Foto: Pilar Olivares/Reuters

Neymar recebe atendimento após sofrer pisão no tornozelo em partida contra o México
Neymar recebe atendimento após sofrer pisão no tornozelo em partida contra o México

Além de carimbar a classificação do Brasil para as quartas-de-final, a vitória sobre o México, na segunda-feira (2), marcou a primeira partida da Copa da Rússia em que Neymar foi, de fato, decisivo. Autor do gol que abriu o placar, o camisa 10 também armou o contra-ataque que terminou em gol nos pés de Firmino, fechando o jogo em 2 a 0 a poucos minutos do fim.

Semelhantemente ao que aconteceu após a vitória contra a Costa Rica, pela segunda rodada da fase de grupos, a postura de Neymar durante o confronto com os mexicanos foi alvo de críticas por parte da imprensa internacional.

O lance mais comentado foi o comportamento do brasileiro quando, caído fora do gramado, sofreu um pisão de Miguel Layún, que joga na lateral do México. Para comentaristas e jornais estrangeiros, houve exagero na reação.

“Era o tipo de toque com força semelhante ao peso que um pepino teria em cima da canela de alguém. Mau hálito causaria danos maiores. Ainda assim, ali estava Neymar, que levou um segundo para perceber sua oportunidade, dar seu famoso grito e, então, iniciar uma sucessão de contorcionismo digna de Hollywood”, destacou um artigo do jornal americano USA Today, pouco depois da partida.

“Neymar tem a menor tolerância à dor entre os jogadores da Copa desde o início dos levantamentos estatísticos da Opta”, disse o ex-atacante inglês Gary Lineker, em seu Twitter. Alan Shearer, outro ex-jogador da seleção inglesa, também usou sua conta na rede social para comentar. “Neymar, cara, pare com isso. Nós já estamos fartos”, disse.

“Não é algo que a gente queira ver no futebol. Temos o VAR [árbitro de vídeo], temos de ser poupados dessas simulações”, comentou o ex-goleiro dinamarquês Peter Schmeichel, ao canal de televisão RT, da Rússia.

“É muito irritante de assistir. A maneira com que ele tenta forçar cartões nos adversários... Parecia que estava morrendo. Fingiu estar morrendo. Pensei que ele seria colocado em uma maca, e então em uma ambulância, e nunca mais o veríamos de novo.”

Como mostrou a agência de notícias Deutsche Welle, veículos da imprensa alemã destacaram o “show duplo” de Neymar, classificando o lance em questão como “encenação” não justificada. O Corriere dello Sport, da Itália, comparou Neymar a Mario Merola, ator italiano - em referência à suposta “performance” do camisa dez.

“Neymar pode ser o melhor do mundo, mas tem que crescer primeiro”, foi o título utilizado por Ed Aarons, colunista do jornal britânico The Guardian, em texto que destaca o histórico de Neymar quando ainda jogava o Campeonato Brasileiro pelo time do Santos. Juan Carlos Osorio, técnico do México, disse em entrevista coletiva que o jogo contra o Brasil ficou marcado por “simulações e problemas com a arbitragem”, em alusão ao ocorrido.

“Ele está mais preocupado em permanecer no chão”, disparou Layún, jogador mexicano envolvido no lance polêmico, em fala depois da partida. “Se ele deseja se deitar, deveria ir para casa e dormir. Conhecemos Neymar e ele quer ser protagonista dentro e fora dos gramados. É óbvio. Qualquer pessoa que assistiu à partida sabe exatamente o que estou falando. Ele é dessa forma. A personalidade dele é assim”, disse.

“Eles falaram demais e foram embora para casa”, limitou-se a dizer Neymar à Rede Globo, enquanto ainda estava à beira do gramado.

O histórico de Neymar

Como destaca o título deste texto, publicado no jornal O Globo, a última exibição de Neymar na Copa “encantou o Brasil e irritou o mundo”. Os adversários, de forma geral, tendem a encarar a postura como falta de fair-play e prejudicial ao seu status de craque - indiscutível por sua habilidade, mas ameaçado pelo aspecto disciplinar.

Por outro lado, apesar de apontar que o camisa 10 brasileiro simula e provoca além do aceitável, a imprensa nacional, que acompanha há mais tempo seu futebol, acaba sendo mais sensível que o resto do mundo em relação à perseguição sofrida por Neymar.

“Os ingleses, sobretudo, ainda se consideram guardiões do jogo. Agem como juízes últimos da moralidade esportiva em campo. Na geografia moral deles, sul-americanos habilidosos são sempre encantadores e enganadores”, opinou o jornalista brasileiro David Butter ao Nexo.

“O caso do Neymar é que ele encapsula muitas das características desse subtipo. Ele busca o contato muitas vezes, puxa a falta e valoriza o lance quando apanha - e ele acaba apanhando do mesmo jeito. Mas não é só a simulação que incomoda. É o drible que ele dá para colocar o adversário em seu lugar”, completa. “Agora, misturada à rejeição ao Neymar vem uma aversão antiga, enraizada, a uma suposta corrupção do espírito do futebol pelos sul-americanos, sobretudo”.

Assim como o excessivo número de faltas sobre o jogador, seu estilo de jogo, marcado por provocações aos adversários, simulações e reclamações, faz barulho desde o início de sua trajetória no futebol.

Logo quando surgiu no esporte, revelado pelo Santos ainda aos 17 anos, o atual atleta do Paris Saint-Germain incorporou os dribles e as quedas para evitar entradas duras dos marcadores, normalmente, de físico mais favorecido. O hábito lhe rendeu a fama de “cai-cai”, e passou a chamar a atenção da arbitragem e de adversários.

“Ele tem 1,75 metro, é tão pesado quanto o vento e passa cada uma de suas partidas sendo espancado pelos zagueiros adversários. O que você faz? [...] Você engana seus inimigos. Você usa disfarces. Você usa de sua astúcia.”

Brian Phillips, em artigo para a revista americana The New Yorker

À época, o pai de Neymar costumava comparar o atleta a um graveto. Frágil, o jovem jogador não poderia permanecer no chão após sofrer com entradas violentas. A alternativa, assim, era flutuar e evitar ao máximo o contato.

“Se você pegar um graveto, jogar para cima e acertar o graveto no meio com uma barra de ferro, você não vai quebrar o graveto e sim jogá-lo longe. Mas se o graveto tiver apoiado (no chão), você consegue quebrá-lo com um peteleco. Talvez isso tenha ajudado ele muito a se manter inteiro dentro de campo”, teorizou em 2014, em entrevista ao Globo Esporte.

As provocações passaram a ser incorporadas como uma maneira de irritar os marcadores, provocar sua expulsão ou, pelo menos, para que aliviassem seu ímpeto natural de parar o jovem a todo custo.

“Ele faz algo de que uruguaios não gostam, te olha e põe um sorriso provocador na cara. Ele se sentirá mais cômodo no Pacaembu e isso está claro para nós. Com a torcida, ele fará novas simulações de faltas e não será vaiado, como fizeram aqui. Pelo contrário, vão apoiá-lo. E isso pode influenciar na arbitragem”, disse Alejandro Gonzalez, jogador do Peñarol, time uruguaio que foi adversário do Santos de Neymar na Copa Libertadores da América de 2011.

Sua mudança para o Barcelona, em 2013, fez com que a fama de “cai-cai” fosse substituída pela de “piscinero”, equivalente em espanhol para o termo. Mesmo após adquirir constituição física mais desenvolvida e maior resistência a lesões, o rótulo acompanhou as atuações de Neymar até mesmo no Paris Saint-Germain, equipe que defende desde 2017 e pela qual disputou apenas 29 partidas.

Como sua imagem influencia as críticas

Neymar se tornou o jogador mais caro da história em uma transferência de agosto de 2017. A troca do Barcelona pelo PSG, que envolveu € 222 milhões e foi justificada pela busca por maior protagonismo, trouxe certa impopularidade. Sondagens e especulações sobre supostos novos rumos de Neymar alimentam, também, argumentos de que o atleta está apenas interessado em aumentar seu próprio patrimônio.

A briga com Cavani, maior artilheiro e ídolo do PSG, pela cobrança de pênaltis e faltas em sua chegada ao clube, também contribuiu para que o brasileiro voltasse a adquirir a imagem de “mimado”. Por conta do ocorrido, Neymar chegou a ser vaiado durante uma partida pelo clube, e chateado com as críticas da torcida, se recusou a comemorar gols.

Seu estilo, marcado pela espontaneidade e acompanhado por milhões de seguidores em seus perfis nas redes sociais, foi por tempos alvo de críticas por parte de fãs. Devido à postura dos seguidores, que usavam a internet para cobrá-lo, Neymar adotou uma política restritiva em seu Instagram. Só quem é seguido pelo jogador pode, desde junho de 2018, postar comentários em suas fotos.

Como isso espelha o jeito de jogar brasileiro

Antes de Neymar, uma série de outros jogadores que vestiram a camisa da seleção também se destacaram por protagonizar momentos de provocação a adversários, ou até mesmo condutas que vão contra o “jogo limpo” defendido pela Fifa em seu principal torneio.

Em Copas do Mundo, a encenação de Rivaldo em 2002, na primeira partida contra a Turquia, ficou marcada na memória dos brasileiros. Após receber uma bolada nas pernas, o então camisa 10 brasileiro caiu no gramado com as mãos no rosto, simulando uma agressão. Em 1998, a fúria do atacante Edmundo, que repreendeu Rivaldo na final do torneio por jogar a bola para a lateral e permitir a paralisação do jogo para atendimento de um adversário, foi resumida pelo jogador na frase: “fair play é legal quando se está ganhando por 3 a 0”, disse, em entrevista à ESPN.

Romário, atacante na conquista do tetra, em 1994, e um dos nomes mais importantes da história da seleção, tem sua carreira por clubes marcada por comemorações que provocavam os adversários, declarações polêmicas e, muitas vezes, egocêntricas.

“Esse jeito de jogar é brasileiro? É. Mas Neymar é um novo tipo de jogador. Ele é um cara moldado num ambiente super competitivo, criado no futebol de salão, como o comentarista Tim Vickery pontuou em um artigo”, conclui David Butter.

 

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