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Uma história sobre a viola no Brasil. E seu alcance na música popular

Instrumento chegou ao país durante o período colonial, foi levado para o interior pelos bandeirantes e tropeiros e virou símbolo da música caipira. Mas não só dela

 

Durante três meses, o professor da Faculdade de Música da USP Ivan Vilela e os produtores Paula Rocha e Caio Csermak mapearam  os trânsitos da viola pelo estado de São Paulo, não necessariamente circunscritos à música caipira, da qual é a principal porta-voz.

O projeto “Viola Paulista”, lançado pelo Selo Sesc, mostra que o instrumento também se destaca em cenários onde não é um elemento tradicional, como a música erudita contemporânea e o rock.

O primeiro fruto do levantamento, álbum lançado em junho de 2018, reúne 19 artistas expoentes da nova geração da viola de dez cordas e múltiplas  referências.

Entre as canções do disco estão a composição para viola e cravo de Ricardo Matsuda, a melodia de influência nordestina de Jackson Ricarte e também os sons do Trio Tamoyo, conjunto herdeiro da chamada “viola turbinada”, vertente do rock que surgiu nos anos 1990 com guitarristas violeiros. Além, é claro, de representantes da música caipira, como a dupla Fabíola Mirella e Sérgio Penna, autora da faixa que encerra o trabalho. E mais dois álbuns ainda estão por vir.

 

 

Em nenhum lugar do mundo a viola, que tem origem europeia, se desenvolveu tanto como no Brasil, mesmo não havendo, até recentemente, o que o professor Ivan Vilela chama de uma  “metodologia sistematizada” em seu ensino.

A presença ainda tímida da viola na academia e nos conservatórios pode ter sido a chave para a variedade e a liberdade nos modos de tocá-la. “Essa questão de ser um instrumento sobre o qual não tem uma carga de saber erudito construída deixa a pessoa que toca muito à vontade. É diferente de quando você vai tocar violão. Tem que estudar Villa-Lobos, Fernando Sor, Matteo Carcassi, Mauro Giuliani, tem toda uma literatura pela qual é preciso passar para poder ser um violonista de concerto”, explicou o professor e violeiro em entrevista ao Nexo.

O passado ibérico

Símbolo da música caipira, a viola tem origem portuguesa e uma trajetória que se inicia no cenário urbano.

Sua história remonta à Península Ibérica, um dos berços dos instrumentos de cordas no mundo, onde, no século 8, chega o alaúde árabe. É o primeiro instrumento de cordas dedilhadas com braço, portanto, ancestral da viola. A partir dele e da guitarra latina surgiram as vihuelas, na Espanha, e as violas de mão em Portugal, além de outros instrumentos.

Nos séculos 15 e 16, a viola — em seus diferentes tamanhos e formatos, mas com suas cinco ordens de cordas — já era febre nas cidades de Portugal.

O estabelecimento no Brasil

O instrumento chegou ao Brasil sob a tutela lusitana, ainda no início do período colonial, e se espalhou para cidades como Recife, Salvador e Rio de Janeiro, onde foi adquirindo seus diferentes sotaques. Com os bandeirantes e tropeiros foi levada para o interior, sobretudo em estados da região Sudeste, onde a música caipira é ouvida em grande escala até hoje.

Até meados do século 19, a viola foi o principal instrumento usado para acompanhar o canto no Brasil. Mas foi perdendo prestígio no contexto urbano. “Talvez por ser um instrumento do final da Idade Média portuguesa, a viola começou a ser taxada como algo arcaico. Quando chega o violão, como uma novidade, com as seis cordas simples, mais fácil de afinar e, pelo modismo de se chamar guitarra francesa, ele tira a viola da cena”, explicou Vilela.

“A viola vai se ruralizando junto com danças que também saem de moda nos salões da elite, como o caso da polca, que é uma das matrizes do choro, e a mazurca, hoje manifestações praticamente rurais. O mesmo acontece com as festas religiosas ligadas ao catolicismo popular, como as folias e a dança de São Gonçalo.”

O retorno à cidade e os violeiros que abriram caminhos

Entre as décadas de 1910 e 1920, o folclorista, escritor e produtor musical Cornélio Pires viajava o Brasil e lotava teatros com os espetáculos em que contava causos e piadas. Nascido em Tietê, interior de São Paulo, Pires ajudou a disseminar a cultura caipira no país, na contramão do que era difundido em grandes centros urbanos. No final dos anos 1920, os discos produzidos por ele projetaram nacionalmente a música caipira e, com ela, a viola, seu principal ícone.

É a partir do estabelecimento desse cenário do mercado de discos e da disseminação radiofônica da música caipira no Brasil que, nas décadas seguintes, surgem as famosas formações em dupla, viola e violão, como Tonico e Tinoco e Zé Carreiro e Carreirinho. E, mais pra frente, os artistas Zé do Rancho e Tião Carreiro, a máxima expressão da figura tradicional do violeiro.

 

 

Na década de 1970, o violinista de Abaeté Renato Andrade abriu mais um caminho para a viola, rompendo com sua linguagem tradicional. O músico levou o instrumento às salas de concerto, com composições feitas para viola e orquestra. “O disco ‘A Fantástica Viola de Renato Andrade’ é um marco na viola por seu requinte técnico. Ele não toca propriamente música caipira, vem com outra sonoridade, com referências de uma cultura do norte de Minas, muito ligada a Guimarães Rosa [...] É o Villa-Lobos da viola”, explicou Vilela.

 

As composições do campo-grandense Almir Sater, na década de 1980, combinando viola e bateria eletrônica, modernizaram o uso do instrumento. Segundo o professor, “Almir é quem põe a viola em ambiências harmônicas mais sofisticadas, inova no tipo de acorde, propõe uma nova ambiência sonora, muda o lugar onde a viola está”. Em 1991, é lançado “Caboclo D’água”, de Tavinho Moura, álbum emblemático na história da viola brasileira.

 

“Tem uma geração que a partir dos anos 1980 e 1990 começa a trazer a viola pra outros espaços. Não é propriamente o espaço rural ou da música caipira, mas um espaço musical total, na música clássica, instrumental, no rock”, disse Vilela.

Quando um instrumento tem seu uso desenvolvido dentro de uma cultura específica, como é o acordeão nas culturas nordestina e gaúcha, por exemplo, é chamado “idiomático”. “E [com a geração de Sater e Moura] a viola vira um instrumento não idiomático”, explicou.

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