O incêndio que há 40 anos destruiu quase todas as obras do MAM Rio

Com causas até hoje não definidas, fogo consumiu obras de artistas como Picasso, Matisse, Salvador Dalí, Portinari e Di Cavalcanti

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    “Um incêndio destruiu ontem de madrugada, no Rio, mais de 90 por cento do acervo do Museu de Arte Moderna”, noticiou o jornal O Globo em 1978, referindo-se ao dia 8 de julho. Naquele dia, o histórico prédio do MAM Rio foi tomado pelo fogo que consumiu aproximadamente 1.000 obras de artistas de renome, como Pablo Picasso, Salvador Dalí e Henri Matisse.

    As causas do incêndio não foram esclarecidas, mas as investigações apontaram como origem mais provável uma faísca causada por curto-circuito em meio a instalações elétricas em mau estado.O fogo começou às 3h40 e foi controlado já de manhã, após duas horas de trabalho dos bombeiros.

    Depois do acidente, que não teve vítimas, o museu constatou a preservação de apenas 50 obras – entre elas esculturas que tiveram que passar por uma restauração, como “Mademoiselle Pogany”, do romeno Constantin Brancusi –, bem como o acervo da cinemateca, mantido entre paredes de alvenaria.

    A estrutura do prédio – um ícone da arquitetura moderna, construída sobre o desenho do brasileiro Affonso Eduardo Reidy em 1952 – também resistiu.

    Dentre todo o restante do acervo, perderam-se duas telas do espanhol Pablo Picasso, duas do catalão Joan Miró e originais de Henri Matisse, René Magritte, Salvador Dalí e dos brasileiros Candido Portinari e Di Cavalcanti.

    Pouco também restou da biblioteca mantida pela instituição, na época com mais de 9 mil volumes sobre artes plásticas e arquitetura.

    Na época, o valor estimado da perda foi de US$ 15 milhões, sendo US$ 1 milhão a cifra de 80 obras do artista construtivista e uruguaio Joaquín Torres García. O museu carioca havia reunido as obras para uma retrospectiva sobre seu trabalho. Antes de virar cinzas, os quadros representavam algo como 90% de toda a produção artística de García.

    Renascimento, cinzas e crise

    Em reação às cenas do museu devastado, o IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) se manifestou dizendo que o incêndio representava “apenas uma das manifestações concretas do processo de negação e abandono da cultura brasileira”.

    “O incêndio ocorre numa fase crítica da instituição que, sem recursos, lutava pela sua sobrevivência na defesa do patrimônio cultural desta cidade”, disse o IAB, que ainda afirmou esperar que o desastre despertasse “uma mudança de atitude em relação à defesa do nosso patrimônio cultural, artístico e histórico”.

    Sem acervo próprio, o museu seguiu instável por mais duas décadas, passou por obras de restauração até ser reaberto de vez no início da década de 1990 a partir da doação em regime de comodato de 7 mil obras brasileiras da coleção de Gilberto Chateaubriand – filho de Assis Chateaubriand, o Chatô, e pai de Carlos Alberto, atual presidente da instituição. A coleção compõe o acervo do MAM Rio até hoje.

    Depois de 40 anos, o museu passa novamente por uma “fase crítica”. Em março de 2018, em decisão polêmica, o MAM Rio anunciou a intenção de vender uma obra do seu acervo para criação de um fundo patrimonial, que ajudaria o museu a equilibrar as contas e obter uma forma de receita fixa.

    A obra em questão é a tela “Number 16” do pintor americano Jackson Pollock (1912-1956), uma das poucas sobreviventes do incêndio de 1978.

    Carlos Alberto Chateaubriand justificou a medida dizendo que, se nada fosse feito, “daqui a uns meses” o museu poderia entrar em crise. O MAM Rio ainda precisa de autorização do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para fazer a venda da peça.

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