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Este museu vendeu obras de brancos e comprou de negros e mulheres

Leilão de trabalhos na Sotheby’s de Nova York rendeu US$ 8 milhões. Entre as aquisições estão trabalhos de Amy Sherald, Isaac Julien e Jack Whitten

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    Fundado em 1914 na cidade de Baltimore, no estado americano de Maryland, o Baltimore Museum of Art possui mais de 95 mil obras de arte que compreendem desde peças da Antiguidade Clássica a trabalhos modernos do século 20 de Henri Matisse.

    Nos dias 16 e 17 de maio de 2018, o museu vendeu, no entanto, cinco obras de artistas renomados, em um aguardado leilão na casa Sotheby’s em Nova York que lhe rendeu US$ 8 milhões. O museu se desfez de um quadro de Andy Warhol, um de Franz Kline, um de Jules Olitski, e dois de Kenneth Noland.

    Com a venda, a instituição buscou diminuir seu número de obras de homens brancos e fazer caixa para adquirir obras criadas a partir de 1943 por artistas negros e mulheres.

    O objetivo declarado é diversificar a coleção, que, como ocorre em muitas instituições de arte no mundo, possui um número desproporcional de obras de artistas homens e brancos, apesar de mais de 63% da população de Baltimore ser negra.

    A casa de leilão ainda tem em mãos duas obras pertencentes ao Baltimore Museum of Art: “Hearts”, de Andy Warhol, e “Bank Job”, de Robert Rauschenberg. Pelo acordo com a instituição, ela continua responsável por vender ambas dentro de um ano, segundo informações do jornal The Baltimore Sun.

    No dia 26 de junho, o museu anunciou quais são as primeiras sete obras que comprou neste esforço pela diversificação. Em entrevista concedida ao site de leilões e notícias sobre arte Artnet, o diretor do museu, Christopher Bedford, comentou a visibilidade que a política tem gerado.

    “Se nós estivéssemos simplesmente vendendo uma pintura de [pintor expressionista americano] Franz Kline [1910-1962] para comprar uma melhor, não seria tão interessante. Mas se você vende uma pintura de Franz Kline e deixa claro que há lacunas na sua coleção criadas por preconceito consciente e inconsciente, então você alcança a cultura mainstream”, disse.

    Veja abaixo algumas das obras compradas pelo museu e seus autores:

    “9.11.01” (2006), de Jack Whitten

     

    Jack Whitten (1939-2018) foi um pintor negro nascido no estado do Alabama. Ele começou a estudar arte em 1960 no estado da Louisiana, onde se envolveu com o movimento pelos direitos civis, que reivindicavam igualdade de direitos para a população negra nos Estados Unidos.

    Ele viu as Torres Gêmeas ruírem a partir da janela de seu ateliê após o ataque terrorista de setembro de 2001. Nos anos seguintes, criou o painel monumental “9.11.01” com cinzas que recolheu da área do desabamento.

    Em entrevista ao Artnet, o diretor Bedford descreveu a obra como “a aquisição mais significativa que eu jamais farei para um museu”.

    “Planes, rockets and the spaces in between” (2018), de Amy Sherald

    Foto: Reprodução
    “Planes, rockets and the spaces in between” (2018), de Amy Sherald
    “Planes, rockets and the spaces in between” (2018), de Amy Sherald
     

    A artista plástica Amy Sherald vive na própria cidade de Baltimore, e é conhecida como retratista. Suas obras abordam justiça social e desigualdade racial. Ela retrata apenas personalidades negras, como ela, é conhecida pelo seu retrato da ex-primeira dama Michelle Obama.

    A obra vendida ao museu de Baltimore é uma tela a óleo que retrata duas jovens negras de mãos dadas em um terreno aberto, encarando o que parece ser um foguete decolando. Em entrevista publicada em fevereiro de 2018 no site da revista Art Forum, Sherald afirmou: “Meus quadros são um espelho do presente e refletem experiências reais da negritude hoje e historicamente, no dia a dia e no cânone histórico”.

    “Baltimore” (2003), de Isaac Julien

     

    Nascido em 1960 em Londres, Julien é cinegrafista e artista visual. Suas obras se referem frequentemente a identidades negras e LGBT. Ele se formou em 1985 na Escola de Arte de Saint Martin, onde estudou pintura e produção de vídeo.

    Ele é conhecido por ter ajudado a fundar em 1980 o Sankofa Film and Video Collective, um coletivo audiovisual dedicado a promover a cultura negra. Uma de suas obras mais famosas é o documentário dramático “Looking for Langston”, que aborda a vida de Langston Hughes e seu papel na Renascença de Harlem, um movimento artístico formado por moradores do bairro do Harlem, em Nova York, durante a década de 1920.

    A instalação de vídeo “Baltimore” segue uma mulher e um homem negros enquanto eles andam pelas ruas e museus da cidade.

     

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