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Os 50 anos da obra que alertou sobre um ‘apocalipse populacional’

Para livro publicado em 1968, iria faltar comida para alimentar a humanidade. Debate atual sobre população mudou de foco

 

Quando publicou “The population bomb”, em 1968, o biólogo Paul Ralph Ehrlich (e sua mulher, coautora inicialmente não creditada e também bióloga) previa um futuro sombrio para a humanidade. Segundo suas projeções, não haveria comida suficiente para alimentar a população mundial, que crescia em uma progressão exponencial em relação à nossa capacidade de produzir alimentos. De acordo com o texto, haveria “um aumento substancial na taxa de mortalidade mundial”.

O temor da explosão demográfica não era novo. Em 1798, o pastor inglês Thomas Malthus escreveu de forma célebre sobre o destino trágico que aguardava um mundo em que o alimento crescia em progressão aritmética e a população, em razão geométrica. No pós-guerra, a preocupação voltou à baila, com diversas obras “neomaltusianas”.

Dentre essas, o livro escrito pelos Ehrlich tornou-se o mais conhecido. De tom mais sensacionalista, virou best-seller nos Estados Unidos e seu autor passou a ser figura frequente em programas de televisão e convidado a escrever sobre o tema em diversas publicações.

Superpopulação

Para os autores de “A bomba populacional”, a batalha para alimentar a humanidade já estava perdida, pois “a cegonha tinha ultrapassado o arado”, ou seja, nascia mais gente do que era possível alimentar.

Foto: Reprodução
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'Caminho para a extinção': tom da obra de Paul Ehrlich era de alarme
 

Vitrines desse aumento demográfico eram países asiáticos como Índia e China, que registravam aumentos populacionais acentuados na época. O continente asiático era responsável por 6 de cada 10 nascimentos no planeta. Para efeito dramático, Ehrlich descreve um trajeto de táxi que fez em Nova Déli em 1966 por ruas congestionadas de gente. “Desde aquela noite, eu senti os efeitos da superpopulação”, declarou.

No livro, o casal defende o planejamento familiar voluntário como saída ideal. Em alguns países ou regiões, entretanto, o controle de natalidade obrigatório, incluindo esterilização à força, seria uma opção justificada e necessária. Outra opção “emergencial” seria o bloqueio do fornecimento assistencial de comida para determinadas nações.

Muitos países introduziram políticas públicas de esterilização compulsória, como a Índia, que realizou milhares de cirurgias em homens e mulheres à força

Para alguns especialistas, a “revolução verde” vivenciada pela agricultura naquela década, responsável por aumentar as safras, daria conta de suprir um mundo com mais gente. Ehrlich discordava, pontuando que os agrotóxicos fariam mal ao meio ambiente, além do que as pragas desenvolveriam resistência aos produtos com o tempo.

Os danos ao meio ambiente eram outro ponto central da argumentação de “A bomba populacional”. A obra ressaltava o impacto nos recursos e a degradação da natureza proporcionados pela explosão populacional.

Para além da obra dos Ehrlich, reverberava pelo mundo a preocupação com a superpopulação. Diversos programas que visavam a redução da natalidade em países pobres foram lançados, tanto por fundações privadas como por entidades como o Banco Mundial e o Fundo das Nações Unidas para Atividades Populacionais (Unfpa).

Foto: Reprodução
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Nome de Anne Ehrlich, coautora e esposa de Paul, não aparece na primeira edição da obra
 

Muitos países introduziram políticas públicas de esterilização compulsória, como a Índia, que realizou milhares de cirurgias em homens e mulheres à força, além de condicionar acesso à água, eletricidade, aumento salarial e assistência médica à esterilização de homens e mulheres. Em 1980, a China introduziu a política de limitar um filho por casal.

Mais comida, menos filhos

O livro acerta quando fala em regiões propensas a enfrentar problemas agudos de fome. De acordo com uma contagem realizada pelo economista britânico Stephen Devereux, a década de 1970 perdeu entre quatro e cinco milhões de pessoas para a fome. Índia, Bangladesh, Camboja e Biafra (na Nigéria) são exemplos de locais onde isso aconteceu. Entretanto, a fome nessas áreas teve muito mais relação com guerras do que com superpopulação ou colapso ambiental.

Por outro lado, a premissa maior da obra, de que o mundo como um todo caminhava para um apocalipse de escassez causado pelo crescimento desordenado, não se concretizou. Graças a tecnologias que tornaram a agricultura mais eficiente, a oferta mundial de alimentos aumentou. Ao mesmo tempo, a pobreza diminuiu e os indicadores sociais em muitos países melhoraram.

228,4 milhões

População brasileira projetada para 2042. Número deve começar a cair depois

“A produção mundial de comida aumentou mais rapidamente do que a população mundial em cada década desde os anos 1960, os preços de recursos caíram durante a maior parte do período e a pobreza foi reduzida de forma significativa na maior parte do mundo em desenvolvimento”, escreveu David Lam, da Universidade de Michigan, em seu trabalho “Como o mundo sobreviveu à bomba populacional”, de 2011.

A população global seguiu crescendo até os anos 2000, mas desde então seu aumento vem desacelerando. Segundo algumas projeções, o tempo que levará para a população crescer entre 7 bilhões e 8 bilhões, 13 anos, já será maior que o intervalo entre 6 bilhões e 7 bilhões de habitantes, que foi de 12 anos. A previsão é de que demorará então 18 anos para atingir 9 bilhões.

Em muitos países, não há mais aumento demográfico. E não se tratam apenas de nações ricas, com IDH (índice de desenvolvimento humano) alto. A média de filhos por mulher no Brasil era de 1,77 em 2013 e deve chegar a 1,5 filho por mulher em 2030.

Países em que essa média é menor que dois tendem à diminuição da população. A população do Brasil deve atingir seu pico de crescimento em 2042, quando atingir 228,4 milhões de habitantes. Depois, começará a cair.

 

O padrão se repete em maior ou menor grau em todos os continentes, com exceção da África. No continente, a média de filhos por mulher ainda é 4. Em alguns países, como Somália e Níger, chega a 6 ou 7. Há previsões que colocam a população da Nigéria ultrapassando a dos Estados Unidos em 2060, o que a tornaria o terceiro país mais populoso do mundo. Mais de 80% da expansão demográfica global até o ano 2100 acontecerá no continente africano.

O debate hoje

Em artigo recente publicado no jornal Washington Post, o caso da África serve como exemplo de como os alertas lançados pelo livro dos Ehrlich há 50 anos ainda merecem atenção. O texto é assinado por três especialistas: Frances Kissling, presidente do Centro para Saúde, Ética e Políticas Sociais da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos; Jotham Musinguzi, diretor do conselho populacional de Uganda; e Peter Singer, professor de bioética na Universidade de Princeton.

De acordo com os articulistas, a questão do aumento populacional rápido não foi embora, mas “se tornou regionalizada”. Eles citam dados do departamento populacional da ONU de que 26 países africanos irão dobrar suas populações atuais até 2050. Para os autores, o debate sobre controle populacional deveria deixar de ser “tabu”.

Entre as ações defendidas no texto está “educar garotas e mulheres e permitir oportunidades para sua participação no trabalho e na vida política”. Em diversos países africanos, religião e tradições muitas vezes são barreiras para iniciativas de educação sexual ou distribuição de contraceptivos.

Outro artigo, publicado no site Aeon, se posiciona contra a continuidade da tradição “alarmista”, representada por Malthus e autores influenciados por ele. Em referência a um artigo científico que sustenta que a Terra tem condições de oferecer qualidade de vida de subsistência para no máximo 7 bilhões de habitantes, o especialista em política ambiental Ted Nordhaus rebate que não existe base para se estabelecer o limite da capacidade do planeta.

Nordhaus centra sua argumentação na capacidade de adaptação humana ao longo dos séculos. Ele cita como exemplo a adoção de cultivos mais eficientes e em áreas menores no decorrer do tempo: no início do período Neolítico, há 9 mil anos, era preciso uma área agrícola seis vezes mais extensa para alimentar uma pessoa.

O autor também fala sobre a diminuição no uso de energia, comida e bens de consumo em muitas sociedades depois que se alcança certo patamar material. “Poucos de nós precisam ou querem consumir mais que 3 mil calorias por dia ou morar numa casa de 500 metros quadrados”, argumentou.

 

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