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A arte de Banksy em Paris. E as críticas às políticas anti-imigração

Série de trabalhos do artista anônimo na capital francesa carrega referências ao país, atos terroristas e imigrantes

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Foto: Benoit Tessier/Reuters
Banksy faz referência a quadro com Napoleão em estêncil em Paris
Banksy faz referência a quadro com Napoleão em estêncil em Paris

O primeiro foi percebido na quarta-feira, 20 de junho de 2018, data que marca o Dia Mundial do Refugiado. O suporte, uma parede próxima a um abrigo que antes de ser fechado pelo governo federal costumava receber migrantes recém-chegados à capital francesa. Em tinta preta, o traço característico do estêncil, uma criança negra cobre uma suástica com padrões em rosa. Um adorno a céu aberto nas ruas de Paris.

A arte não é assinada, mas tudo leva a crer se tratar de mais um trabalho de Banksy, artista de identidade desconhecida dedicado a expor críticas políticas ácidas em seus trabalhos pelo mundo.

“A cor, a linha, o tema e o modo como ele adaptou as imagens de fotos. Tudo indica ser o estilo do Banksy”, disse Paul Ardenne, historiador francês especialista em arte de rua à agência Deutsche Welle. “Tem uma assinatura muito particular. Se não é do Banksy, é uma cópia muito boa.”

Outros grafites surgiram no correr da semana. Um em especial se destaca por fazer referência ao famoso quadro “Napoleão Cruzando os Alpes”, pintado entre 1801 e 1805 pelo pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825). Dessa vez, em estêncil, o manto vermelho que antes dava um aspecto divino ao antigo imperador agora cobre quase totalmente a figura montada – de modo muito similar às vestimentas islâmicas banidas na França desde 2010.

Autoria e contexto

Na terça-feira (26), o próprio Banksy acabou com o mistério publicando seus novos trabalhos parisienses em seu perfil no Instagram. “50 anos desde o levante em Paris, em 1968. O berço do stencil art moderno”, escreveu junto da imagem do seu conhecido rato, desta vez com um lenço e um estilete.

Na sequência, seus ratos aparecem próximos à Torre Eiffel, ou ainda aproveitando uma rolha de champanhe para “voar” pelas paredes. 

Foto: Benoit Tessier/Reuters
Rato de Banksy voa em rolha de champagne
Rato de Banksy voa em rolha de champagne

Outro estêncil, este feito na Universidade de Sorbonne, mostra um senhor de terno e gravata com um osso em uma mão e um serrote, escondido, na outra. Diante dele, um cachorro sem uma perna admira, submisso, o osso que um dia foi seu.

Nos comentários, enquanto alguns apontavam a “profundidade” da cena, outros resumiam a intenção de Banksy a um trocadilho com o nome da universidade e as palavras em inglês para serra (saw) e osso (bone). Banksy não se pronunciou.

O artista anônimo grafou ainda o portão da saída de emergência da casa de shows Bataclan, onde um violento ataque terrorista deixou 130 mortos em novembro de 2015. O estêncil mostra uma mulher triste, de véu, segurando o que parece ser uma mala de viagem.

Foto: Benoit Tessier/Reuters
Estêncil de Banksy em portão do Bataclan, em Paris
Estêncil de Banksy em portão do Bataclan, em Paris

Anti-imigração

Migração e fronteiras são temas recorrentes de Banksy. Há trabalhos críticos à política de Israel espalhadas na fronteira do país com a Palestina, o que inclui um hotel com o que ele chama de “a pior vista do mundo”.

Dentre os motivos que podem ter feito o artista assumir agora o governo francês como alvo do seu spray está a política aprovada em abril de 2018 pelo presidente Emmanuel Macron que enrijeceu a legislação do país contra imigrantes. Só em 2018, foram mais de 100 mil novos pedidos de refúgio no país. A nova lei diminuiu o prazo para pedidos de asilo (de 120 para 90 dias), dobrou o período máximo de detenção de imigrantes ilegais, os quais agora também podem ser presos por até um ano.

Além disso, o governo francês tem adotado medidas rígidas em relação a imigrantes que, sem abrigo – muitos foram fechados nos últimos três anos –, têm dormido de modo provisório embaixo de pontes e nas ruas da capital.

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