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As cidades masculinas erguidas pelo urbanismo do século 20

Análise do clássico livro ‘Morte e vida de grandes cidades’, da jornalista e ativista Jane Jacobs, revela uma dinâmica urbana feita a partir do olhar do homem

 

O urbanismo que prevaleceu no século 20 privilegiou o carro e contribuiu para a segregação social, vieses apontados à exaustão em estudos e análises. Mas ele também pensou e organizou as cidades a partir de um olhar masculino, com áreas centrais destinadas ao trabalho e aos negócios, protagonizados pelos homens, e bairros e subúrbios em que as mulheres ficavam cuidando da casa e dos filhos.

Embora esse modelo, retratado em um seriado de época como “Mad Men”, tenha registrado seu maior desenvolvimento nos Estados Unidos, ele se repetiu ou tentou ser emulado em países ricos e pobres de todo o mundo como ideal de cidade.

É possível identificar essa dinâmica urbana falocêntrica na leitura de um dos mais célebres tratados sobre as cidades escritos no século 20, o livro “Morte e vida de grandes cidades”, da jornalista e ativista Jane Jacobs. Escrito em 1961, a obra se tornou referência-chave entre correntes que defendiam novas maneiras de pensar a cidade a partir do fim do século 20.

A perspectiva está contida no livro “Situando Jane Jacobs”, organizado pelo arquiteto e urbanista Renato Cymbalista, a ser lançado em 8 de julho de 2018. Com capítulos escritos por seus alunos na FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade de São Paulo), o livro propõe recortes e referências menos exploradas sobre Jacobs. Há capítulos, por exemplo, sobre o trabalho jornalístico da autora e “The economy of cities” (A economia das cidades, em tradução livre), segundo livro mais conhecido da autora (e nunca traduzido para o português).

Para Jane Jacobs, as ruas desertas e aparentemente tranquilas dos subúrbios tinham maior potencial de risco do que calçadas cheias de atividade e circulação de gente

Intitulado “Um olhar de gênero para as cidades”, o artigo de Barbara Fender Bucker, Camila Sawaia, Maria Carolina Farah Nassif de Moraes e Teresa Lima B. de Carvalho, do quarto ano de graduação da FAU, destaca o ineditismo do ponto de vista urbano das mulheres até a chegada da obra de Jacobs.

“Devido à sua inserção no âmbito profissional e formador de opinião, sobretudo por meio da contribuição na publicação ‘Architectural Forum’, Jacobs era uma figura de centralidade, vindo a ser a única mulher a ter reconhecidas suas opiniões acerca do assunto e uma das poucas vozes que tiveram força para expor um pensamento que circulava nesses outros meios”, explicaram ao Nexo as autoras, por e-mail.

Percepção feminina

Quando Jacobs escreveu “Morte e vida…”, o chamado urbanismo modernista, cujo representante maior era o suíço Le Corbusier, pregava a setorização dos espaços urbanos de acordo com uso. Áreas centrais mais antigas de cidades passaram a ser vistas como desorganizadas e agressivas, inadequadas para a vida familiar das classes média e média alta. As décadas seguintes ao fim da Segunda Guerra registram uma migração maciça de famílias brancas americanas para moradias em subúrbios.

 

“As famílias moravam em bairros residenciais afastados de centros de lazer, cultura e trabalho. Cabia aos homens fazer diariamente o trajeto do subúrbio até o centro da cidade, enquanto cabia às mulheres o cuidado dos filhos e os afazeres domésticos,” defendem as autoras do artigo em “Situando Jane Jacobs”. “Essa distinção de tarefas entre os gêneros, somada ao modelo de cidade proposto, gerava uma divisão sócio-espacial: o espaço público dos centros urbanos se torna território dos homens, enquanto o espaço privado se torna o universo das mulheres e crianças.”

O subúrbio pioneiro de Levittown, perto de Nova York, construído em tempo recorde entre 1947 e 1951, oferece um exemplo emblemático. Segundo estatística da época, 80% dos homens de Levittown seguiam diariamente para empregos em Manhattan, área central de Nova York.

O sociólogo e pensador urbano Lewis Mumford, contemporâneo de Jacobs, enxergava o subúrbio como baseado em uma “visão infantil do mundo, em que a realidade era sacrificada”. Mulheres e crianças, em concordância com tal lógica utópica e simplista, deveriam habitar ambientes privados e especializados, protegidas dos “perigos” da rua e da cidade grande.    

Entretanto, para Jacobs, as ruas desertas e aparentemente tranquilas dos subúrbios tinham maior potencial de risco do que calçadas cheias de atividade e circulação de gente. Sua conhecida teoria dos “olhos da rua” defende que a presença das pessoas, nas calçadas ou em janelas, monitora os espaços públicos, contribuindo para a segurança e bem-estar da comunidade.

 

O conceito foi desenvolvido a partir da observação de situações em que a calçada se apresenta viva e diversa, com a presença de mães e crianças. “Jacobs entende as mulheres como um dos principais agentes da vida urbana, participando ativamente da construção cotidiana do espaço”, escreveram as autoras.

Além disso, ambientes urbanos totalmente femininos, como são muitos daqueles em que se levam as crianças, como praças e playgrounds, acabam por ser incompletos. Para Jacobs, que tinha três filhos, era evidente que não deveria ficar só com as mulheres a incumbência de cuidar das crianças.

“A oportunidade (que na vida moderna se tornou um privilégio) de brincar e crescer num mundo cotidiano composto tanto de homens como de mulheres é possível e comum para crianças que brincam em calçadas diversificadas cheias de vida. Não consigo entender por que essa situação deva ser desencorajada pelo planejamento urbano e pelo zoneamento”, resumiu Jacobs, em citação contida no artigo de “Situando Jane Jacobs”.

Quem foi Jane Jacobs

Quando Jane Jacobs visitou Nova York pela primeira vez, em 1928, ela ficou “boquiaberta com todas as pessoas nas ruas… a cidade era simplesmente tão viva”. A menina de Scranton, Pensilvânia, se mudou para a grande metrópole seis anos depois, no ano em que completou 18.

Nascida em 1916, Jane Jacobs não tem formação acadêmica de arquitetura ou urbanismo. Realizou algumas disciplinas na Universide de Columbia mas não chegou a concluir o ensino superior. Entretanto, suas avaliações sobre o que melhora ou prejudica a qualidade de vida urbana, expressas em artigos e falas públicas, ganharam vários adeptos na década de 50, mesmo indo contra as ideias prevalentes de planejamento urbano.

Com uma bolsa da Fundação Rockefeller, Jacobs se dedicou a três anos de pesquisa para concluir sua obra mais conhecida, “Morte e vida de grandes cidades”. O livro “permite… problematizar a totalidade do urbanismo do século 20”, escreveu Cymbalista na apresentação de “Situando Jane Jacobs”.

Para as autoras da FAU, Jacobs foi precursora da atuação de mulheres no urbanismo. “Até a segunda metade do século 20, o urbanismo era elaborado e exercido quase exclusivamente por homens. A correlação de gênero atual é muito diferente. O urbanismo possui hoje inúmeras figuras femininas como protagonistas do debate e das práticas profissionais.”

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que Jane Jacobs tinha cursado faculdade de jornalismo e que a pesquisa para "Morte e vida..." aconteceu no âmbito da universidade The New School. Na realidade, ela fez uma série de cursos na Universidade de Columbia, e o livro foi lançado com amparo da bolsa da Fundação Rockefeller pela Random House e apoio da The New School. As correções foram feitas às 15h08 de 2 de julho de 2018.

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