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A massa da humanidade e seu impacto sobre os outros seres vivos

O peso dos seres humanos é maior do que o de todos os mamíferos selvagens somados. Mas não chega perto do peso dos rebanhos de vacas e porcos usados para alimentar a humanidade

 

Quando se fala em produção de energia renovável, o termo “biomassa” é usado para se referir a materiais como o bagaço da cana, a madeira seca ou folhas, que podem ser queimados para produzir energia. Ou mesmo o esgoto humano ou esterco de animais, que podem servir de base para produzir biogás, usado para gerar energia.

Na biologia, no entanto, o termo biomassa tem um sentido mais amplo. Ele é usado para se referir à massa biológica, ou seja, à massa de seres vivos em algum espaço geográfico ou habitat.

A forma de medir a biomassa varia de acordo com o intuito. É possível, por exemplo, estimar a massa de uma floresta inteira. Ou então, estimar qual seria a massa dessa floresta descontando a água presente nos seres vivos.

Uma outra ótica é contabilizar a biomassa considerando a massa de carbono, um importante átomo presente nos compostos químicos que compõem a vida: carboidratos, lipídios, proteínas e ácidos nucleicos.

Essa ótica permite estimar a biomassa a partir dessa única medida essencial, descontando, por exemplo, os átomos de oxigênio e hidrogênio, que formam a água e são abundantes nas moléculas formadoras dos seres vivos.

Essa ótica também permite visualizar o impacto da destruição de um ecossistema sobre o aquecimento global - isso tende a fazer com que os átomos de carbono sejam liberados em gases estufa, como o carbônico ou o metano.

Há centenas de pesquisas que buscam estimar a biomassa global de plantas, de seres humanos, do gado, de fungos, de bactérias e assim por diante.

Intitulado “A distribuição de biomassa na Terra”, um trabalho realizado no decorrer de três anos e publicado em maio de 2018 na revista acadêmica Pnas (Proceedings of the National Academy of Sciences) buscou reunir o que se sabe a partir das melhores pesquisas sobre a distribuição da biomassa no planeta, contando apenas átomos de carbono.

Realizado por pesquisadores ligados ao Instituto Weizmann de Ciências, de Israel, e ao Instituto de Tecnologia da Califórnia, o trabalho chegou a uma estimativa atualizada de como a massa dos seres vivos se distribui na Terra, de acordo com subdivisões clássicas da biologia, e outras usadas para visualizar o impacto humano no planeta.

O trabalho mostra como, apesar de sua população recorde de 7,5 bilhões, a humanidade compõe apenas 0,011% da biomassa, medida em gigatons de carbono, ou gt C.

Por outro lado, o ser humano tem sido nos últimos milênios um importante fator a levar à alteração da composição da biomassa global.

Segundo a pesquisa, a ação coletiva da humanidade no decorrer de gerações foi responsável por reduzir a biomassa de plantas pela metade.

Os seres humanos respondem hoje por uma massa maior do que aquela da soma de todos os mamíferos selvagens, como leões, zebras, onças ou tamanduás. E a massa dos rebanhos alimentados para suprir a humanidade com carne é ainda maior.

Em entrevista à agência internacional de notícias Associated Press, o biólogo Ron Milo, coautor do estudo afirmou:

“Quando eu monto um quebra cabeças com minhas filhas, geralmente tem um elefante ao lado de uma girafa ao lado de um rinoceronte. Mas se eu estivesse tentando dar a elas uma ideia mais realista do mundo, seria uma vaca ao lado de uma vaca ao lado de uma vaca e depois uma galinha”

 

A distribuição da biomassa no planeta

A própria pesquisa indica que o nível de certeza sobre cada “grupo taxonômico”, ou seja, cada divisão usada na biologia, varia de acordo com os dados disponíveis. E que o artigo não é, portanto, uma estimativa definitiva.

Por exemplo: para estimar a biomassa de plantas, o trabalho usa, entre outras fontes, o Global Forest Resources Assessments, uma pesquisa realizada pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) com base em uma seleção de relatórios nacionais.

Sabe-se menos, por outro lado, sobre os procariontes marinhos, um grupo composto por todos os organismos unicelulares que vivem no mar, como algas unicelulares e bactérias, e cuja presença varia de acordo com a profundidade dos oceanos.

Para medir o volume nesse caso, o trabalho calculou a concentração média de células por profundidade e a multiplicou pelo volume estimado para cada faixa de água.

O trabalho estima que a soma de toda a biomassa da Terra chega a 550 gigatons de carbono, ou um trilhão de quilos (1.000.000.000.000 kg) de carbono. Dessa massa, 80%, ou 450 gigatons de carbono, são formados por plantas, em especial plantas terrestres.

Em seguida vêm as bactérias, com 70 gigatons de carbono, ou 15% do total. “Se por um lado grupos como o dos insetos [que fazem parte do reino animal] dominam em termos de riqueza de espécies, com cerca de 1 milhão de espécies descritas, a sua fração relativa na biomassa é minúscula”, diz o trabalho.

A pesquisa traz dois gráficos principais. O primeiro mostra a divisão da biomassa no mundo em relação aos “reinos” usados tradicionalmente na biologia: plantas, bactérias, animais, fungos, bactérias, protistas (como protozoários e algas unicelulares), archaea (organismos unicelulares que, frequentemente, vivem em ambientes extremos).

Este gráfico também inclui os vírus, que não fazem parte de nenhum desses reinos.

Distribuição por reino + vírus

 

O outro gráfico realiza uma subdivisão dos dois gigatons de carbono correspondentes ao reino animal.

Essa subdivisão não diz respeito apenas aos filos pelos quais os animais são divididos - como moluscos, nematoides ou cordados - mas sim também subdivisões que são interessantes para compreender o impacto do ser humano sobre essa composição.

Por isso, ao invés de falar apenas em cordados, no qual se inserem peixes, mamíferos e aves, por exemplo, o trabalho realiza uma divisão que inclui: seres humanos; rebanhos, especialmente o suíno e o bovino; mamíferos selvagens, como o leão ou a zebra; e pássaros selvagens, como o papagaio ou o urubu.

 

O gráfico abaixo mostra como a humanidade responde, atualmente, por uma parcela expressiva da biomassa animal no mundo.

Enquanto todos os mamíferos selvagens somados compõem 0,29% dos cerca de 2 gigatons de biomassa animal, o ser humano responde por 2,51%.

Os rebanhos, mantidos essencialmente com o intuito de serem abatidos, comidos e convertidos em biomassa humana, respondem por 4,19% de toda a biomassa animal, ou 11 vezes mais do que todos os mamíferos e aves selvagens somados.

Distribuição de 2 gigatons de animais

 

O impacto humano na distribuição de biomassa

O trabalho destina um capítulo para ressaltar a maneira como a biomassa terrestre vem sendo impactada pela curta história da humanidade, que se iniciou há cerca de 300 mil anos. A pesquisa diz que:

“No decorrer relativamente curto da história humana, grandes inovações, como a domesticação de animais, adoção de um estilo de vida agrícola e a Revolução Industrial, aumentaram a população humana dramaticamente e tiveram efeitos ecológicos radicais”

Pesquisa ‘A distribuição de biomassa na Terra’, publicada em maio de 2018 na Pnas

A humanidade altera o espaço geográfico mundial, consumindo ou destruindo a biomassa de florestas, animais selvagens peixes etc.

O intuito final dessa transformação geográfica é capturar a biomassa e transferi-la para a própria composição dos corpos humanos, ou então para o conforto humano.

Biomas selvagens são substituídos por biomassa de interesse humano, como grama e gado, soja, galinhas, eucalipto etc. Quando florestas são destruídas, a biomassa de carbono presente em sua estrutura é liberada em gases como o gás carbônico.

Suspensas, essas moléculas formadas pelo que antes foram ecossistemas capturam calor e contribuem para o aquecimento global.

O relatório faz estimativas a respeito de alterações humanas relevantes sobre a distribuição da biomassa terrestre. Mas destaca que ainda faltam informações para se chegar a um retrato mais confiável.

“Os cientistas monitoraram de perto o impacto de humanos sobre a biodiversidade [variedade de esp��cies] global, mas prestaram menos atenção à biomassa total”, diz a pesquisa. Por isso as estimativas “sobre as atuais biomassas e as pré-humanas são apenas um primeiro passo cru para calcular esses valores”.

 

O impacto humano em 8 pontos

Biomassa vegetal

O impacto mais relevante da humanidade, em termos de biomassa, é sobre a massa de plantas. O trabalho afirma que é possível estimar que esta tenha caído pela metade desde o início da civilização humana.

Extinção em massa

O trabalho cita uma pesquisa de 2008 para afirmar que a atividade humana contribuiu para a chamada “extinção da megafauna do quaternário tardio”, que ocorreu em um período compreendido entre 50 mil e 3.000 anos atrás. Nesse período, metade das espécies de mamíferos terrestres maiores do que 40 kg foi extinta.

Biomassa dos mamíferos

Estima-se que antes da extinção da megafauna do quaternário tardio, a biomassa de mamíferos selvagens terrestres era de 0,02 gt C. Atualmente, é de 0,003 gt C.

Mamíferos marinhos

Citando uma pesquisa de 2006, o trabalho afirma que a intensa caça de baleias e de outros mamíferos marinhos resultou em uma queda da biomassa de mamíferos marinhos de 0,02 gt C para 0,004 gt C.

Mamíferos no total

Hoje, a biomassa de humanos, estimada em 0,06 gt C, e de rebanhos, de 0,1 gt gt C, ultrapassa com folga aquela de mamíferos selvagens, de 0,007 gt C.

Quando se fala apenas em seres humanos e mamíferos terrestres domesticados, como o boi, houve um aumento de 0,04 gt para 0,17 gt C - a pesquisa não deixa explícito o período em que isso teria ocorrido.

Aves

A mesma desproporção vale para aves de criação, especialmente galinhas, com 0,0005 gt, frente a de aves selvagens, com 0,0002 gt C.

Todos os vertebrados

'De fato, humanos e rebanhos pesam mais que todos os vertebrados combinados, com exceção de peixes', diz o trabalho.

Peixes

Mesmo assim, a humanidade teve um impacto significativo sobre a biomassa total de peixes, que foi reduzida em 0,1 gt C.

 

ESTAVA ERRADO: a primeira versão deste texto dizia que a biomassa das aves selvagens na Terra estava em 0,002 gt C. Na realidade, ela é 10 vezes menor, 0,0002 gt C. A correção foi feita às 15h12 de 10 de julho de 2018.

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