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Qual o limite para a longevidade humana, segundo a ciência

Não é consenso entre cientistas se já atingimos nosso potencial de envelhecimento, ou o quanto ainda é possível prolongar a vida

 

O posto de “pessoa mais velha da história” permanece inalterado há mais de duas décadas. A detentora do recorde é a francesa Jeanne Calment que, em 1997, morreu aos 122 anos e 164 dias. Desde então, não há registros oficiais de um humano que tenha conseguido ultrapassar a marca dos 119. Aos 117, quem mais se aproxima desse feito hoje, ao menos teoricamente, é Chiyo Miyako, que mora no Japão.

Para alguns cientistas, o hiato por anciões que superem essa idade representa uma barreira de origem biológica. O fato de apenas uma pessoa ter ultrapassado os 120 anos, assim, indicaria que a humanidade chegou à sua longevidade máxima. Independentemente de doenças relacionadas à idade que possuam, homens e mulheres têm um prazo de validade que é intransponível.

Analisando dados sobre mortalidade de 40 países, uma das pesquisas recentes de maior destaque na área de estudos em envelhecimento, publicada em 2016 na revista científica Nature, estimou que esse limite esteja nos 115 anos. Sendo assim, os humanos mais longevos já teriam atingido a idade máxima: não há chances de vivermos décadas além disso em um futuro próximo, como outras previsões mais otimistas supunham.

A existência dos chamados “supercentenários”, que vão além dessa faixa de idade, seria um ponto ainda mais fora da curva. Segundo a equipe do estudo de 2016, liderada por Jan Vijg, da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York, a chance de que exista no mundo alguém que atinja a casa dos 125 é de uma em 10 mil. Isso quer dizer que, se existissem dez mil planetas Terra, em um deles haveria uma pessoa nessa situação.

“Não podemos superar esse teto”, disse Vijg à época, em entrevista à NPR, rádio pública dos Estados Unidos. “Basicamente, essa expectativa de vida, que sempre vem aumentado, não pode ir além disso.”

115 anos

é a longevidade máxima estimada para o ser humano, segundo um estudo da revista Nature de 2016

Desde que o campo da longevidade e antienvelhecimento começou a ser mais investigado, entre a década de 1990 e o começo dos anos 2000, porém, a questão ganhou interpretações diferentes. Não é consenso que esse “teto” não possa ser superado - ou até mesmo, de que haverá um dia um limite de idade até o qual humanos podem envelhecer.

Em um estudo publicado no fim de junho de 2018, por exemplo, pesquisadores analisaram 3.836 italianos acima de 105 anos e descobriram que, depois de certo momento da vida, as chances de uma pessoa morrer deixam de aumentar progressivamente com a idade.

A descoberta vai contra a lógica estipulada para a relação idade X longevidade. Como destaca este artigo da revista online Slate, essa probabilidade depende da idade na maior parte da vida. Quando você tem 15 anos, as chances de morrer são pequenas: 0,04%. Quando surgem os cabelos brancos, isso muda. Uma em cada 100 pessoas com mais de 60 não chegam aos 61, e uma em cada três com 99 não se tornarão centenárias.

Os resultados da pesquisa em questão, no entanto, mostraram que pessoas “semissupercentenárias”, com idades entre 105 e 109 anos, têm uma probabilidade de 50% de não fazerem um novo aniversário, e expectativa de vida de 1,5 ano.

Segundo os pesquisadores, essa projeção de longevidade foi a mesma projetada para pessoas acima dos 110 anos, os chamados supercentenários.

Ainda que o resultado não seja totalmente aceito pela comunidade científica, ele contraria as probabilidades que nos levam sempre a elencar alguém mais velho como mais propenso à morte. Ou seja: a partir de uma certa idade, o quão velha uma pessoa é deixa de determinar seu tempo restante de vida.

“Melhorias na mortalidade se estendem até mesmo a essas idades mais extremas. Ainda não estamos nos aproximando de um limite para a longevidade humana”, disse Kenneth W. Wachter, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley, e uma das co-autoras do novo estudo, em comunicado.

De acordo com a revista Scientific American, estima-se que existam por todo o mundo cerca de 500 mil pessoas com mais de 100 anos, número cotado para se tornar quase duas vezes maior já na década seguinte.

Para o próximo século, a Organização das Nações Unidas estimou que a longevidade para mulheres de países desenvolvidos atingirá os 100 anos. No caso de países subdesenvolvidos, a média futura estaria por volta dos 90 - menos três ou quatro anos no caso dos homens.

As boas perspectivas se relacionam às menores taxas de mortalidade infantil e de adultos, que podem ser explicadas pela maior qualidade de vida humana. Ainda entram na conta  melhorias em condições sanitárias, de alimentação e saúde pública - como vacinas e antibióticos.

O número total de mortes em pessoas mais velhas também caminha para se tornar progressivamente menor em sociedades mais desenvolvidas economicamente. Em países ricos, mais de 80% da população tende a superar a casa dos 70 anos. Há um século e meio, apenas 20% atingiam a mesma marca.

As barreiras do envelhecimento

Ao jornal americano The New York Times, Michael Hadjiargyrou, professor de ciências da vida do Instituto de Tecnologia de Nova York, destacou que os fatores que interferem na longevidade humana podem ser divididos em duas categorias.

Na primeira entram os itens adquiridos por influência do ambiente, como dieta, localização geográfica, exposição a químicos e radiação, qualidade do ar e da água, acesso a serviços de saúde e saneamento básico, por exemplo.

A segunda é de ordem genética, e considera, portanto, genes e o comportamento celular. Isso envolve, por exemplo, mutações no DNA, exposição a doenças, alterações hormonais, gravidez, estresse, lesões e cicatrização, etc.

Uma vez que a qualidade de vida tende a ser progressiva e com perspectivas de melhorar ainda mais nos próximos anos, os fatores genéticos passam a ser, cada vez mais, a chave para encontrar novas maneiras de estender a vida. E é para esse campo que as pesquisas relacionadas ao envelhecimento costumam se concentrar.

“Dietas, exercícios e a medicina tradicional não ajudarão a superar por completo o envelhecimento, somente a contornar alguns processos e atrasar o surgimento de doenças ligadas à idade. Não existem muitos praticantes de ioga de 120 anos”, argumentou Alex Zhavoronkov, geneticista britânico que pesquisa envelhecimento, em entrevista ao site Futurism.

“O atual recorde de longevidade, de 122 anos, pertence a uma mulher que nunca fez dieta na vida e parou de fumar quando já era centenária. Qual o propósito de se exercitar para valer se você não pode continuar melhorando a si próprio e o ambiente em que está inserido?”.

Um estudo de 2015, por exemplo, descobriu que um medicamento utilizado para diabetes é capaz de aumentar a longevidade em ratos em até 40%. Em 2009, uma pesquisa americana que durou 27 anos demonstrou que macacos com uma dieta 30% menos calórica do que o usual tinham menos chances de desenvolver doenças relacionadas ao envelhecimento. Através de manipulação genética, uma série de outras conexões já foram estabelecidas em diferentes testes com animais.

Ainda que a medicina regenerativa humana venha pesquisando maneiras de “prolongar o inevitável”, como a criação de órgãos sintéticos e o desenvolvimento de tecnologias na área do câncer e de doenças neurodegenerativas, as barreiras a nível celular se mostram ainda mais desafiadoras.

Uma teoria proposta na década de 1960 e revisitada recentemente por diferentes estudos diz respeito ao “limite Hayflick”. Segundo essa premissa, uma célula humana pode se dividir apenas 50 vezes antes de entrar em senescência, estado em que deixa de se renovar. Com a “morte” progressiva das células, assim, as funções vitais vão, pouco a pouco, sendo comprometidas.

Como destacou Sidarta Ribeiro, neurocientista e professor da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) em entrevista ao Nexo em 2015, tal processo já pode, biologicamente, ser revertido em laboratório. Questões éticas, sociais e econômicas que derivam de manobras desse tipo, porém, despontam como impeditivos.

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