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Qual a importância de ‘Água funda’, primeiro livro de Ruth Guimarães

Romance publicado em 1946 narra o mundo caipira do sul de Minas e Vale do Paraíba, permeado pelo medo e pelo pensamento mágico

    Foto: Reprodução/Tarsila do Amaral Licenciamento e Empreendimentos Ltda
    'Palmeiras', quadro de 1925 de Tarsila do Amaral, estampa a capa da 3ª edição de 'Água funda'
     

    A terceira edição do romance “Água funda”, de Ruth Guimarães, publicado em 1946, foi lançada pela Editora 34 em junho de 2018, em São Paulo, na sede da Academia Paulista de Letras (APL).

    No dia seguinte, 15 de junho, Guimarães teria completado 98 anos, se estivesse viva. Ela acumula uma série de pioneirismos: foi a primeira – e, até o momento, a única – escritora negra imortal da APL. A primeira escritora negra brasileira a alcançar projeção nacional.

    “Água funda”, por sua vez, é o primeiro romance publicado por uma autora negra após a abolição da escravatura no Brasil, em 1888.

    Até onde se sabe, Ruth Guimarães é a segunda romancista negra da literatura brasileira: sua obra de estreia tem quase um século de distância de “Úrsula” (1859), da pioneira Maria Firmina dos Reis.

    A antecessora introduziu seu romance como se pedisse licença para falar, diminuindo a validade da obra: “sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o tracto e a conversação dos homens ilustrados”, escreveu.

    Já Guimarães, vinda do interior de São Paulo, procurou Mário de Andrade ao se mudar para a capital, munida de seus manuscritos, segundo conta a pesquisadora Fernanda Miranda em um artigo para o Suplemento Pernambuco.

    O modernista e folclorista se tornou seu mestre.

    Apenas meio século após o fim do sistema escravocrata, Guimarães foi, na definição de Miranda, “uma escritora negra jovem, que chega na roda da intelectualidade paulista, literalmente no centro do território – citadino e intelectual – dominado pela elite de homens majoritariamente brancos, e se estabelece”.

    O romance

    O livro de estreia da paulista “trata, sobretudo, de processos históricos continuados, muitas vezes semelhantes a águas paradas” no Brasil liberto, escreveu Fernanda Miranda. Em seu doutorado em Letras pela USP, Miranda pesquisa o romance de autoria negra e feminina na literatura brasileira.

    “A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez”

    Trecho de ‘Água funda’

    Ruth Guimarães

    O enredo é ambientado no sul de Minas Gerais, entre o fim do período escravocrata e as primeiras décadas do século 20, nos arredores de uma fazenda chamada Olhos D’água. Destaca a história do casal Joca e Curiango, e da Sinhá, personagem que atravessa os tempos do romance.

    Narrada em terceira pessoa por uma voz caipira, com feitio de contadora de casos, a história tem duas fases: a primeira acontece em uma fazenda de senhores de escravos e a segunda transcorre em meio ao processo de modernização do engenho para usina.

    “A ficção acentua o que ficou de uma fase na outra, isto é, elabora as permanências e resíduos do colonial na passagem do tempo”, diz Fernanda Miranda em entrevista ao Nexo.

    A verdadeira protagonista da história é a figura mítica da Mãe de Ouro, que funciona dentro do romance como representação do Destino.

    “Onde mora? Mora no fundo da terra. Onde ela está o outro brota do chão, que nem mato. O fundo do rio onde se acoita é dourado e brilhante que é ver um céu. A areia se estrela de escamas, tudo ouro. Quando vai mudar de lugar, vira uma bola de ouro, tão bonita, que parece fogo, riscando o céu. A gente enxerga um minuto só aquilo, avermelhado no ar. Depois some. Eu já vi. Vi com estes olhos que a terra há de comer, a Mãe de Ouro se mudando de Olhos D’Água.”

    Trecho de ‘Água funda’

    Ruth Guimarães

    Segundo Miranda, a escritora produziu uma ficção cujos sentidos são disruptivos do centro.

    “[‘Água funda’] mostra as continuidades e permanências das estruturas de poder e mando no Brasil, particularmente apontando que a transição do período escravo para o pós-abolição trouxe pouca mudança de fato”, disse Miranda ao Nexo. Segundo a pesquisadora, a obra “constitui uma elaboração estética apurada da experiência colonial brasileira”.

    Essa sofisticação, para ela, se revela na linguagem, na construção dos personagens e em conexões no espaço-tempo.

    “A missa campal no morro foi uma beleza! (...) Ficou tudo quieto na manhã milagrosa. A campainha tiniu, um som claro de ouro. Dali a pouco o quadro se desmanchou de repente. Sabe quando a gente atira uma pedra na água parada e a paisagem do fundo se desfaz e se mistura e treme e confunde tudo, num movimento ligeiro? O povo começou a levantar e descer. Tinha acabado.”

    Trecho de ‘Água funda’

    Ruth Guimarães

    Mulher, negra e intelectual

    Ruth Guimarães nasceu em 1920 em Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba, em São Paulo. Órfã aos 17 anos, mudou-se para São Paulo em 1938.

    “Água funda” é seu único romance. Mas Guimarães publicou mais de 40 obras, entre ficção, não ficção e traduções do francês, do russo e do latim. Foi cronista durante muitos anos nos grandes jornais da imprensa paulista, como Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo.

    Foto: Acervo familiar
    Escritora esteve no centro da elite intelectual nacional
     

    “Ruth Guimarães foi uma grande intelectual. Penso nela como uma ‘outsider within’, como definiu [a socióloga americana] Patricia Hill Collins: segundo ela, esse status tem proporcionado às mulheres negras produtoras de conhecimento um ponto de vista especial”, diz Fernanda Miranda.

    A escritora esteve no centro da elite intelectual nacional: ingressou na USP em 1947, nos primeiros anos da universidade, frequentou rodas de intelectuais prestigiados, como o Grupo Baruel, as três edições de seu romance saíram por editoras grandes e dialogou com grandes escritores, como Mário de Andrade, Guimarães Rosa e o próprio Antonio Candido.

    Invisibilização

    Entre as razões para o desconhecimento de um romance tão importante pela maior parte do público leitor, sua ausência do currículo escolar e os pouquíssimos trabalhos acadêmicos dedicados a ele estão questões de recepção acadêmica ligadas ao racismo e ao machismo. 

    “Os poucos trabalhos críticos que analisaram o romance o leram como obra regionalista. Em meu trabalho, eu o interpreto em outra chave, o leio através da perspectiva diaspórica”, diz Miranda. “Nesse ponto, é preciso dizer que nem sempre as categorias teóricas de abordagem tradicionais dos estudos literários dão conta da produção literária de autoria negra: quase sempre é preciso requisitar outros aportes.”

    Dentro da produção literária da época, de acordo com a pesquisadora, o romance foi lido como regionalista, em comparação com Guimarães Rosa (“Sagarana” é do mesmo ano de “Água funda”), a quem a crítica considera universal – ainda que seu universo ficcional remonte a um local específico.

    “Como sabemos, universal é uma categoria política, que historicamente tem agregado produções de sujeitos específicos (homens brancos). No caso de Ruth, o fato de a ficção se pautar em um local preciso (o Vale do Paraíba) foi motivo para o romance ser considerado folclórico, singelo, menor, e outros adjetivos que o reduziram à margem da circulação de textos literários”, diz Miranda. 

    Na avaliação dela, “o fato de a obra circular pouco pelo universo literário é fruto de ela ter sido escrita por uma mulher negra. A sociedade brasileira, racista e sexista como nos mostrou Lélia Gonzalez, não concebe a mulher negra como sujeito do conhecimento, como criadora de imaginários para a nação, ou de problematização dos imaginários hegemônicos”.

    Ao lado de “Água funda”, estão outros romances celebrados, porém posteriormente invisibilizados, de autoria negra, como o próprio “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis, a produção de Carolina Maria de Jesus e  “As mulheres de Tijucopapo”, de Marilene Felinto, que ganhou prêmio Jabuti de autor revelação em 1983.

    Acompanhado pela mudança na comunidade leitora que constrói o valor da obra, esse cenário tem começado a se alterar recentemente. Com mais pessoas negras inseridas nas pesquisas acadêmicas, em editoras e selos literários, nas feiras, saraus e mesas de debate “e o próprio leitor negro, que solicita as obras e assim sustenta a circulação dos autores, tem modificado paulatinamente esse cenário de exclusão. Um exemplo disso foi a mobilização em torno da candidatura de Conceição Evaristo à Academia Brasileira de Letras”, disse Miranda.

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