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O comercial de lâmina de depilar que decidiu mostrar pelos femininos

Marca americana que também vende cosméticos lançou vídeo em que mulheres exibem pelos nas axilas, barriga, pernas e dedos dos pés

     

    Assim como o sangue, ausente das propagandas de absorvente, os pelos femininos são o elemento misterioso dos anúncios de produtos feitos para removê-los. Nos dois casos, a omissão tem a ver com tabus que cercam o corpo feminino.

    Lançado no dia 26 de junho de 2018, um novo comercial da marca americana Billie, que comercializa lâminas para mulheres se depilarem e cosméticos corporais, decidiu colocar os pelos femininos em evidência.

    “Pelos”, diz o letreiro do vídeo. “Todo mundo têm, até as mulheres. O mundo finge que eles não existem. Mas estão lá, nós checamos. Então quando, ou se você quiser raspá-los, estaremos aqui.”

    A propaganda mostra pelos nas axilas, nas pernas, na barriga e nos dedos dos pés de mulheres, em close. Também exibe uma imagem realista da lâmina pós-depilação.

     

    Dirigido pela fotógrafa de Chicago Ashley Armitage, o anúncio é descrito pela empresa e por alguns veículos de mídia, como a revista Glamour, como o primeiro do segmento a mostrar pelos corporais.

    “Comerciais de depilação mostram mulheres raspando inutilmente axilas sem pelos e pernas irrealisticamente lisas”, diz uma reportagem publicada pelo site It’s Nice That. 

    A iniciativa faz parte de uma campanha mais ampla da marca, chamada Project Body Hair.

    Apesar de vender lâminas, a Billie defende que mulheres façam o que quiserem com os pelos – deixá-los crescer, tirá-los ou até penteá-los.

    A empresa é uma startup nova-iorquina que começou a ser concebida em 2016 e foi fundada no ano seguinte por Georgina Gooley e Jason Bravman.

    Os fundadores notaram que as lâminas voltadas para mulheres raramente eram customizadas para otimizar a depilação e, ainda assim, eram mais caras do que lâminas de barbear, adicional apelidado de “pink tax”, que vem sendo contestado nos últimos anos.

    A inovação e o preço justo, além de uma abordagem inclusiva, se tornaram os principais trunfos da marca. 

    À aparente contradição entre promover a aceitação dos pelos e ter a venda de lâminas de depilar como carro-chefe do negócio, a empresa justifica, em seu site, ter criado ótimas lâminas a um preço acessível para as mulheres que optam por remover os pelos, que vinham pagando mais do que deveriam.

    Para as que não raspam os pelos, a marca também criou produtos como uma loção e um gel de banho.

    Por identificar que há uma “ausência grave de pêlos femininos na internet”, o projeto também está criando um banco de imagens de “mulheres reais”. Qualquer uma pode fazer o upload de uma foto sua no site

    Radicalismo relativo

    Em um artigo publicado no dia 28 de junho pela revista on-line Slate, a editora assistente Rachelle Hampton faz ressalvas à proposta “transgressora” da campanha publicitária.  

    “De fato”, escreveu Hampton, “as imagens do anúncio são tristemente revolucionárias para um mercado relutante em mostrar justo aquilo que garante sua sobrevivência”.

    Mas, para ela, ao final do vídeo, com exceção de uma modelo que mantém um pequeno rastro deles, os pelos se foram, e sente-se o mesmo efeito de qualquer outro anúncio de depilação.

    “Sem falar que as modelos magras e atraentes [do comercial] têm aquele tipo de pelo fino, que mal aparece, o mais discreto possível”, disse Hampton.

    A hipocrisia que a marca tenta contornar com as nuances de linguagem do vídeo também é criticada pela jornalista.

    Ao dizer que a Billie está ali para as mulheres que queiram raspar os pelos, o texto do anúncio ignora que “mulheres raramente começam a se depilar porque têm vontade. Elas o fazem porque sentem que precisam, porque colocam na nossa cabeça desde crianças que mulheres não têm pelos”.

    “Até que a remoção de pelos no corpo seja uma escolha inteiramente voluntária, em vez de ser feita por pressão social, há pouca alegria desafiadora nesse ato. Ou numa empresa cuja missão é ‘tornar a internet um pouco mais peluda’ enquanto vende produtos para eliminar os pelos da vida real.”

    Rachelle Hampton

    Editora-assistente da revista Slate

     

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