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Eike Batista condenado: os negócios bilionários, a política e o Youtube

Empresário celebrado por presidentes e já apontado como um dos homens mais ricos do mundo foi sentenciado a 30 anos de detenção por corrupção e lavagem de dinheiro

     

     

    Marcelo Bretas condenou Eike Batista a 30 anos de prisão, na terça-feira (3), pelos crimes de corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Segundo a decisão do juiz federal da Lava Jato no Rio, o empresário pagou propina ao ex-governador Sérgio Cabral.

    É a primeira condenação de Eike, que passou a ser alvo de investigações em 2016, após ser citado inicialmente em delações premiadas da operação que vem mexendo no mundo político e empresarial brasileiro.

    O caso específico da condenação envolve o pagamento de propinas em 2011 ao então governador do Rio, em troca de benefícios a suas empresas no poder público estadual. O pagamento ocorreu no exterior, via doleiros. Cabral também foi condenado no processo.

    US$ 16,6 milhões

    é o valor da propina paga por Eike a Cabral segundo a Justiça. O montante equivale hoje a R$ 52 milhões

     

    A condenação é resultado das investigações que tiveram como fio condutor sua relação com Cabral, que está preso desde novembro de 2016.

    Alvo de seis condenações, com penas que superam 100 anos de detenção, o ex-governador, que comandou o estado de 2007 a 2014, é apontado como chefe de uma organização criminosa.

    Essa organização, afirmam Ministério Público e agora o juiz Marcelo Bretas, beneficiava empresários, entre eles Eike, nos contratos e obras estaduais em troca de propinas.

    “[Eike é um] homem de negócios conhecido mundialmente e, exatamente por isso, suas práticas empresariais criminosas foram potencialmente capazes de contaminar o ambiente de negócios e a reputação do empresariado brasileiro, causando cicatrizes profundas na confiança de investidores e empreendedores que, num passado recente, viam o Brasil como boa opção de investimento”

    Marcelo Bretas

    juiz federal em sua decisão que condenou Eike Batista a 30 anos de detenção

    Os advogados de Eike já anunciaram que vão recorrer da decisão de Bretas. Atualmente, o empresário cumpre recolhimento domiciliar à noite e também não pode sair nos fins de semana e feriados.

    Trata-se de uma medida cautelar, ou seja, não é o cumprimeiro da pena em si, algo que poderá ocorrer apenas após uma eventual confirmação da condenação em segunda instância judicial.

    A época de ouro

    A trajetória de Eike começou no ramo do minério, com a exploração de ouro na Amazônia, na década de 1980. Aos poucos, ampliou os negócios para as áreas de exploração de petróleo, energia e construção naval. Todas as atividades ficavam sob domínio do grupo EBX. A letra “X” como parte do nomes das empresas tornou-se uma de suas marcas.

    Em junho de 2008, o empresário abriu o capital da petrolífera OGX na Bovespa. Com IPO (oferta inicial de ações) captou R$ 6,7 bilhões em valores da época, na maior abertura de capital da história do Brasil até então.

    US$ 30 bilhões

    era o cálculo da fortuna de Eike Batista em 2012

    O nome do empresário Eike passou a ser associado a poder, fama e muito dinheiro. No ano de 2012, a revista Forbes apontava o empresário o como a sétima pessoa mais rica do mundo, um prodígio nos negócios nas áreas de mineração, energia e turismo.

     

     

    A relação com os políticos

    A atividade de exploração de petróleo o aproximou dos governos Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016), gestões em que a Petrobras e a exploração da camada do pré-sal tiveram papel de destaque na política econômica.

    Um dos resultados dessa proximidade foi o projeto do Porto do Açu, de 2008, que previa a construção de um mineroduto de Minas até São João da Barra (RJ) e instalações para transporte de barris de petróleo.

    Nesse período, conseguiu empréstimos de R$ 10,4 bilhões do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social). Avaliado em US$ 3,7 bilhões, o porto teve novos terminais lançados em junho de 2016.

     

    O trabalho de Eike era elogiado pelos ex-presidentes petistas e com Dilma o empresário costumava ter contato direto, segundo relatos do jornalista Sergio Leo, autor do livro “Ascensão e queda do império X” (Nova Fronteira, 2014).

    Mas Eike também tinha bom trânsito com políticos de diversos partidos. Entre 2006 e 2012, fez doações eleitorais a 13 legendas. No mesmo livro, o autor relata a proximidade do empresário com o senador Aécio Neves (PSDB), a quem Eike classificava como um “dos grandes quadros” políticos do país.

    No Rio, onde fica a sede do grupo EBX, o empresário também tornou-se próximo de Sérgio Cabral. No governo do peemedebista, entre 2007 e 2014, Eike ajudou a financiar a campanha para o Brasil sediar os Jogos Olímpicos e por diversas vezes disponibilizou aviões para transportar o então governador.

    A derrocada do empresário

    A derrocada de Eike teve início ainda em 2012, quando a promessa de desempenho de suas empresas começaram a não se confirmar. A produção de petróleo da OGX veio muito abaixo da expectativa dos investidores e as ações da empresa começaram a cair.

    Toda uma cadeia de investimentos baseada na exploração do petróleo foi frustrada. Os prejuízos desequilibraram Eike financeiramente e ele foi obrigado a se desfazer da maior parte de seu patrimônio. No auge dos negócios, o grupo EBX teve 400 funcionários. O quadro atual está em duas dezenas.

    Eike passou a ter seu nome associado a credores e investigações policiais. Teve bens bloqueados e chegou a constar na lista de procurados da Interpol, sistema de cooperação entre polícias de 190 países.

    Foi preso provisoriamente em janeiro de 2017, mas acabou liberado em abril do mesmo ano a partir de decisão do Supremo Tribunal Federal.

     

    A condenação do empresário de 61 anos deixa sua biografia cada vez mais distante dos planos que ele fazia para si em 2008: “Meu objetivo é passar o Bill Gates [entre as pessoas mais ricas] em cinco anos. O Brasil tem de ser o número um”.

    Hoje Eike atua como “youtuber”, dando dicas sobre atuação empresarial. Segundo ele declarou em fevereiro de 2018, quando começou a empreitada na plataforma de vídeos, sua ideia era “falar da minha visão do que vai acontecer no Brasil como um todo, no Rio de Janeiro e minha leitura do fenomenal crescimento do petróleo pré-sal, que vai ser um grande motor do desenvolvimento do Brasil”.

    Além da condenação por crimes de corrupção ativa e lavagem de dinheiro, Eike ainda é alvo de processos relacionados à área financeira e uso de informações privilegiadas. A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) já aplicou multas milionárias ao empresário.

    Eike já tentou fechar uma delação premiada, a partir da qual colaboraria com o Ministério Público em troca de benefícios penais. Mas a Procuradoria-Geral da República abandonou as negociações por avaliar que as informações do empresário eram insuficientes.

     

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