Super Drags” só faz sentido considerando a relação da série com o tema da sexualidade, um “tabu para muitas famílias no Brasil”.

    “Os rapazes se transformam em drags e ganham superpoderes. O Super-Homem também põe uma fantasia para combater o crime e isso não é uma questão”, compara a especialista. “Se ainda não se sabe nada sobre a série, por que essa retaliação? Isso é censura. Se a criança não dormir às 20h e assistir à novela, ela também vai estar exposta a sexo e violência. É um conteúdo que não é pensado para a criança.”

    A psicóloga credita a polêmica a uma confusão muito recorrente feita entre identidade de gênero e sexualidade com o que se convencionou chamar de ideologia de gênero.

    “Falar de identidade de gênero e sexualidade, homossexuais, travestis, transexuais, nas escolas ou onde quer que seja, não significa que tem alguém ali tentando incutir na cabeça das crianças que a diversidade sexual é linda e todo mundo tem que ser também”, diz.

    A profissional diz que a recomendação é que durante a primeira infância a criança não seja exposta a conteúdos que envolvam sexo ou o tema da sexualidade sem o filtro dos pais.

    “A orientação é que os pais lidem com sexualidade ou sexo, que é o ato em si, apenas quando a questão é levada pela criança”, diz. Ou seja, depois de a criança, de alguma forma que tenha fugido ao controle dos pais, tomar contato com o tema.

    “Se ela pergunta ‘O que é sexo?’, é importante saber por que a criança está perguntando aquilo, qual é o contexto. O que não dá para fazer é fingir que a coisa não existe. No caso de pais que são vistos transando, coisa que acontece muito, tem gente que vai fingir que aquilo não aconteceu, mas tem gente que vai conversar e perguntar o que a criança entendeu daquilo. Isso é o ideal. Mas há pais e pais”, diz Cordeiro.

    Há ainda a possibilidade de crianças tomarem contato com questões como transexualidade porque conhecem ou têm um amigo ou amiga que transicionou para um gênero do qual elas se sentem fazendo parte.

    “Não é comum, mas existem crianças transexuais. Nesse caso, os outros pais devem conversar porque, no caso de uma escola, as crianças vão questionar”, diz Cordeiro. “E geralmente elas lidam de um modo muito mais simples. Elas olham e perguntam se é menino ou menina. Dada a resposta, a vida segue e elas vão brincar.”

    “As pessoas não entendem que falar sobre diversidade sexual serve para mostrar que essa diversidade existe, que há pessoas diferentes da maioria, mas que nem por isso elas são mais ou menos que ninguém. E que talvez tenham crianças ali que não entendiam o sofrimento que tinham e aí começam a nomear. É muito comum ver criança trans que não faz ideia do que é e, se não tem diálogo aberto com os pais ou são reprimidas, deprimem. Quando elas entendem e conseguem nomear, é um alívio, porque ela sabe o que é, ela sabe que não é algo com o qual só ela lida e se questiona, e que existem outras pessoas como ela.”

    Desirèe Monteiro Cordeiro

    Psicóloga responsável pelo atendimento de adolescentes no Amtigos (Ambulatório Transdiciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual) no Hospital das Clínicas

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