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Como está a situação das livrarias de rua no Brasil

Estabelecimentos são prejudicados por comércio eletrônico e baixo índice de leitura do brasileiro. Distribuição de livrarias pelo país é desigual

     

    “Salvo exceções, as livrarias de rua no Brasil não estão resistindo”, declarou Bernardo Gurbanov, presidente da ANL (Associação Nacional de Livrarias), em entrevista ao Nexo. Segundo ele, são muitos os fatores que contribuem para o momento difícil desse tipo de estabelecimento.

    Há o fator macroeconômico atual, com a recessão, e o componente histórico, de uma população que lê pouco. O avanço do comércio eletrônico e o crescimento da leitura em dispositivos digitais também são razões importantes. “Os aluguéis também estão subindo muito e não recebemos nenhum tipo de apoio do poder público, como é o caso, por exemplo, de igrejas, que não pagam IPTU”, afirmou.

    Em 2017, o presidente da Livraria Cultura, Sergio Herz, disse à revista Época que as despesas de sua empresa com IPTU tinham aumentado 35% e com energia, 45%.

    Cultura e Saraiva declararam no ano passado que o comércio eletrônico corresponde a 30% de suas vendas totais. Para a Cultura, o objetivo é alcançar 70% em cinco anos. Em 2017, a empresa fechou duas lojas suas em São Paulo, no Conjunto Nacional.

    “A livraria é um centro cultural, sempre trouxe propostas além da compra e venda.”

    Bernardo Gurbanov

    Presidente da ANL (Associação Nacional de Livrarias)

    Duas das redes mais importantes do país, a Livraria da Vila e a Nobel, ainda mantêm o foco nos estabelecimentos físicos. “Não fizemos investimento nessa área, mas provavelmente teremos de trabalhar com isso no futuro”, explicou à Época o dono da Livraria da Vila, Samuel Seibel.

    Para Gurbanov, nas ruas só tem conseguido aguentar a pressão estabelecimentos de nicho, como, por exemplo, as livrarias católicas. Também sobrevivem negócios com uma pegada mais artesanal, pequenos estabelecimentos de bairro que às vezes também funcionam como café ou restaurante.

    Muitos desses locais menores se destacam por uma maior “bibliodiversidade”, conceito que abre a lista do “Manual de boas práticas” da ANL. “Tem livrarias que têm 80% de estoque de editoras independentes, que fazem um importante trabalho de garimpo com novos autores”, segundo Gurbanov.

    No país existe uma livraria para cada 64.954 habitantes. Nos Estados Unidos, há um estabelecimento para cada 14.458 pessoas

    “Nós ainda trabalhamos para uma pequena parcela da população que frequenta livrarias”, disse Alexandre Martins Fontes, um dos sócios da editora e livraria Martins Fontes, com cinco lojas em São Paulo, uma no Rio e uma em Santos, em entrevista ao Diário do Comércio, em novembro de 2017.

    Os números das livrarias

    Dos 5.570 municípios do Brasil, apenas 1.527 contam com livrarias. O total nacional de estabelecimentos é de 3.095, que são distribuídos irregularmente: enquanto a região Sudeste tem 1.715 livrarias (55% do total), o Norte apresenta apenas 105 locais do tipo (4%). Os dados são do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2014.

    Isso significa que no país existe uma livraria para cada 64.954 habitantes. Nos Estados Unidos, há um estabelecimento para cada 14.458 pessoas.

    Muitos estados, como Acre, Amapá e Roraima, têm livrarias apenas nas capitais, sem nenhuma no interior. No Nordeste, estados como Alagoas e Sergipe têm uma fração bem pequena de livrarias fora da capital: 18 das 20 livrarias alagoanas ficam em Maceió e 22 das 24 do estado vizinho estão em Aracaju.

    Ainda segundo o IBGE, entre 1999 a 2014 caiu de 35,5% para 27,4% o número de cidades com livrarias.

    Cultura e acolhimento

    A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie lembra de sua livraria favorita em Lagos, a Jazzhole, como um “refúgio cultural” e um “lugar que recebia calorosamente todos os tipos de pessoa”. Escrevendo ao jornal The New York Times, ela chamou o lugar de “espaço reverencial de estórias e história”.

    “A livraria é um centro cultural, sempre trouxe propostas além da compra e venda”, concorda Gurbanov, da ANL. “Sempre teve encontros com autores, performances artísticas, palestras, exposições. O livro e a livraria têm papel civilizador, promovem a inserção do sujeito na sociedade e a possibilidade de aceder a outros estratos sociais por meio da leitura.”

    No livro “My bookstore”, em que escritores comentam sobre suas livrarias preferidas, a  escritora chilena Isabel Allende falou sobre seu estabelecimento preferido, a Book Passage, em Corte Madera, na Califórnia. “Esta livraria é a alma cultural de uma grande comunidade. É o lugar para aulas de escrita, aprendizado de línguas, ir a conferências, participar em clubes do livro e palestras.” Para Allende, “o único lugar tão reconfortante quanto uma livraria amigável é provavelmente a cozinha de sua avó”.

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