Ir direto ao conteúdo

A queda da produção industrial no mês da crise do caminhão em 3 pontos

Resultado negativo em quase todos os ramos é atribuído aos reflexos da paralisação do fim de maio, segundo o IBGE

     

    O setor que mais refletiu o impacto da crise econômica recente voltou a registrar resultado negativo, interrompendo um cenário que sugeria sua recuperação.

    Em 2018, a produção das indústrias brasileiras recuou 10,9% em maio, na comparação com o mês de abril. Foi a queda mais acentuada desde dezembro de 2008, quando o recuo foi de 11,2% em relação ao mês anterior.

    O índice consta na Pesquisa Industrial Mensal, divulgada na quarta-feira (4) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em abril, a produção industrial havia subido 0,8% em relação a março, o terceiro resultado positivo consecutivo.

    A indústria mês a mês (em relação ao mês anterior)

     

    De acordo com o IBGE, o resultado empurra a produção nacional a um nível próximo ao verificado em dezembro de 2003. Na comparação com maio de 2017, o recuo foi de 6,6%.

    No acumulado de 2018, houve uma expansão de 2% do setor até maio, uma alta bem abaixo do que se via até abril, de 4,5%.

    Abaixo, o Nexo destaca três pontos que ajudam a compreender os resultados de maio de 2018 e o que eles sinalizam para o futuro próximo.

    A paralisação dos caminhoneiros

    O ano de 2008, pior marca da produção da indústria brasileira na série histórica, foi marcado pela crise econômica mundial. O estouro da bolha do mercado imobiliário dos EUA reverberou na economia de diversos países, inclusive o Brasil.

    Já a explicação para o recuo acentuado da indústria em maio de 2018 é essencialmente nacional, reflexo da paralisação dos caminhoneiros nos dias finais de maio, segundo o IBGE.

    Os protestos dos motoristas, apoiados pelos empresários do setor, duraram 11 dias, tempo suficiente para comprometer o abastecimento e paralisar a produção de indústrias – outros indicadores econômicos já haviam apontado alterações também atribuídas à paralisação.

    “A greve desarticulou o processo de produção em si, seja pelo abastecimento de matéria-prima, seja pela questão da logística na distribuição. A entrada do mês de maio caracterizou uma redução importante no ritmo de produção”

    André Macedo

    gerente da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE

    Os setores mais atingidos

    A pesquisa do IBGE mede a produção da indústria nacional em grandes categorias dos tipos de bens produzidos:

    • duráveis: mercadorias não perecíveis e com vida útil longa, como automóveis, motocicletas, eletrônicos e móveis
    • semiduráveis: aqueles com vida útil mediana, como calçados, roupas e telefones
    • não duráveis: para consumo imediato e de primeira necessidade, como alimentos, bebidas e remédios
    • de capital: equipamentos e instalações para metalúrgicas, siderúrgicas e petroquímicas
    • intermediários: voltada à produção de peças que serão usadas para automóveis, computadores e eletrodomésticos

    O recuo da produção industrial foi percebido em todas as grandes categorias, atingindo 24 dos 26 ramos pesquisados. Os piores resultados vieram dos veículos automotores, reboques e carrocerias (-29,8%), dos produtos alimentícios (-17,1%) e das bebidas (-18,1%). Segundo o IBGE, não havia tantas baixas assim desde fevereiro de 2002.

    Comparação entre maio e abril

     

    As duas exceções vieram dos ramos de coque (produtos derivados do petróleo e biocombustíveis), cuja produção teve alta de 6,3% em relação a abril; e das indústrias extrativas (matéria-prima da natureza), com alta de 2,3%.

    Esses setores têm uma menor dependência do transporte rodoviário de cargas. Isso explica o desempenho positivo.

    O resultado era esperado

    Os números registrados pela indústria já eram esperados pelos analistas, que haviam projetado resultados até piores para maio. A avaliação é que os efeitos da paralisação dos caminhoneiros sejam temporários para a economia, mas o IBGE não descarta que os resultados de junho ainda sejam impactados.

    A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) afirmou que este junho tende a registrar um volume menor de vendas na comparação com maio, resultado da greve e também das incertezas em razão das eleições presidenciais.

    Entre 70 mil e 80 mil veículos deixaram de ser produzidos por falta de peças durante os protestos dos motoristas, de acordo com as estimativas da associação.

    Ainda que esperado, o índice negativo da produção industrial em maio deve fazer o setor rever as projeções de desempenho para todo o ano de 2018, além de reforçar a baixa já projetada para as estimativas de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), que mede a atividade econômica do país.

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: