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Por que os EUA se posicionaram contra a ONU sobre amamentação

Em maio de 2018, país fez ameaças comerciais a nações proponentes da resolução sobre incentivo ao aleitamento materno. Conflito demorou a ser divulgado por receio de retaliação

 

Centenas de delegados representantes de governos se reuniram em maio de 2018, em Genebra, para a Assembleia Mundial da Saúde, órgão de caráter decisório da Organização Mundial da Saúde, agência pertencente à ONU.

Entre as pautas debatidas estava uma resolução internacional de incentivo à amamentação baseada em décadas de pesquisas. A expectativa de uma aprovação fácil e rápida por parte dos delegados foi contrariada, no entanto, pela delegação dos Estados Unidos, que tentou bloqueá-la.

A tensão na assembleia foi relatada em julho pelo jornal The New York Times e incluiu ameaças comerciais e de outros tipos de represálias, feitas pelos EUA a países dispostos a apoiar a iniciativa.

Mais especificamente, de acordo com Andrew Jacobs, repórter do jornal, autoridades americanas tentaram retirar um trecho que interpelava os governos a “proteger, promover e apoiar a amamentação” e outro que pedia a restrição do marketing de fórmulas infantis e outros produtos alimentícios para crianças de até dois anos, substitutivos da amamentação.

Em alguns países, sobretudo aqueles em desenvolvimento, mães são estimuladas a aderir a esses produtos desde a maternidade.

Por fim, os EUA não conseguiram derrubar a resolução devido à interferência da Rússia, que apoiou e reintroduziu a resolução na assembleia com ligeiras alterações no texto.

As negociações duraram dias e a delegação americana, significativamente mais numerosa que as dos demais países, chegou a apresentar uma contraproposta, mas acabou vencida.

O episódio demorou a ser relatado devido ao medo sentido por participantes da retaliação dos Estados Unidos, que fez com que demorassem a falar, de acordo com uma reportagem da rádio pública americana NPR.

A oposição veemente do país à resolução chocou autoridades de saúde pública e diplomatas estrangeiros. Entre as razões para a surpresa estão o próprio tema, que nunca havia suscitado ameaças diplomáticas, e o contraste com o posicionamento americano durante o governo do democrata Barack Obama, de apoio à política de longa data da OMS de incentivo à amamentação.

“O que aconteceu equivale a chantagem, com os EUA fazendo o mundo refém e tentando derrubar quase 40 anos de consenso sobre a melhor forma de proteger a saúde de bebês e crianças pequenas”, disse ao New York Times Patti Rundall, diretora de políticas da organização Baby Milk Action, participante da assembleia da OMS.

De início, as ameaças americanas se dirigiram principalmente ao Equador, país que apresentou a resolução na assembleia. A estratégia foi pressionar o país com sanções comerciais e com a retirada da ajuda militar fornecida pelos EUA para combater a violência na fronteira do país sul-americano com a Colômbia. 

Motivos do posicionamento

Em entrevista no rádio à NPR, o repórter Andrew Jacobs afirmou que, ainda que seja difícil falar com total certeza do que motivou o comportamento da delegação americana na Assembleia Mundial de Saúde, a indústria do leite artificial e outros alimentos para bebês parece estar por trás da oposição.

Dominada por algumas empresas americanas e europeias, a indústria em questão perdeu terreno nos últimos anos nos países mais ricos, onde mais mulheres têm conseguido amamentar pelo período recomendado.

Para Lucy Sullivan, diretora executiva da organização “1.000 days”, cujo objetivo é melhorar a nutrição de bebês e crianças no mundo, a intervenção americana na assembleia se resume a “saúde pública versus lucro privado. O que está em risco: amamentação salva a vida de mulheres e crianças. Também é ruim para a o negócio multimilionário global das fórmulas infantis e dos laticínios”, disse em uma thread no Twitter.

Uma das gigantes da indústria produtora de fórmulas infantis, a Abbott Nutrition faz parte da multinacional de saúde Abbott Laboratories, uma das financiadoras da cerimônia de inauguração do governo de Donald Trump em 2017, segundo informou o jornal The Guardian.

No Twitter, o presidente americano reagiu à reportagem do New York Times chamando-a de notícia falsa e afirmou que os Estados Unidos “apoiam fortemente a amamentação” mas se opõem a negar o acesso de mães ao leite artificial. “Muitas mulheres precisam dessa opção por conta da pobreza e da desnutrição”, disse Trump na rede social no dia 9 de julho.

Também pela rede social, a diretora executiva da “1.000 days” desmentiu que haja um problema no acesso de mães às fórmulas infantis. Sullivan argumenta que elas são ostensivamente ofertadas, sobretudo nos países mais pobres.

Entrevistado para a reportagem do New York Times, um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo americano que preferiu o anonimato defendeu que a redação original da resolução criava obstáculos desnecessários para as mães.

Argumentou que “nem todas conseguem amamentar” e estas devem ter escolha e acesso a alternativas, sem serem estigmatizadas por isso.

Na reportagem, Jacobs contextualiza que o conflito foi o exemplo mais recente do alinhamento do governo Trump a interesses empresariais em uma longa lista de assuntos ambientais e de saúde pública.

As ações da delegação em Genebra também se inserem no posicionamento do governo de colocar em questão alianças e práticas estabelecidas por organizações multilaterais, como foi o caso da declaração de saída do país do acordo climático de Paris e a ruptura do acordo nuclear com o Irã, por exemplo.

Leite materno x leite artificial

Resoluções com a finalidade de elevar as taxas mundiais de amamentação têm sido aprovadas pela OMS desde a década de 1980.

Isso porque um grande número de estudos científicos demonstra os ganhos de saúde, tanto para mães quanto para os bebês, trazidos pela amamentação.

Um deles, publicado pelo jornal The Lancet em 2016, revelou que se a prática da amamentação fosse universal, 800 mil mortes infantis seriam evitadas globalmente por ano e custos de saúde pública reduzidos em US$ 300 bilhões.

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