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O aumento do uso de drogas para ‘turbinar o cérebro’ no mundo

Estudo mostra que substâncias para tratar transtorno do deficit de atenção e hiperatividade têm sido cada vez mais utilizadas por pessoas saudáveis para melhorar ‘performance mental’

     

    Nootrópicos são substâncias estimulantes, capazes de melhorar a concentração, a memória e o desempenho cognitivo. Trata-se de uma ampla família de compostos, desde vitaminas e aminoácidos essenciais até a cafeína presente no chá e no café, além de drogas de uso restrito ou recreativas como álcool, cocaína e LSD.

    Alguns nootrópicos sintéticos são usados para tratar doenças neurodegenerativas (como Parkinson e Alzheimer) e outros transtornos, como TDAH (transtorno do deficit de atenção e hiperatividade) e distúrbios do sono.

    Cada país legisla de forma independente acerca de seus usos e a validade de tratamento com fármacos. No caso do TDAH em crianças, continua em discussão a eficácia dessas drogas. Não há consenso entre os médicos sobre a melhora no desempenho escolar.  

    Um estudo citado pela revista Nature e publicado no The International Journal of Drug Policy em 1º de junho de 2018, entretanto, analisou o aumento do uso dessas substâncias por indivíduos saudáveis para “turbinar” o cérebro.

    Com informações coletadas em dois momentos distintos, em 2015 e 2017, e mais de 100 mil participantes em 15 países, este é o maior estudo já conduzido sobre o uso de drogas para “aprimoramento cognitivo farmacológico” (em inglês, PCE, ou “pharmacological cognitive enhancement”).

    A pesquisa registrou aumento do uso não terapêutico de substâncias para melhorar a memória ou a concentração em todos os países analisados, entre eles o Brasil.

    Como a análise foi feita

    O estudo “Aprimoramento cognitivo farmacológico entre indivíduos sem TDAH - um estudo transversal em 15 países”, liderado pela psicóloga Larissa Maier, da Universidade da Califórnia em São Francisco, baseou-se no GDS (“Global Drug Survey”, um questionário online sobre uso de drogas, respondido de forma anônima e disponível em 10 idiomas).

    Criado pelo psiquiatra britânico Adam Winstock em 2011, o Global Drug Survey é uma organização independente apoiada pelo King’s College de Londres e instituições como o Comitê de Ética da Faculdade de Filosofia da Universidade de Zurique, na Suíça.

    Todos os anos, entre novembro e janeiro do ano seguinte, o questionário do GDS recruta entrevistados maiores de 16 anos, usuários de drogas legais e/ou ilegais para uso recreativo, não terapêutico. As perguntas avaliam padrões de uso, motivações e danos reportados pelos usuários e associados ao uso das drogas. 

    A categoria de nootrópicos de aprimoramento cognitivo foi introduzida no GDS pela primeira vez em 2015, e novamente em 2017, em uma subseção.

    A pesquisa foi respondida por 79.640 pessoas, em 2015, e por 29.758 pessoas em 2017. Os participantes tinham até 65 anos e eram identificados como do sexo masculino e feminino (transexuais foram excluídos da análise), sem histórico de TDAH. 

    “A segunda amostragem é notadamente menor porque o módulo sobre uso de PCE foi incluído apenas no primeiro mês em que o GDS de 2017 estava disponível”, afirma o artigo.

    No questionário de 2015, os participantes respondiam se já haviam usado algum medicamento de uso controlado ou ilegal para aumentar o desempenho no trabalho ou nos estudos nos últimos 12 meses. Em caso positivo, assinalavam qual substância usaram (metilfenidato, modafinil, dexanfetamina, cocaína, anfetamina ou metanfetamina ilegais) e quando a usaram.

    O questionário, então, convidava os participantes a descrever qual era a motivação primária do uso (para melhorar o desempenho no trabalho, nos estudos, para socializar ou para “intoxicar”).

    Classificavam ainda a eficácia notada pelo uso (mais do que o esperado, conforme o esperado, menos que o esperado, ou muito menos que o esperado) e como conseguiram os estimulantes (prescrito por um médico, dado por um membro da família que dispunha de receita médica, dado por um amigo, comprado por um revendedor ou comprado pela internet).

    Se respondessem que o acesso foi via médico, os participantes eram questionados se o profissional havia discutido os riscos potenciais e efeitos colaterais da medicação.

    Por fim, os participantes que usaram estimulantes eram perguntados se gostariam de usar menos drogas nos próximos 12 meses, e se procurariam ajuda para reduzir o uso.

    O GDS de 2017 era ligeiramente mais rápido de se completar. Teve como objetivo avaliar o uso de todas essas substâncias, mais uma nova categoria, a de “sedativos”, que incluía álcool, betabloqueadores, benzodiazepínicos e maconha.

    A adição da categoria foi considerada necessária pela pesquisa porque  o resultado anterior revelou que estudantes e trabalhadores afirmaram usar substâncias sedativas para melhorar o sono e aumentar o desempenho cognitivo no dia seguinte.

    Mais homens que mulheres responderam às duas pesquisas. A média de idade foi de 29 anos.

    As conclusões da análise

    No geral, 4,9% dos participantes em 2015 e 13,7% dos participantes em 2017 afirmaram ter feito uso de drogas de prescrição ou ilegais nos últimos 12 meses para “aprimoramento cognitivo farmacológico” (PCE).

    “O aumento de 180% na comparação entre os anos não pode ser explicado apenas pela amostragem ou pelas diferentes formulações nas perguntas entre as pesquisas de 2015 e 2017”, afirma o artigo.

    “Fatores culturais, a prevalência de diagnósticos de TDAH e a disponibilidade influenciam quais drogas são usadas para PCE e a taxa de uso.”

    Larissa Maier

    psicóloga da Universidade da Califórnia em São Francisco, em entrevista à Nature

    Considerado apenas o uso de estimulantes de prescrição, os índices foram de 3,2% (2015) para 6,6% (2017). Entretanto, o uso dessas drogas entre indivíduos sem TDAH é tido como relativamente raro e, na maior parte das vezes, limitado a períodos estressantes no trabalho ou uma ou duas semanas antes dos exames escolares.

    Os Estados Unidos são o país com maior uso dessas substâncias entre indivíduos saudáveis. Em 2015, o índice entre os participantes era de 18,7%. Em 2017, esteve em 21,6%.

    Mas as maiores altas aconteceram na Europa. Na França, por exemplo, a porcentagem de uso foi de 3% em 2015 para 16% em 2017. No Reino Unido, o número subiu de 5% para 23%.

    O estudo sugere que a disseminação de práticas “ao estilo americano” no tratamento do TDAH e distúrbios do sono está relacionada ao aumento da disponibilidade de drogas como anfetaminas e modafinil (sintetizado na França nos anos 1970 e aprovado em 1998 pela FDA, a agência reguladora de saúde dos EUA) nos Estados Unidos, Canadá e Austrália.

    Medicamentos à base de anfetamina não são aprovados na União Europeia, onde o metilfenidato - vendido sob vários nomes comerciais, incluindo Ritalina - é mais usado.

    Nos Estados Unidos, cerca de 10% das crianças de 5 a 17 anos são diagnosticadas com TDAH (dados do National Center for Health Statistics de 2015). O tratamento disponível mais disseminado é o medicamentoso.

    Na França, entretanto, onde o diagnóstico de TDAH é menos prevalente (3,5% a 5,6%), a condição médica recebe tratamento psicológico, não farmacológico.

    “Estimulantes ilegais como a anfetamina e a cocaína são as principais drogas estimulantes para ‘aprimoramento cognitivo farmacológico’ em países como a França, onde o tratamento para TDAH é menos popular.”

    “Aprimoramento cognitivo farmacológico entre indivíduos sem TDAH - um estudo transversal em 15 países”, publicado no International Journal of Drug Policy

    O artigo ainda relata que participantes da pesquisa que usam cocaína, MDMA (sigla para metilenodioximetanfetamina), anfetaminas ilegais e outros narcóticos têm 6 a 20 vezes mais chances de relatar o uso de alguma droga de aprimoramento cognitivo.

    Efeitos na cognição pelo uso de drogas (em %)
     

    Uma das descobertas mais importantes do estudo é a de que um terço das pessoas que usam drogas estimulantes como “pílulas de inteligência” gostariam de reduzir seu uso, sem precisar procurar ajuda médica para isso. 

    Reações adversas

    As drogas cognitivas representam um desafio médico e ético em todo o mundo.

    Ao passo que a legislação europeia proíbe uma ampla família de anfetaminas, elas estão disponíveis pela internet e são legais em alguns países, como os Estados Unidos.

    No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) estabeleceu em 2011 a proibição de boa parte das metanfetaminas, mas substâncias como anfepramona, femproporex e mazindol, anfetamínicos emagrecedores, foram liberadas pelo Congresso em 2017 para venda sob prescrição. Boa parte dessas drogas também pode ser comprada online.

    Avançam pelo mundo legislações específicas sobre o uso da maconha recreativa ou medicinal. Os efeitos da ampliação na oferta ainda precisam ser acompanhados pela comunidade científica, bem como o uso contínuo de determinados compostos.

    Em novembro de 2012, o relatório “Aprimoramento humano e o futuro do trabalho”, assinado por membros da Royal Society de Londres e das academias britânica e americana de medicina e engenharia, já alertava para o uso indiscriminado das drogas cognitivas, cujos efeitos em médio e longo prazos em indivíduos saudáveis ainda precisam ser descritos.

    Remédios desenvolvidos para tratar doenças como TDAH, narcolepsia (distúrbios do sono), Alzheimer e esquizofrenia melhoram as capacidades cognitivas e aumentam o tempo de “vida útil” do cérebro, permitindo que pessoas saudáveis trabalhem mais e por mais tempo.

    Entretanto, “seu uso no trabalho levanta desafios éticos, de saúde pública, políticos e sociais”. Seu acesso facilitado pelo comércio online “atrai pouco, se é que atrai, algum mecanismo regulatório”.

    “A situação atual amplia os questionamentos, tais como se é possível alguma forma de autorregulação, se há circunstâncias em que ‘performance melhorada mediante uso de nootrópicos’ pode ser encorajada ou mesmo obrigatória, especialmente quando o trabalho envolve a responsabilidade pela segurança de outros (como motoristas de ônibus ou pilotos de avião.”

    Aprimoramento humano e o futuro do trabalho

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