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Como a história de Hannah Gadsby fez o melhor show de humor do ano

Stand-up ‘Nanette’, apresentado na Austrália e em Nova York, entrou na Netflix em junho e tem sido intensamente comentado

     

    A apresentação “Nanette” estreou internacionalmente na Netflix no dia 19 de junho de 2018.

    De autoria da comediante australiana Hannah Gadsby, o show foi gravado especialmente para a plataforma e é um misto de stand-up e exposição séria, de teor autobiográfico, sobre identidade, gênero, sexualidade, homofobia e violência.

    Ao longo do texto, pontuado por ótimas piadas, Gadsby dá conta de problematizar o humor como ferramenta para narrar a própria história, e chega a declarar que precisa abandonar a profissão para passar a contá-la como se deve.

    Gravado na Ópera de Sydney, com uma hora de duração, o especial obteve recepção positiva da crítica e tem feito barulho nas redes sociais. A comediante também apresentou “Nanette” ao vivo em Nova York.

    A comediante

    Hannah Gadsby nasceu em Smithton, cidade pequena da Tasmânia, ilha australiana onde, segundo ela destaca em sua apresentação, a homossexualidade foi crime até 1997 e a maior parte da população era hostil aos homossexuais.

    Formada em História da Arte, Gadsby iniciou sua carreira de comediante há mais de uma década. A comediante é lésbica e tematiza, entre outros temas, sua orientação sexual em seus trabalhos, assim como o difícil percurso de descobri-la e assumi-la em um contexto conservador.

    Antes desse trabalho, Gadsby era uma das atrizes coadjuvantes da série “Please Like Me”, exibida pela TV australiana de 2013 a 2016 e incorporada ao catálogo da Netflix em 2017.

    Apesar de ser muito conhecida na Austrália, com aparições na TV do país e da Nova Zelândia, “Nanette” é sua primeira incursão no mainstream americano e seu primeiro show a ter alcance internacional.  A preparação do material levou quase dois anos.

    O que há em ‘Nanette’

    O especial da comediante australiana se inicia com o tom de um stand-up tradicional, trazendo a mesma veia autobiográfica e autodepreciativa de trabalhos anteriores de Gadsby.

    Ela revela, para a plateia, sua fórmula humorística: criar tensão para desmanchá-la com uma piada. Mas, conforme avança, o stand-up se transforma e há momentos de profunda seriedade – tensão sem alívio, contrariando propositalmente a fórmula. “Essa tensão é de vocês. Não vou mais ajudá-los”, diz Gadsby.

    “Nanette” vai incluindo mais e mais relatos pessoais desestabilizantes das experiências de Gadsby com homofobia e abuso sexual. Saindo do individual para o coletivo, também comenta mais amplamente sobre a violência contra as mulheres e a impunidade masculina.

    “No palco, Gadsby normalmente fala em um tom tímido, quase surpreso”, diz uma reportagem da revista The New Yorker. “Em ‘Nanette’, ela parece mudar gradualmente essa persona, tornando-se cada vez mais assertiva e, em alguns momentos, extremamente séria.”

    “Como muitas mulheres, [Gadsby] cansou de esconder sua raiva e, em ‘Nanette’, força os limites do stand-up para acomodá-la”, diz o texto.

    Em dois pontos

    O stand-up da era #MeToo

    Na definição da revista nova-iorquina, Gadsby é a comediante que está “forçando o stand-up a confrontar a era do #MeToo”, onda de denúncias que trouxe o assédio sexual, sofrido pelas mulheres e cometidos por homens poderosos, ao centro do debate em 2017.

    Seu texto explora a fúria dessa onda: “Sabem qual deveria ser o alvo das nossas piadas nesse momento?”, ela pergunta.

    “Nossa obsessão por reputação. Achamos que reputação é mais importante do que qualquer outra coisa, incluindo a humanidade. E sabem quem é responsável por essa adulação míope da reputação? As celebridades, e os comediantes não estão imunes. São todos farinha do mesmo saco. Donald Trump, Pablo Picasso, Harvey Weinstein, Bill Cosby, Woody Allen, Roman Polanski. Esses homens não são exceção, são a regra.”

    Ela se abre, ainda, sobre ter sido abusada sexualmente quando criança, espancada por um homem aos 17 e estuprada por outros dois aos 20.

    ‘Comédia anticomédia’

    O stand-up reflete sobre a própria comédia: o que ela deixa de fora e de que maneira força pessoas que estão à margem a tomarem parte na própria humilhação.

    Ela desmonta o artifício da comédia, problemática por conter apenas duas partes (preparação e conclusão, ou começo e meio), enquanto uma história completa tem três: começo, meio e fim. Ela encara a tendência do humor a truncar a narrativa, simplificando-a, como prejudicial para sua maneira de lidar com a própria história.

    “Eu tenho questionado essa coisa de comédia. Não me sinto mais confortável fazendo isso. Construí uma carreira [ancorada] no humor autodepreciativo. E não quero mais fazer”, diz Gadsby em “Nanette”.

    “Porque, vocês entendem o que autodepreciação significa quando vem de alguém que já está à margem? Não é humildade. É humilhação. Eu me rebaixo para falar – para obter permissão para falar. E eu simplesmente não vou mais fazer isso, nem a mim nem a ninguém que se identifique comigo”, conclui a comediante.

    A comediante pode não estar falando totalmente sério quando declara que irá abandonar a carreira. Mas a afirmação também não é um mero dispositivo de sua apresentação, na análise da revista Slate.

    Ela expõe, de fato, um problema na maneira pela qual vem administrando seu próprio trauma, fazendo piadas sobre quando teve que contar para a mãe que era lésbica e como é confundida com um homem em público, por conta de sua aparência “masculina”.

    “Um dos muitos propósitos esclarecedores de ‘Nanette’ é estabelecer a diferença entre histórias e piadas e defender que cada um de nós precisa valorizar as primeiras muito mais do que as últimas para atravessar a bagunça em que o mundo se encontra”, diz um artigo publicado na revista Salon.

    Por processar as violências que sofreu, já há mais de uma década, por meio do humor, Gadsby afirma com propriedade: “Rir não é o melhor remédio. O que cura são as histórias. O riso é só o mel que adoça o remédio amargo.”

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