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Quais os impasses para o fim da violência na Nicarágua

Jovens são marca de série de manifestações contra Daniel Ortega, presidente do país da América Central

    Desde abril de 2018 a Nicarágua vive um estado de turbulência política e social. Manifestações contra o governo do país da América Central e ações de forças de segurança para reprimir os protestos têm sido constantes.

    Segundo organizações nicaraguenses de direitos humanos, 17 pessoas morreram no domingo (8) em duas cidades do país, após uma ação de forças de segurança contra manifestantes. O número total, nos quase três meses de protestos, ultrapassa 310 mortes.

    Mapa da Nicarágua

    Por que o país está em turbulência

    O presidente Daniel Ortega está no poder desde 2007, em seu terceiro mandato consecutivo. Em 2018, uma reforma previdenciária proposta pelo seu governo foi rejeitada pela maioria da população.

    Protestos contra a reforma ganharam força em abril. E, com eles, veio a repressão das forças de segurança, com manifestantes mortos. Houve insatisfação e comoção nacional pelas vítimas.

    Ortega então revogou a proposta, mas os manifestantes não pararam por aí. Continuaram indo às ruas, no que se transformou em meses de atos marcados pela presença de jovens e críticas gerais ao governo, com pedidos de punição pelas mortes, mais democracia no país e até a renúncia do presidente.

    Algumas cidades possuem barricadas nas ruas. Além da polícia, há grupos paramilitares apoiando o presidente e reprimindo os manifestantes.

    Não há líderes antigoverno bem definidos. Desde maio, a Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua, principal instituição de ensino pública do país, está com sua sede na capital Manágua ocupada por estudantes.

    Ortega é uma figura de longa data na política nicaraguense, sendo um dos líderes da Frente Sandinista de Libertação Nacional, grupo guerrilheiro de esquerda que depois se tornou um partido político.

    Em 1979, os sandinistas conseguiram pôr fim a uma ditadura de mais de quatro décadas apoiada pelos Estados Unidos. Ortega também presidiu o país entre 1985 e 1990.

    O que impede o fim da crise

    Não há perspectiva de pausa ou de resolução dos conflitos na Nicarágua. Os manifestantes e a oposição partidária vêm pedindo que o governo antecipe a eleição presidencial para 2019 — dois anos antes do pleito previsto para 2021. Prometem seguir com grandes marchas, greves nacionais e demandas ao governo.

    Órgãos como a agência da ONU (Organização das Nações Unidas) para os direitos humanos e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos vêm condenando reiteradamente as ações dos últimos meses. Dizem que o Estado nicaraguense falha em garantir segurança e o direito à vida da população, além de perseguir e estigmatizar opositores.

    A Igreja Católica nicaraguense tem agido como mediadora dos diálogos entre governo e oposição. As conversas foram interrompidas pela Igreja, após uma jornada com mortes de manifestantes e com agressões a sacerdotes católicos na segunda-feira (9). O diálogo vinha sendo infrutífero, e agora se encontra suspenso.

    “O senhor [presidente Ortega] é o chefe supremo da Polícia Nacional e do Exército da Nicarágua, por isso lhe pedimos que agora mesmo ordene o fim desses ataques, da repressão e dos assassinatos”

    Lesther Alemán

    estudante e uma das vozes antigoverno, em discurso em 16 de maio, durante uma mesa de diálogo entre os dois lados

    Ortega diz que os manifestantes agem para desestabilizar o país, são violentos e geram arruaça e insegurança para a população. Para ele, os protestos são um ímpeto “golpista” de seus opositores, que agiriam com apoio dos EUA para retirá-lo do poder.

    O presidente também rejeita a demanda de antecipar as eleições em dois anos. Diz que está seguindo a lei, possui respaldo popular por ter sido eleito e que encurtar o seu mandato seria obra oportunista.

    “As regras são dadas pela Constituição, através do povo. As regras não podem ser mudadas da noite para o dia simplesmente porque deu na cabeça de um grupo de golpistas”

    Daniel Ortega

    presidente da Nicarágua, em discurso em 7 de julho

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