Como a obra de Athos Bulcão integra a arte à arquitetura

Google homenageia centenário do artista cujas obras estão em prédios de Brasília e de outras cidades no Brasil e no mundo

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    No centenário do nascimento do carioca Athos Bulcão (1918-2008), o Google Doodle do dia 2 de julho de 2018 lembra os painéis de azulejos do artista plástico visíveis nos muros e empenas de muitos edifícios de Brasília.

    Também há obras dele em outras cidades, como na Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, e em países como Cabo Verde, França, Argélia, Itália e Argentina. Pintor, escultor e desenhista, Bulcão é mais conhecido pela arte mural na parte interna e externa de prédios. 

    A presença marcante de seu trabalho na capital se deve à participação em projetos dos arquitetos envolvidos na construção de Brasília, como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

    A convite deles, Bulcão realizou, respectivamente, os azulejos da Igrejinha de N. S. de Fátima e do Brasília Palace Hotel e o painel de azulejos da Torre de TV de Brasília, entre outras obras, presentes em locais como o Congresso Nacional e o Aeroporto Juscelino Kubitschek, ambos em Brasília.

    A arte e o espaço

    Nos painéis, o artista uniu a tradição da azulejaria, de origem portuguesa, à inventividade da composição. Se antes eram figurativas, compostas por pequenos módulos de cerâmica pintados, as composições passaram a exibir padrões geométricos abstratos criados pelos artistas modernos, como Bulcão. 

    Por sua relação com o espaço urbano, a arte de Bulcão é ofertada ao público em geral. “Não ao que frequenta museus e galerias, mas ao que entra acidentalmente em contato com sua obra, quando passa para ir ao trabalho, à escola ou simplesmente passeia pela cidade, impregnada pela sua obra, que ‘realça’ o concreto da arquitetura de Brasília”, diz o site da Fundação Athos Bulcão.

     

    Além da conhecida dupla de arquitetos modernistas, também foi frutífera a parceria de Bulcão com o arquiteto João da Gama Filgueiras Lima, conhecido como Lelé.

    Entre os dois, na análise da professora da Universidade de Brasília, Cláudia Estrela Porto, foi que a simbiose entre arte e arquitetura se fez mais presente, “a ponto de não sabermos mais se foi a arte que condicionou a arquitetura ou vice-versa”.

    “Quando Athos insere a sua arte na arquitetura de Lelé, ela adquire outro caráter, se multiplica na pré-fabricação dos elementos arquitetônicos sem, contudo, perder a força de sua criação, o seu caráter único. Todavia, deixa de pertencer ao criador e passa a ser compartilhada pelos usuários do espaço construído (...) Só se consegue a integração da arte e da arquitetura quando o artista possui o domínio da cor e sabe visualizar o espaço. Nisto, Athos foi um mestre”

    Cláudia Estrela Porto

    No artigo ‘Quando arte e arquitetura se mesclam: a obra de Athos Bulcão e Lelé’

    No artigo “Athos Bulcão em Brasília – do azulejo, do espaço”, de 2011, o então graduando da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Leandro Leão Alves analisa que a integração da arte mural de Bulcão ao espaço na edificação, como “agente na qualificação do espaço, interno ou externo”, também faz com que sua arte incorpore características da espacialidade:

    ‘Não dimensionamento’ das obras

    Por ocuparem grandes dimensões em um espaço, são intrínsecas a ele, determinadas por ele. O tamanho das obras de Bulcão não é um item de sua caracterização.

    Não têm um título próprio

    Em vez de receberem um nome, poético ou literal, os painéis são identificados pelo nome do edifício que os abriga, o que também traduz seu pertencimento e condicionamento ao espaço que ocupam.

    Obra aberta

    A partir da década de 1960, os murais de azulejos de Bulcão passaram a contar com a interferência dos operários que os assentavam.

    Se a princípio a colocação dos azulejos era executada com indicações precisas, ela passou a ser deixada a cargo dos assentadores de azulejos.

    “Em uma compreensão muito particular das poéticas abertas, voltadas à participação do público, o artista abre a construção da sua obra à participação do operário que executa”, escreveu o professor, curador e crítico de arte Agnaldo Farias.

    O procedimento foi adotado pela primeira vez em 1962, no projeto de Oscar Niemeyer para Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

    Nele, a composição conta com dois desenhos de azulejos: um com metade em branco e metade em preto e outro com um terço branco e dois terço em preto, sendo que na parte preta há um quadrado branco em uma das extremidades do azulejo.

    Vida

    Athos Bulcão nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, em 2 de julho de 1918. Em 1939, abandonou o curso de Medicina para se dedicar à pintura.

    Um pouco mais tarde, foi assistente do pintor Cândido Portinari na execução do painel de São Francisco de Assis, na Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte. Estagiou no ateliê do mestre, no Rio de Janeiro, até o final do ano de 1945.

    A primeira encomenda de trabalho feita a Bulcão por Niemeyer ocorreu em 1943. Após vê-lo desenhando no ateliê do paisagista Roberto Burle Marx, admirado com seu talento, Niemeyer incumbiu o artista de elaborar um projeto para os azulejos externos do Teatro Municipal de Belo Horizonte.

    O painel acabou não sendo realizado, mas, em 1955, o artista efetuou sua primeira colaboração com o arquiteto: os azulejos do Hospital Sul América no Rio de Janeiro.

    Em 1957, por intermédio de Niemeyer, Bulcão deu início a sua colaboração nos projetos de Brasília, para onde se mudaria e viveria até sua morte, em 2008.

     

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