Como fica a campanha de Bolsonaro se ele não fechar alianças

Mesmo líder nas pesquisas no cenário sem Lula, pré-candidato do PSL à Presidência não conseguiu avançar com os acordos até aqui

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Começa na sexta-feira (20) o período estabelecido pela Justiça Eleitoral para que os partidos políticos lancem seus candidatos para a eleição de outubro. Até o dia 5 de agosto, data final para as convenções partidárias, todos os nomes devem ter sido escolhidos e todas as alianças entre os partidos devem estar oficializadas. Ou seja, em cerca de 20 dias, todas as negociações por apoio a candidaturas estarão finalizadas.

Nesse cenário, os principais candidatos à Presidência da República se movimentam em busca de aliados que garantam palanque nos estados e tempo no horário eleitoral gratuito. Partidos como o DEM, PP e PR são cobiçados por candidatos com posicionamentos bastante diferentes dentro do espectro político. Eles podem agregar tempo de TV e rádio no horário eleitoral gratuito.

A disputa presidencial de 2018 apresenta uma situação atípica no cenário eleitoral brasileiro das últimas décadas. Um dos candidatos mais bem colocados nas pesquisas eleitorais tem pouquíssimo tempo de televisão. Jair Bolsonaro, que chega a liderar a corrida no cenário sem Luiz Inácio Lula da Silva, tem apenas oito segundos garantidos por seu partido, o PSL. Qualquer coisa além disso depende da formação de alianças.

O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), um dos principais auxiliares de Bolsonaro, chegou a dizer que a candidatura tinha o apoio de 110 deputados. Houve conversas com partidos como PP, DEM, PR e PRP, mas nenhum acordo foi costurado. Nos últimos dias, fracassaram as tentativas de coligação com o PR, que era um dos mais próximos, e com o PRP.

O PRP, inclusive, vetou a participação do general Augusto Heleno como companheiro de chapa do presidenciável. Após o anúncio, Heleno disse que deixará o partido.

Mesmo com cerca de 19% das intenções de voto no cenário sem Lula (o petista deve ser barrado pela Lei da Ficha Limpa), Bolsonaro segue correndo o risco de ir praticamente sozinho para a eleição. Seus aliados usam a ausência de acordos como uma virtude. Em entrevista à rádio CBN, Lorenzoni disse que foi Bolsonaro quem se recusou a fazer alianças com o PR em São Paulo e no Rio.

“Bolsonaro disse: 'absolutamente não'. Para deixar muito claro que num futuro governo dele não haverá esse toma lá, dá cá”

Onyx Lorenzoni

Deputado federal

Popularidade na internet

Bolsonaro fez sua carreira política em partidos pequenos e médios, está na Câmara há sete mandatos consecutivos, mas sem ter grande destaque na atividade parlamentar. Mesmo tendo sido quase sempre um integrante do baixo clero, ganhou popularidade nos últimos anos, quando aumentaram as denúncias de corrupção na política brasileira e o militar reformado se colocou como defensor do conservadorismo, usando um discurso extremado e anti-establishment.

Seu sucesso acontece principalmente na internet, que ele usa como principal meio de comunicação com os eleitores. Além de sua própria página, que tem 5,3 milhões de curtidas no Facebook, e a dos filhos também políticos, são muitos os grupos e comunidade de apoio ao militar da reserva. Em redes sociais, apoiadores pedem há anos sua candidatura à Presidência.

Conhecido de grande parte do eleitorado, Bolsonaro tem como maior problema o tempo de TV. Com uma campanha´cujo tempo de duração é menor do que as anteriores e com a crescente influência da internet no geral, surgem questões sobre qual será o peso, de fato, do horário eleitoral em 2018. O Nexo conversou com dois cientistas políticos sobre o tema. São eles:

  • Carlos Pereira, professor da FGV-EBAPE (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas)
  • Felipe Borba, professor da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

Por que o vice-líder nas pesquisas não conseguiu fechar alianças?

Carlos Pereira Bolsonaro lidera sem Lula, mas continua sendo o mais odiado, o grau de rejeição muito mais alto que a indicação de voto. Nessa perspectiva, ele é o mais provável a perder no segundo turno. E os potenciais apoiadores sabem disso.

Se conseguir viabilizar no primeiro turno, independente de quem concorra no segundo, será o provável derrotado. Ele funciona Marine Le Pen, na França. É um candidato extremo, que não joga para o eleitor mediano. E esse eleitor mediano provavelmente migra para um candidato que esteja mais próximo do centro.

Outro ponto é que ele não dispõe dos mecanismos tradicionais de recompensa eleitoral que no Brasil têm sido determinantes para o sucesso de candidatura: recursos, tempo de TV e rádio, capilaridade do partido e coligações estaduais amplas.

Felipe Borba As alianças ainda estão sendo formadas, essa indefinição ainda persiste. Existe um cálculo de que ele tem um piso alto, mas ao mesmo tempo ele parece ter um teto relativamente baixo. Principalmente em um segundo turno.

Eu imagino que esses partidos mais estruturados estão fazendo esse cálculo de que o Bolsonaro pode não chegar. Porque os partidos se aliam com quem eles acham que pode ganhar. Mas não é porque ele tem uma boa colocação agora que ele vai ter uma boa colocação no final. A campanha existe pra isso, pra alterar as percepções iniciais.

Qual o peso do pouco tempo de TV em uma candidatura como a de Bolsonaro?

Carlos Pereira Essa resposta exata ainda ninguém sabe no Brasil. Não existe pesquisa que mensure no Brasil o impacto de mídias sociais, mesmo em outros países os resultados são controversos. Eu continuo achando a mídia tradicional vai ser fundamental, TV e rádio vão ser muito importantes.

Apenas 30% dos eleitores têm Facebook e Twitter. A maioria tem Whatsapp. Mas o eleitor, principalmente o mais pobre, não tem acesso às redes sociais. O Bolsonaro vai tentar compensar a falta de tempo, mas não se sabe até que ponto será possível.

Esse discurso de que não faz aliança porque não faz toma lá dá cá é retórica. Não existe democracia em presidencialismo multipartidário sem toma lá dá cá. O problema é quando as moedas de troca são ilegais. Ninguém apoia ninguém de graça.

Felipe Borba Esse ano, a eleição para presidente vai vigorar com nova regra. A minirreforma eleitoral de 2015 diminuiu o número de programas e também o tempo de exibição por dia. Diminuiu a presença da televisão de maneira geral.

Ao mesmo tempo, essa legislação também alterou a divisão do tempo entre os partidos. Em 2014 era um terço dividido igualmente, agora é um décimo só igual. Ou seja, diminui o tempo e concentra ainda mais entre os grandes partidos.

Isso cria um problema muito grande aos partidos com pouca representação. O partido do Bolsonaro tem um tempo muito pequeno, o que faz depender de coligação. Ainda que se fale muito em rede social, a televisão ainda é o principal meio de contato com os eleitores.

Ainda que ele tenha muitos seguidores, ainda que esses seguidores sejam multiplicadores, ele vai ficar limitado a esse espaço. A televisão vai ajudar pouco, ele não vai ter tempo de fazer muito além de reforçar reputação.

ESTAVA ERRADO: Na primeira versão deste texto, as respostas dadas pelo professor Felipe Borba para as duas perguntas estavam invertidas. O texto foi corrigido às 15h36 de 19/07/2018.

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