Como empregadas domésticas estão usando a internet em São Paulo

Pesquisa entrevistou 400 trabalhadoras da Grande São Paulo e revelou o uso e o acesso delas à rede

     

    Realizada pelo centro de pesquisa Internetlab, em parceria com a Rede Conhecimento Social e a Consult Pesquisa de Mercado, a pesquisa “Domésticas Conectadas” investiga os acessos e usos da internet por trabalhadoras domésticas em São Paulo. Foi lançada no dia 26 de junho de 2018.

    Iniciada no segundo semestre de 2017, teve uma etapa qualitativa e uma quantitativa. Seu objetivo era o de produzir dados inéditos sobre o papel das tecnologias digitais na vida desse grupo específico, o das mulheres trabalhadoras domésticas que atuam na cidade.

    Os dados de acesso e hábitos de uso da internet no Brasil são marcados por desigualdades sociais. Segundo a diretora do Internetlab e uma das autoras do estudo, Mariana Valente, ainda faltam estudos desse tipo que focalizem populações específicas.

    “Pensando em estudar acesso e uso de internet a partir dessa perspectiva das desigualdades, pensamos que esse grupo das trabalhadoras domésticas oferecia uma porta de entrada para muitas discussões, por ser marcado por diversas desigualdades”, como de classe, raça e gênero, disse Valente ao Nexo.

    Perfil das participantes

    Das 400 trabalhadoras entrevistadas pela pesquisa, a maioria reside na Zona Leste de São Paulo e nasceu no próprio estado. Têm, em média, 39 anos, 66% são pretas ou pardas e a maioria das mulheres declara ter filhos, boa parte sendo solteira.

    Todas têm celular, que é o principal dispositivo de acesso à internet e às redes sociais por essas mulheres.

    Em comparação com os dados da pesquisa TIC Domicílios de 2016, feita pelo relatório, as trabalhadoras domésticas acessam internet pelo celular mais do que a média nacional e do Sudeste (93%, nos dois casos).

    A popularização dos smartphones e dos pacotes de dados oferecidos pelas operadoras, que se tornaram mais acessíveis, fez com que o uso aumentasse nos últimos cinco a seis anos.

    O acesso delas à internet pelo computador de mesa e notebook, por outro lado, está muito abaixo da média nacional, de 35%, e do Sudeste, de 40%.

    Embora a conectividade venha aumentando, sobretudo pela ampliação do uso do smartphone, o fato de que as classes D e E acessam a internet somente pelo celular pode ampliar desigualdades de uso.

    Segundo Valente, páginas de serviços públicos, por exemplo, muitas vezes ainda são feitas apenas para computador e não podem ser acessadas adequadamente pelo celular.

    Descobertas em 4 pontos

    Wi-fi na casa dos patrões

    Somente 51% das domésticas têm acesso à senha do wi-fi na casa dos patrões.

    “Isso em um contexto em que a grande maioria dos planos de dados contratados [por elas] é pré-pago”, comenta a pesquisadora Mariana Valente. “Diz muito sobre as formas como as relações são construídas. As mensalistas têm mais acesso ao wi-fi na casa do patrão do que diaristas.”

    Também há diferença, relatada pelas entrevistadas, na qualidade da rede na casa delas e dos patrões, por questões de renda e da região onde cada um mora (em geral, respectivamente, periferia e centro). 

    Usos principais

    O uso fundamental da internet feito por elas é para comunicação, sobretudo com filhos e família em geral.

    Uma porcentagem de 58% disse enviar mensagens de voz mais de uma vez por dia. O uso das mensagens de voz é mais amplo entre aquelas com baixa escolaridade, provavelmente devido a dificuldades de comunicação escrita.

    Privacidade e segurança

    Tanto nos resultados quantitativos quando na pesquisa qualitativa, as participantes demonstraram um altíssimo nível de preocupação com sua privacidade na rede.

    Não no sentido da privacidade dos dados, mas no sentido da integridade pessoal e patrimonial: relataram medo de compartilhar, por exemplo, fotos quando estão fora de casa, por insegurança de serem roubadas e o estigma da profissão faz com que, muitas vezes, não registrem nos perfis das redes sociais que atuam como domésticas.

    Quanto às compras, a maioria das entrevistadas faz pesquisa de preços pela internet, mas poucas de fato compram online: 73% afirmaram nunca ter comprado.

    As trabalhadoras domésticas usam menos a internet para comprar do que a média nacional (38%) e a do Sudeste (47%). Há uma sensação de insegurança em relação ao comércio eletrônico.

    “A gente esperava encontrar informações sobre a vida profissional delas sendo transformada pela internet. Que a internet tivesse facilitado encontrar trabalho porque elas postam que oferecem serviços de diarista, ou porque elas são marcadas no post de alguém que falou que precisa do serviço. A gente viu que isso não é, absolutamente, o caso”, disse Valente em entrevista.

    Elas não se sentem seguras de trabalhar em casas de pessoas que não conhecem, que não fazem parte de sua rede de confiança. “É um trabalho que ainda é muito ligado a essas redes e que então não é impactado pela internet”, disse a pesquisadora.

    Busca de informações

    A busca por informações é frequente: especialmente por informações de saúde, já que 64% das participantes o fazem de uma vez por mês (ou menos) a todos ou quase todos os dias.

    “A hipótese que surgiu para isso nas nossas oficinas de interpretação dos resultados foi que elas não confiam nos diagnósticos feitos e nos remédios receitados pelos médicos”, disse Valente. “Isso pode dizer muito mais sobre os nossos serviços de saúde do que sobre elas ou sobre a internet.”

    Como foi realizada

    Na primeira etapa do trabalho, as pesquisadoras realizaram uma oficina com 27 trabalhadoras domésticas, que levantaram questões e hipóteses importantes sobre o tema. A ideia é que a construção de todas as etapas fosse participativa e incluísse as vozes das empregadas domésticas do desenho da pesquisa à interpretação dos dados produzidos por ela.

    A partir dessa primeira fase, foi elaborado um questionário, inspirado por perguntas presentes na pesquisa TIC Domicílios, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação. Essas perguntas foram respondidas por 400 trabalhadoras da Grande São Paulo.

    Por fim, uma nova oficina foi realizada com o grupo inicial para discussão e interpretação dos resultados da etapa quantitativa.

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