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O que a novata Alexandria Ocasio-Cortez traz para a política americana

Eleita nas primárias contra parlamentar democrata com o dobro de sua idade, Cortez é parte de onda de candidatas progressistas de primeira viagem

Em um resultado inesperado, a americana Alexandria Ocasio-Cortez venceu, no dia 26 de junho, as eleições primárias do Partido Democrata para o Congresso, pelo 14º distrito que corresponde a partes do Bronx e do Queens, em Nova York.

Aos 28 anos, de origem latina, Ocasio-Cortez integra a organização socialista The Democratic Socialists of America e faz parte de uma ala mais jovem e radical, à esquerda, formada recentemente no partido americano.

Nas primárias, derrotou Joseph Crowley, candidato com 10 anos de mandato na Câmara de Representantes dos Estados Unidos, cotado para ser o próximo presidente da casa.

Em novembro de 2018, ela concorre, contra o candidato republicano, ao cargo de parlamentar na Câmara de Representantes. Tem grandes chances de ganhar, dado o histórico de votação do distrito, onde o eleitorado vota em peso pelos democratas. Se eleita, será a mulher mais jovem a ter um assento.

Para além de ser fruto de uma campanha de base bem feita e da trajetória individual da candidata, a vitória se relaciona a uma onda de novas candidatas mulheres, em sua maioria democratas, que lançaram suas candidaturas nas eleições intermediárias de 2018.

Embora o número de candidaturas masculinas ainda seja muito maior, 309 mulheres, um recorde, concorreram neste ano à Câmara de Representantes.

Desde a derrota de Hillary Clinton, em 2016, os democratas perderam poder em todos os níveis de governo. É este o contexto em que, segundo uma reportagem do jornal The Guardian, elas estão “invadindo” o establishment.

Movimentos recentes de mulheres no país, como o Time’s Up, contra o assédio, e a Marcha das Mulheres, contra o presidente republicano Donald Trump, ambos em 2017, também têm relação com o aumento no número de mulheres concorrendo.

Qual a história de Cortez

Nascida e criada no Bronx, Ocasio-Cortez é filha de uma porto-riquenha com um americano que também nasceu no condado nova-iorquino. Estudou Economia e Relações Internacionais na Universidade de Boston e, nesse período, trabalhou com o ex-senador democrata Ted Kennedy.

Em uma entrevista à rede de televisão MSNBC, a candidata democrata disse que sua mãe “limpava casas e dirigia ônibus escolares”. “Quando minha família estava à beira da execução da hipoteca, eu comecei a trabalhar como garçonete em um bar. Entendo a dor dos americanos da classe trabalhadora porque experimentei essa dor.”

Em 2016, ela organizou a campanha no distrito de Nova York de Bernie Sanders, senador pelo estado de Vermont, para as primárias presidenciais do Partido Democrata. Em maio de 2017, com Trump já eleito, ela lançou a candidatura que desafiou Joe Crowley.

Entre suas propostas, estão a abolição da polícia alfandegária e migratória dos Estados Unidos, pauta que ganhou força recentemente entre candidatos progressistas; um plano de saúde que garantiria assistência médica para todos os americanos (conhecido como “Medicare for All” e defendido por Bernie Sanders); ensino superior gratuito e garantia universal de empregos.

No fim de semana anterior às eleições primárias, Ocasio-Cortez foi ao Texas participar de um protesto contra a separação de pais e filhos imigrantes.

Como foi a campanha

Popular, focada em uma mensagem “de dignidade social, econômica e racial para os trabalhadores americanos, especialmente aqueles do Queens e do Bronx”, segundo disse a candidata à MSNBC, a campanha vencedora custou dez vezes menos que a de Crowley.

“Eu tinha panfletos e pranchetas e fomos basicamente batendo na porta de todos sem parar, falando com a comunidade”, disse Ocasio-Cortez. A estratégia cortejou especialmente os mais jovens, pessoas negras e latinas.

Segundo o site City & State New York, especializado na cobertura política do estado, o sucesso da política pode ser atribuído à demografia dos bairros onde concorreu, à sua ideologia progressista e a um uso inteligente e não convencional nas redes sociais e em veículos alternativos de mídia.

“Ocasio-Cortez fez uma campanha focada nos jovens, com ênfase nas mídias digitais, que pode representar o futuro do Partido Democrata”, diz a reportagem do City & State New York.

As questões colocadas pela plataforma eleitoral de Ocasio-Cortez estão, normalmente, fora do mainstream democrata.

Para a atriz Cynthia Nixon, que pode vir a ser candidata pelo Partido Democrata ao governo do estado de Nova York, a vitória da jovem democrata contra Crowley foi uma conquista dos “democratas progressistas contra os democratas corporativos”.

Ambas se apoiam mutuamente e a candidatura de Nixon “desafiou o establishment democrata” de maneira semelhante à de Ocasio-Cortez.

Ela incorporou, mas também diversificou, as questões trazidas pela campanha de Bernie Sanders em 2016, na análise de Benjamin Wallace-Wells, da revista The New Yorker.

Muitos progressistas tentaram se lançar, nas primárias de 2018, como herdeiros do “Sandersismo”, mas a maioria perdeu.

Wallace-Wells vê um Partido Democrata apenas parcialmente transformado, cheio de contradições. Ainda assim, avalia que a vitória de Ocasio-Cortez e sua rápida aceitação pelo partido repetem um padrão que tem ocorrido desde a metade do governo de Barack Obama: em lugar da rejeição, a adoção, pelos democratas, de movimentos de esquerda como Occupy, Black Lives Matter e, agora, o “Sandersismo”.

“Quão estranho seria se o efeito mais profundo disso fosse não o de deixar para trás um movimento popular, mas o de converter as elites do Partido [Democrata]?”, lançou o colaborador da revista.

 

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