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Quais as baixas que o Brexit causou no governo de Theresa May

Três ministros conservadores de primeira linha deixam o gabinete britânico criticando os termos ‘suaves’ da saída da União Europeia

     

    Três ministros britânicos apresentaram renúncia à primeira-ministra Theresa May entre o domingo (8) e a segunda-feira (9).

    A sequência de baixas ocorre no contexto das negociações da saída britânica da União Europeia, no processo apelidado de Brexit – junção das palavras “british” (britânica) e “exit” (saída).

    A decisão britânica de abandonar o bloco europeu foi tomada por maioria em referendo popular realizado no dia 23 de junho de 2016, e deve ser cumprida até o dia 29 de março de 2019. O plano completo de desligamento deve ser apresentado até esta quinta-feira (12).

    Os três demissionários são figuras importantes no campo conservador (tories), do qual May faz parte, e ocupavam postos na linha de frente do atual governo britânico.

    Série de renúncias

    Boris Johnson

    A figura mais conhecida a deixar o governo foi o ministro das Relações Exteriores Boris Johnson, ex-prefeito de Londres.

    David Davis

    Além de Johnson, saiu também o secretário do governo para o Brexit, David Davis, responsável justamente por conduzir a saída britânica do bloco.

    Steve Baker

    Por fim, o Steve Baker, que auxiliava Davis na mesma função de coordenação do processo do Brexit, também deixou o governo May.

    Qual a razão da debandada

     

    Johnson, Davis e Baker apresentaram suas renúncias assim que May anunciou, na sexta-feira (6), um acordo com a União Europeia que permitiria aos britânicos uma saída “suave” do bloco.

    Essa saída “suave" só seria possível por que May aceitou que o Reino Unido seguisse cumprindo as regras comuns da União Europeia para circulação de bens, de pessoas e de produtos agrícolas. Em troca, os britânicos manteriam alguns privilégios comerciais ao bloco.

    Não é o que pensa Davis, que, em sua carta de demissão, acusou a primeira-ministra de colocar o país “numa posição de negociação fraca e possivelmente inescapável”. Para o lugar dele, foi nomeado o deputado Dominic Raab, ex-ministro da Habitação.

    Do trio de demissionários, Johnson é o que defende com maior fervor a saída completa da União Europeia, a chamada saída “dura”, sem meio termo. Johnson chama o Brexit de “sonho”, e diz que, com o acordo costurado por May, esse sonho “está morrendo”.

    O agora ex-ministro das Relações Exteriores vem se convertendo num nome cada vez mais popular entre os conservadores. Ele disse que o acordo “suave” costurado por May coloca o Reino Unido “num status de colônia” da União Europeia.

    O substituto de Johnson nas Relações Exteriores já está definido: será o ex-ministro da Saúde, Jeremy Hunt.

    Os riscos para o mandato de May

     

    Após o racha interno, May passou a sentir também uma pressão maior da oposição trabalhista. O líder da oposição, Jeremy Corbin, disse que a equipe de May “pulou fora com o barco afundando”.

    A saída do trio de ministros é considerada o maior abalo sofrido pela primeira-ministra desde a perda da maioria absoluta dos tories no Parlamento, em junho de 2017.

    Essa situação coloca o mandato dela em risco. No sistema de parlamentarismo monárquico britânico, basta que 48 parlamentares (15%) apoiem uma moção de desconfiança para que o mandato da primeira-ministra seja colocado em discussão na casa.

    Se isso acontecer, ela terá de reunir a maioria (326 votos) no Parlamento para seguir no cargo. Caso contrário, outro deputado conservador pode postular o lugar dela à frente do gabinete. Os conservadores têm hoje 318 cadeiras, e dependem do apoio do DUP, da Irlanda, para governar.

    Qual a importância da União Europeia

    A União Europeia é uma grande aliança formada por um grupo de 28 países. Ela representa o mais ambicioso plano de integração da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1945).

    Num continente cuja história é marcada por sucessivas guerras ao longo de séculos, a ideia de uma integração multinacional também representa chance maior de manutenção da paz e da estabilidade.

    Uma das metas é a de criar uma aliança militar comum no futuro. Na área econômica, 19 dos 28 países-membros adotaram o uso de uma moeda comum, chamada euro.

    Vinte e seis países compõem o Espaço Schengen. No interior desse espaço, o trânsito de cidadãos dos países-membros é livre, sem controle nacional de fronteiras.

    A integração europeia também se estende à adoção de parâmetros comuns nas áreas sanitária, de direitos humanos e de comércio, entre outras.

    Para os defensores do bloco, toda essa integração é positiva, pois fortalece a região. Para os críticos, a União Europeia enfraquece a soberania e a identidade nacional, privilegiando uma burocracia supranacional desconectada dos interesses dos países-membros.

    Um dos temas que mais dividem os membros da União Europeia atualmente é a imigração. O controle das próprias fronteiras é um dos principais argumentos dos partidos ultranacionalistas e populistas que vêm crescendo na Europa.

    O problema não diz respeito exatamente aos europeus que compartem o Espaço Schengen, mas aos imigrantes que vêm sobretudo do norte da África e do Oriente Médio.

    No documento base para a saída do bloco, o Reino Unido diz que “continuará sendo um país aberto e tolerante, que reconhece a valorosa contribuição dos imigrantes”, porém, adverte: “no futuro, temos de assegurar o controle do número de pessoas que vêm ao Reino Unido pela União Europeia”.

    O documento diz ainda que “é simplesmente impossível controlar a imigração como um todo quando há liberdade ilimitada de movimento de pessoas da União Europeia para o Reino Unido”. Por isso, o texto afirma que as autoridades britânicas recuperarão a capacidade de determinar, por si mesmas, quem pode e quem não pode entrar no país.

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