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8 obras de ‘Histórias afro-atlânticas’, analisadas por um dos curadores

A pedido do ‘Nexo’, pesquisador Hélio Menezes comenta individualmente quadros escolhidos da exposição em cartaz em São Paulo

Preparada ao longo de três anos de pesquisa por uma equipe de cinco curadores, a exposição “Histórias afro-atlânticas” foi aberta na última semana de junho de 2018 em São Paulo, em duas sedes: o Masp e o Instituto Tomie Ohtake.

A mostra exibe, até outubro de 2018, 450 trabalhos de mais de 200 artistas do século 16 ao 21, explorando a arte dos territórios afro-atlânticos, que compreendem, além da África, as Américas, o Caribe, e mesmo a Europa.

A proposta é a de trazer obras, imagens e temas do “Atlântico negro”. A expressão vem do livro homônimo de Paul Gilroy, que destaca o Atlântico como geografia central para compreender o desenvolvimento das culturas e artes negras. 

A exposição passa por temas caros à população negra, “revendo a mácula da história do Brasil e das Américas que foi o sistema escravista”, disse ao Nexo o curador Hélio Menezes.

O projeto de curadoria se dá em consonância com uma preocupação que tem ganhado força em instituições culturais de diferentes países: a revisão de suas próprias coleções tendo como paradigma a diversidade de olhares contemplados pelos museus e galerias, da raça e gênero dos artistas que integram acervos e exposições, de quem é representado e como.

“Estamos em um país diverso e os museus brasileiros não têm refletido a diversidade da nossa população e a magnitude da produção negra no Brasil”, disse Menezes.

“Ela não é apenas contemporânea, não é uma coisa que começou nos últimos anos. Desde a Colônia temos grandes nomes das artes negras no Brasil, nossos museus ainda estão muito atrasados frente a isso. Trata-se, portanto, de uma proposta decolonial, que critica o eurocentrismo da história da arte, critica e quer rever o eurocentrismo que guiou a composição do acervo do Masp”, complementou o curador.

No Masp, a mostra se insere em um ano de programação dedicada às histórias afro-atlânticas. Obras de diferentes épocas e países estão organizadas nas salas “Mapas e Margens”, ‘Cotidianos’, ‘Ritos e Ritmos”, ‘Retratos”,“Modernismos afro-atlânticos” e “Rotas e Transes: Áfricas, Jamaica e Bahia”.

Já no Instituto Tomie Ohtake estão as salas “Emancipações” e “Resistências e Ativismos”.

“As grandes salas e pinacotecas dos museus no mundo, em geral, retratam apenas pessoas brancas, tanto nas telas quanto na autoria das obras. Um dos objetivos da exposição é mostrar que não é por uma questão de ausência de autores negros, de personagens negros, que essas obras não tenham entrado nos acervos dos museus e das grandes galerias.”

Hélio Menezes

Curador

O Nexo visitou a exposição no Masp acompanhado do curador,  antropólogo e pesquisador Hélio Menezes, que selecionou e comentou 8 trabalhos.

“A permanência das estruturas”, de Rosana Paulino (2017)

Foto: Reprodução/Masp
Impressão digital sobre tecido, recorte e costura (96×110 cm)
 

“Estamos diante de uma obra da artista Rosana Paulino, uma artista brasileira, de São Paulo. São diversos pedaços de tecido suturados uns aos outros. As linhas estão à mostra – esse tecido não está bem arranjado, está propositadamente desalinhado. A ideia é mostrar como essa costura, no Brasil, é violenta.

Ao centro, a artista reproduz um esquema de um navio negreiro, uma imagem do fim do século 18 que  foi utilizada por mercadores de navios negreiros e também,por sua violência, por alguns abolicionistas.

Ela vem ladeada de dois crânios que fazem uma referência aos estudos de antropologia física realizados na Europa e também no Brasil, sobretudo no final do século 19. Vemos também um azulejo português que evidencia a relação com a colonização. Ela está sobrepondo vários tempos históricos.

O que mais chama atenção são essas fotografias de frente, de lado e de costas de um homem negro brasileiro, desnudo. Elas foram feitas por um fotógrafo chamado Auguste Stahl no século 19, no Rio de Janeiro. Na fotografia original, ele é identificado apenas pelo seu grupo étnico de origem, africano. A fotografia foi encomendada por um cientista chamado Louis Agassiz, que se contrapunha a Darwin e queria provar, especialmente a partir de fotografias cientificistas de pessoas de outras cores, como algumas raças eram inferiores.

No retrato de frente desse sujeito negro ela recorta abruptamente o tecido, mostrando uma ausência, mostrando como esses corpos vêm sendo seviciados, assassinados, simbólica e fisicamente, seja nos navios negreiros, nos estudos antropométricos, pela colonização ou no racismo persistente dos nossos dias presentes. Não à toa, a obra chama-se ‘A Permanência das Estruturas’, mostrando como o racismo no Brasil é, de fato, estrutural”.

“Egyptian Heritage (Legado egípcio)”, de Lois Mailou Jones (1953)

Foto: Reprodução/Coleção Clark Atlanta University Art Museum, EUA
Óleo sobre Duratex (60,5×103 cm)
 

“Na tela da artista americana, a gente pode observar, ao fundo, vários desenhos e reproduções de hieróglifos egípcios. No primeiro plano, logo ao centro, vemos a atualização de uma alegoria bastante tradicional da passagem do tempo na arte europeia, na qual aparecem um senhor mais velho, um homem de meia-idade ao centro e um mais jovem do outro lado.

Aqui, entretanto, ao contrário dessa representação geralmente masculina e branca, a artista coloca três mulheres negras, com diferentes tons de pele. Podemos observar que, da mais velha à mais nova, a coloração [da pele] vai diminuindo. Muito provavelmente, a retratada ao centro é a própria artista.

Há uma clara menção da artista à herança egípcia na produção das culturas e civilizações negras. Não podemos nos esquecer que é também nos anos 1950, que o filósofo e sociólogo Cheikh Anta Diop defende, em Dakar, no Senegal, sua tese sobre os faraós negros do Egito. Cleópatra ou outra rainha do Egito aparece como uma das três mulheres dessa figura central. Com as pesquisas recentes, sabemos que, como todo corpo de faraós do Egito Antigo, Cleópatra era uma autoridade negra, embranquecida pelo cinema, pela indústria cultural.

Nessa obra, Louis Mailou Jones resgata, portanto, não só uma parte da herança cultural negra importante, esquecida, que vem do norte da África, mas também a figura negra de personagens que vêm sendo embranquecidos pela indústria do cinema e outros meios culturais americanos”.

“Nubian Queen (Rainha nubiana)”, de Gary Simmons (1993)

Foto: Reprodução/Masp
Látex sobre lona (244×244 cm)
 

“Nessa obra, mais uma vez vemos o perfil de uma autoridade negra do Egito, da região da Núbia, no sul.

Podemos observar também como o artista equipara e fricciona diferentes regiões e temporalidades. Ao fundo dessa efígie negra de perfil, vemos uma série de tons alaranjados, vermelhos, azulados, verdes e pretos. Esses padrões configuram um conhecido tecido da África ocidental, mais especificamente do país de Gana, chamado “kente”.

Trata-se de um tecido cujos primeiros registros foram escritos por viajantes europeus, já no século 17: nessa região, sedas eram importadas do Oriente, da China, eram desfeitas, e os fios eram reaproveitados para confeccionar esses tecidos, de uso exclusivo da realeza.

Passados alguns séculos, o tecido se tornou popular, no contexto da independência de Gana, nos anos 1950. O primeiro presidente eleito de Gana, Kwame Nkrumah, começou a utilizar o tecido kente sobre sua roupa como um símbolo de identidade do país liberto. Logo, o kente se tornou um símbolo do pan-africanismo como um todo.

Esse tecido, aqui contrastado com a rainha egípcia, usa diferentes Áfricas, da África do norte à África ocidental, em períodos distintos, do Egito Antigo à África contemporânea, para falar de identidade, liberdade, e de um continente que se assume, em que se tem orgulho de ser negro”.  

“Negro Woman with Child [Mulher negra com criança]”, de Albert Eckhout (1641)

Foto: Reprodução/Masp
Óleo sobre tela (282×180 cm)
 

“Albert Eckhout fez parte da Corte de Maurício de Nassau, governador do Pernambuco holandês. A Holanda invadiu e ocupou parte do nordeste brasileiro e trouxe consigo não apenas colonizadores, engenheiros, mercadores, mas também alguns artistas, entre os quais dois se destacaram: Franz Post e Eckhout. Eles foram responsáveis por pintar profissionalmente, muito provavelmente, as primeiras imagens de pessoas negras no território do Brasil sob colônia.

Comecemos com o retrato da mulher negra. Vemos sua figura ao centro, junto com uma criança que aparenta, pela relação de afeto de sua mão sobre a cabeça da criança, ser seu filho.

Eckhout pinta, nessa cena, trópicos universais: há referências de árvores e palmeiras brasileiras como também africanas. A criança segura, em uma mão, um milho e, na sua mão esquerda, um pequeno papagaio de cara vermelha, espécie que só existia na África, na foz do rio Congo, de modo que essa cena pode ter sido feita no Brasil, mas pensando na África: há uma mistura dos dois elementos, das duas regiões.

A saia dela segue uma padronagem Akan [grupo étnico da África Ocidental bastante conhecida, e também seu chapéu, embora exotizado, segue um perfil da África Ocidental.

No canto da tela, à direita, podemos notar alguns homens negros trabalhando na praia – há intérpretes que dizem que pode ser uma das primeiras representações de um quilombo. Não sabemos.

Ao fundo, no horizonte do mar, vemos algumas embarcações holandesas que mostram a posse da Holanda sobre a região. Essa mulher usa brincos elegantes, colares ao redor do seu pescoço. Sabemos hoje se tratar de uma cena ficcional, bastante idealizada, romantizada.

Há um dado que não pode ser negligenciado: nesta tela, vemos uma das primeiras representações de mulheres negras, criando uma espécie de convenção que se perpetua até o presente – a mulher negra aparece com os seios à mostra.

Durante o mesmo período outros artistas do Pernambuco holandês pintam esse par da mulher com a criança e a marca em ferro em brasa de Maurício de Nassau sobre um de seus seios, mostrando se tratar de uma escravizada. Aqui, as marcas de selvageria e de violência da escravidão foram apagadas".

“Negro Man [Homem negro]”, de Albert Eckhout (1641)

Foto: Reprodução/Masp
Óleo sobre tela (273×167 cm)
 

“Do outro lado, vemos essa figura também do Albert Eckhout, chamada 'Homem negro'. Ele repete a lógica dos trópicos universais, exóticos.

Podemos notar, à direita, uma carnaubeira estilizada, típica da região nordeste do Brasil, o que aponta que essa cena e esse sujeito são do Brasil ou, provavelmente, um escravizado africano recém-chegado. O grande facão na sua cintura, um facão Akan, junto com a padronagem do tecido que serve de tapa-sexo, aliado a outros elementos fazem uma mistura de elementos da África com o nordeste brasileiro.

Chama atenção a dimensão bastante fálica da tela, há uma série de elementos fálicos: a árvore, a proteção peniana, esse facão agigantado, que é quase metade do tamanho do próprio sujeito retratado, essas flechas, que alguns intérpretes atribuem a indígenas, talvez aos tupinambás.

Essa imagem, da primeira metade do século 17, é provavelmente uma das primeiras representações de sujeitos negros no Novo Mundo, também dando o mote de um certo tipo de representação visual. Esse sujeito negro, embora bastante altivo, é hipersexualizado em seu corpo, tem seus trajes diminuídos e elementos ao redor remetem o tempo inteiro à hipersexualização de seu órgão genital”.  

“Amnésia, de Flávio Cerqueira” (2015)

Foto: Reprodução/Masp
Tinta látex sobre bronze (135 × 38 × 41 cm)
 

“Essa escultura de um garoto negro foi esculpida no tamanho real de uma criança, com seus cabelos crespos, seu nariz largo sua boca marcada. A criança segura uma lata por sobre sua cabeça, de onde escorre uma tinta branca sobre seu corpo feito de bronze.

Aqui, Cerqueira reverte o uso desse material: pereniza uma criança negra em forma de escultura. A tinta escorre, mas não se impregna na obra, é como uma espécie de tatuagem removível, que em algum momento cobriu seu corpo, mas começa a sair, inequívoca referência às políticas oficiais do Estado brasileiro de embranquecimento da população, e às teorias raciais do século 19. 

A lata tem algo de surrealista em seu interior: a tinta branca escorre apenas na parte de baixo. Todo o resto da lata não tem resquícios de que a tinta ocupou o seu interior.

Podemos aqui, quem sabe, ver um indício de que o processo de embranquecimento no Brasil está se esgotando, ao mesmo passo em que a tinta parece não mais escorrer da lata sobre o corpo da criança”.

“João de Deus Nascimento”, de Dalton Paula (2018)

Foto: Reprodução/Masp
Óleo sobre tela (45×61 cm)
 

“Essas duas obras realizadas pelo Dalton Paula foram feitas especialmente para essa exposição, para integrar o núcleo ‘Retratos’.

Aqui, ele devolve ao povo brasileiro o retrato de duas figuras negras importantes de nossa história, que foram escamoteadas não só dos livros didáticos mas também pela historiografia da arte.

De alguma forma replicando o par de mulher negra e homem negro de Albert Eckhout do final do século 17, vemos aqui as figuras de Zeferina e de João de Deus.

Ele foi um dos líderes da Revolta dos Alfaiates, também conhecida como Conjuração Baiana, que em 2018 completa 220 anos. Essa é uma das histórias que nos é cara de ser contada: 2018 não é apenas o ano em que a abolição da escravatura completa 130 anos, mas também o aniversário de outras revoltas populares protagonizadas por pessoas negras, que quase iam passando despercebidas do debate político de 2018.

Aqui vemos, finalmente, um possível rosto, imaginado pelo artista goiano, deste que foi um dos líderes dessa revolta de caráter popular com participação de grande número de pessoas negras. Poucos foram capturados e condenados. Aqueles que foram, e tiveram seus corpos seviciados em praça pública, foram apenas, sintomaticamente, os líderes negros. João de Deus foi um deles.

Podemos ver como ele aparece altivo nesse retrato de Dalton Paula, à moda das técnicas desse artista, em fazer retratos inspirados na estética dos ex-votos. Têm uma relação direta, portanto, com uma espécie de cura – os ex-votos têm essa função, de serem deixados nas laterais das igrejas, nos altares, pedindo a cura.

Aqui, Dalton realiza uma cura simbólica, ao trazer essa figura no primeiro plano, com vestes elegantes, na cor verde – como o artista gosta de dizer, a cor voltada à saúde”. 

“Zeferina”, de Dalton Paula (2018)

Foto: Reprodução/Masp
Óleo sobre tela (45×61 cm)
 

“Ao seu lado, vemos Zeferina. Estamos ainda na cidade de Salvador, mas em outro momento histórico. Zeferina foi uma líder quilombola, líder de um conglomerado de quilombos na região da atual periferia de Salvador.

Ela organizou, junto com quilombolas liderados por ela, uma revolta que ocorreria na véspera de Natal na cidade, mas foi capturada pelas autoridades antes da realização da revolta. Foi sentenciada à morte. Ela era conhecida pelos quilombolas que a seguiam como rainha.

Diziam, à época, que ela era uma das líderes de um dos terreiros que compunham esse conglomerado de quilombos possivelmente, uma filha de Iansã, uma orixá guerreira, a orixá dos ventos e trovões.

Por esse motivo, o artista Dalton Paula pinta a sua blusa com um tom bastante avermelhado, um vinho quase arroxeado, fazendo referência a essa entidade do candomblé. Essa pintura é inspirada em um par de fotografias do século 19. Dalton, entretanto, eleva a roupa, cobrindo um pouco mais os seios da Zeferina. Ela aparece com uma postura bastante firme, com um olhar que nos encara e nos intriga. O artista se esmerou no seu cabelo, bastante encrespado e com muita dignidade, usou diversos tons de marrom e preto em sua pele.

Diferentemente dos ex-votos que Dalton Paula pintava até então, aqui vemos duas personagens com olhos abertos. A tradição dos ex-votos é que apareçam de olhos fechados, como se estivessem em transe.

O que pra mim é um dos detalhes mais curiosos e significativos do retrato de Zeferina é que o artista foi esmeroso em pintar o babado da sua roupa, os detalhes de seu rosto, das marcas de sua boca, do cabelo, mas deixa, no lugar dos seus brincos, apenas o fundo da tela.

Os brincos estão pela ausência. Ao retirá-los, ele os evidencia e, acredito eu, sinaliza aí uma espécie de metáfora da própria personagem que ele pintou”.

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