A repercussão da fala do criador do Facebook sobre o Holocausto

Resposta de Mark Zuckerberg sobre critérios de ação da rede social contra fake news repercutiu nas redes e rendeu resposta de membro do governo alemão

    O ano de 2018 não está fácil para Mark Zuckerberg. Após o estouro do caso envolvendo mau uso de dados pessoais de dezenas de milhões de contas no Facebook pela empresa Cambridge Analytica, o criador da rede social teve de dar explicações a parlamentares americanos e europeus, e adotar uma nova postura visando manter ou recuperar a confiança dos seus 2,2 bilhões de usuários.

    Agora, Zuckerberg se envolveu em uma polêmica ao tentar explicar, em uma entrevista à jornalista americana Kara Swisher publicada pelo site de tecnologia Recode nesta quarta-feira (18), as regras recém-adotadas pelo Facebook sobre que tipo de conteúdo envolvendo informações falsas será, ou não, removido da plataforma.

    Pesos e medidas

    “Há dois princípios em jogo aqui. O de dar voz às pessoas para que elas possam expressar suas opiniões. E também o de manter a comunidade segura, o que eu acho muito importante”, disse Zuckerberg.

    O executivo americano disse que nos casos em que o conteúdo de publicações, fotos ou vídeos forem identificados como sendo falsos, técnicos do Facebook – muitos deles de empresas terceirizadas – deverão avaliar as possíveis consequências da disseminação da suposta notícia falsa (fake news) – como por exemplo, se ela ameaça à integridade física das pessoas envolvidas.

    Depois dessa avaliação, a rede social pode tomar duas atitudes: exclusão definitiva do conteúdo da plataforma nos casos mais graves ou redução da sua capacidade de circulação e alcance, fazendo com que ela tenha uma chance muito menor de aparecer no feed de notícias dos usuários e se espalhar.

    No primeiro caso, o presidente do Facebook citou como exemplo a divulgação de notícias falsas em Mianmar, no sudeste asiático, agravando a letal tensão sectária vivida no país entre grupos budistas e muçulmanos.

    Em relação ao caso de publicações menos graves, que o Facebook apenas poderá diminuir sua circulação, Zuckerberg, que é judeu, citou o caso dos usuários que distribuem conteúdo que negam a ocorrência do Holocausto.

    Para ele, publicações que defendem que o genocídio de judeus durante a 2ª Guerra Mundial não aconteceu é algo “profundamente ofensivo”.

    “Mas no fim do dia, eu não acredito que a nossa plataforma deveria excluir [esse conteúdo] porque eu acho que há coisas que pessoas diferentes entendem errado (...) É difícil impugnar e compreender a intenção. Eu só acho que, por mais detestáveis que alguns desses exemplos sejam, a realidade é que eu também posso entender as coisas errado quando falo publicamente. Tenho certeza que você também (...) E eu não acho que seja a coisa certa dizer ‘Vamos tirar essa pessoa da plataforma se elas entenderem as coisas errado ainda que diversas vezes’.”

    Mark Zuckerberg

    Em entrevista ao Recode nesta quarta-feira (18)

    Repercussão

    A fala, vinda do dono da maior rede social do mundo, rendeu polêmica.

    Em nota no mesmo dia da publicação da entrevista, o presidente da ADL (sigla em inglês para Liga Antidifamação), organização dedicada ao combate ao antissemitismo, Jonathan Greenblatt, disse que a negação do Holocausto “é uma tática enganosa antiga, intencional e deliberada de antissemitas” que, para os judeus, é “odiosa, ofensiva e ameaçadora”.

    “O Facebook tem uma obrigação moral e ética de não permitir sua disseminação. A ADL continuará a se opor ao Facebook sobre esse posicionamento e cobrar deles que a negação do Holocausto seja uma violação das suas diretrizes de comunidade.”

    Jonathan Greenblatt

    Presidente da Liga Antidifamação

    Nesta quinta-feira (19), o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, usou o Twitter para comentar a fala de Zuckerberg. Ele disse que “ninguém deve defender quem nega o Holocausto. Pelo contrário, no mundo inteiro, tudo deve ser feito para que se proteja a vida dos judeus”. 

    Retificando

    Diante da reação, Mark Zuckerberg enviou um email para a jornalista do Recode para “esclarecer uma coisa”.

    “Eu pessoalmente acho a negação do Holocausto algo profundamente ofensivo, e eu absolutamente não tive a intenção de defender a intenção das pessoas que fazem isso”, disse. 

    “Nosso objetivo com fake news [notícias falsas] não é impedir que alguém diga algo falso – mas impedir que notícias falsas e informações errôneas se espalhem pelos nossos serviços. Se algo estiver se espalhando e for classificado como falso pelos checadores, ele perderá a grande maioria da sua distribuição no feed de notícias. E, claro, se uma publicação cruzar a linha em defesa da violência ou ódio contra um grupo em particular, ele será removido. Essas questões são muito desafiadoras, mas acredito que, muitas vezes, a melhor maneira de se combater um discurso ruim e ofensivo é com um bom discurso.”

    Mark Zuckerberg

    Qual é o contexto

    Desde que se tornou evidente o impacto da circulação proposital de notícias falsas nas eleições americanas de 2016, que deram vitória ao atual presidente Donald Trump, a responsabilidade das empresas donas das plataformas usadas como veículo para tais publicações virou alvo de debate.

    Como resposta, o Facebook já se comprometeu publicamente a, por exemplo, checar o perfil de anunciantes que busquem promover conteúdo político em momentos críticos como o de eleições “para garantir que a interferência que os russos foram capazes de fazer em 2016 [nos EUA] fique muito mais difícil de levar a cabo no futuro”.

    Aos congressistas americanos, Zuckerberg citou as próximas eleições na Índia, Brasil, México, Paquistão e Hungria como exemplos de situações em que a rede social adotará medidas de prevenção contra notícias falsas. “Desde construir e implementar novas ferramentas de inteligência artificial que derrubam notícias falsas, até aumentar nossa equipe de segurança para mais de 20 mil pessoas”, afirmou em abril de 2018.

    Além do Facebook, Google e Twitter também avaliam medidas a serem adotadas contra fake news.

    Em março, uma representante da plataforma de vídeos do Google, o Youtube, anunciou a adoção de estratégias contra conteúdos falsos ou conspiratórios, como a que inclui informações adicionais sobre o tema do vídeo, ligando-o a páginas na Wikipedia.

    Já o Twitter planeja incluir um modo de sinalizar que um conteúdo em circulação é falso, bem como reestruturar o mecanismo de verificação de contas, deixando para os próprios usuários o peso de decidir quem é, e quem não é confiável na plataforma.

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