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Por que mulheres estão usando a dança para protestar no Irã

No país, que incorpora preceitos islâmicos na lei, é proibido às mulheres se mostrarem em público sem véu ou dançando

No Instagram, única grande rede social permitida em seu país, a iraniana Maedeh Hojabri, de 18 anos, era um sucesso. Por lá, costumava publicar selfies e vídeos de si dançando em seu quarto ao som de músicas locais ou hits pop internacionalmente conhecidos. Seu número de seguidores passava de 600 mil seguidores.

Em maio de 2018, sem alarde, a jovem foi presa por agentes do governo e seu perfil no Instagram foi excluído sem nenhuma explicação.

O rosto da garota voltou a aparecer publicamente no dia 3 de julho, em um canal estatal da TV local. Hojabri foi identificada ao lado de outras jovens – todas aparecem com a face borrada pela edição – que se desculpam e reconhecem que, segundo as lei do Irã, o uso de hijab pelas mulheres é obrigatório e dançar publicamente é proibido.

A reação à prisão e à humilhação pública sofridas pelas garotas se deu pela internet. Iranianas espalhadas pelo mundo, bem como mulheres de outras nacionalidades, passaram a publicar vídeos dançando em solidariedade e protesto.

Masih Alinejad, jornalista iraniana que vive nos Estados Unidos, também usou a internet para repercutir a notícia da prisão, bem como pedir e compartilhar vídeos de mulheres iranianas dançando em apoio às jovens.

Para Alinejad, que também milita contra o uso mandatório do hijab, os vídeos são uma forma de mulheres, em pleno século 21, cobrarem o direito de dançar livremente.

“Como mulher você nunca tem chance de ser visível do jeito que quer. (...) Isso é uma reação do povo iraniano. Isso é um modo de dizer ao governo do Irã que, ao prender ou ameaçar outras mulheres, você não vai mudar nosso estilo de vida”, disse a jornalista à BBC.

No vídeo acima, publicado por Alinejad, uma mãe iraniana dança de costas enquanto o marido diz: “Em um país onde dançar é crime, mas  desvio de dinheiro público, corrupção e professores de ensino religioso molestarem crianças não são, as pessoas devem se questionar sobre quais são as prioridades do governo”.

Anti-Insta

Já há algum tempo o Instagram anda na mira das autoridades iranianas. Na virada de 2017 para 2018, parte da população saiu às ruas em protesto contra medidas econômicas e, em resposta, a rede social de fotos e o aplicativo de mensagens Telegram, ambos usados pelos manifestantes para organização dos atos, foram temporariamente bloqueados.

Em maio de 2018, o Telegram foi banido do país por ordem da Justiça, que apontou seu uso para ativiades ilegais como propaganda contra o governo e pornografia. Para analistas, é desejo dos iranianos mais conservadores que o mesmo aconteça com o Instagram.

Diverge  dessa linha de pensamento o próprio presidente iraniano, Hassan Rouhani, eleito em 2013 com promessas de que, assim como vem fazendo a Arábia Saudita, flexibilizaria a lei permitindo mais liberdades individuais.

Em maio, após o bloqueio do Telegram, Rouhani fez um pronunciamento público  posicionando-se contra a decisão judicial. “Nenhuma rede social ou mensageiro foi bloqueado por esse governo, nem nunca será (...) Nós queremos fluxo livre de informações, bem como que o cidadão tenha direito de livre escolha online.”

Parte do clamor por mais liberdade às mulheres iranianas foi visto durante a Copa do Mundo, na Rússia. Em um jogo do Irã contra a seleção do Marrocos, duas mulheres levantaram uma faixa na arquibancada pedindo apoio às “mulheres iranianas” para que elas pudessem frequentar estádios também em seu país.

Foto: Dylan Martinez/Reuters
Mulheres iranianas protestaram durante a Copa pedindo liberdade para frequentarem estádios em seu país
Mulheres iranianas protestaram durante a Copa pedindo liberdade para frequentarem estádios em seu país

Perseguição

Outras autoridades iranianas, no entanto, têm dado sinais de que as coisas podem piorar para quem usa o Instagram, que tem 24 milhões de usuários no país, para se expressar livremente.

Em abril, o chefe da polícia nacional, Kamal Hadianfar, ameaçou prender “celebridades” do Instagram por publicarem vídeos vulgares e obscenos.

No início deste mês de julho, a Justiça alertou o Instagram que a rede também poderia ser bloqueada definitivamente em razão de “conteúdo indesejado” no país.

O contexto de insegurança atual repete outro caso que se tornou famoso em 2014, quando seis jovens foram detidos por publicarem um vídeo em que se exibiam dançando a música “Happy” do americano Pharrell Williams.

A iraniana Reihane Taravati fazia parte desse grupo e, hoje, é uma personalidade conhecida no Instagram, onde tem mais de 190 mil seguidores. Para ela, o governo “parece não ter aprendido nada com o que fez no passado”.

“Dançar e ser feliz está na nossa cultura e no nosso sangue. Essas prisões têm que parar. Tenho esperança por essa próxima geração destemida. As pessoas vão se conectar e aprender umas com as outras mundo afora. Essa é a beleza do poder das redes sociais,”

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