Quais os reflexos da greve dos caminhoneiros nos índices econômicos

Indicadores oficiais demonstram como os protestos ocorridos no fim de maio mexeram com as atividades e com os preços

     

    Caminhoneiros realizaram protestos em todo o país e paralisaram suas atividades por dez dias no fim de maio. Um mês depois, órgãos federais contabilizam os efeitos negativos atribuídos à paralisação.

    Responsáveis por transportar a maior parte de tudo o que é produzido no país, os caminhoneiros têm papel fundamental para a economia. Com tamanha concentração, em poucos dias de paralisação consumidores já perceberam a falta de abastecimento de combustíveis, de alimentos e de medicamentos em cidades de todas as regiões.

    A produção industrial de alguns setores foi paralisada e serviços públicos, como transportes e coleta de lixo, sofreram interrupções.

    75%

    é o quanto da produção nacional é transportada via malha rodoviária, segundo pesquisa da Fundação Dom Cabral, de 2017

    A categoria retomou as atividades no começo de junho e em pouco tempo normalizou o abastecimento, mas os reflexos econômicos têm sido calculados agora. A atenção de analistas está principalmente voltada à inflação e à atividade econômica.

    O reflexo na inflação

    O IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15) teve alta de 1,11% entre 16 de maio e 13 de junho. O índice, que serve como prévia da inflação oficial do país, registrou a maior variação para o período desde 1995.

    Na análise do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que divulga esses índices, os preços de combustíveis e alimentos foram pressionados pela paralisação e também pela alta da conta de luz.

    Alimentos sofreram altas porque produtos ficaram retidos nos bloqueios e, como consequência, não chegaram aos centros de distribuição. Diante da falta de produtos, comerciantes aumentaram os preços. Igual fenômeno ocorreu com os combustíveis, que ficaram em média 5,94% mais caros. A análise do IPCA-15 foi feita durante a paralisação.

    O reflexo na taxa de juros

    O Banco Central manteve a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 6,5% ao ano, após reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em 20 de junho.

    O Copom afirmou que ainda não tem a dimensão precisa do impacto dos protestos, mas diante da expectativa do aumento da inflação e da retomada mais lenta da economia, optou pela manutenção da taxa de juros. Entidades setoriais, como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária), apontaram prejuízos à produção.

    Na ata da reunião do Copom, divulgada nesta terça-feira (26), consta que a paralisação deverá pressionar os preços, mas os integrantes do comitê apostam num efeito temporário. Já sobre a atividade econômica, o Copom diz que a amplitude dos efeitos ficará mais clara entre julho e agosto, quando se poderá dizer se o ritmo de recuperação será mais ou menos intenso.

    O reflexo na criação de emprego

    O saldo de vagas com carteira assinada em maio foi de 33.659 novos postos. O resultado positivo, no entanto, foi o mais baixo registrado em 2018, de acordo com os dados divulgados em 21 de junho pelo Ministério do Trabalho.

    “É de se entender que [sem a greve] certamente teríamos um resultado dentro da média que estávamos registrando nos meses anteriores”

    Helton Yomura

    ministro do Trabalho, em entrevista ao jornal Valor Econômico

    Em abril, foram criadas 115.898 vagas formais. Na comparação com maio de 2017, quando foram abertas 34.253 vagas, o número registrado agora também é menor.

    O ministério divulga apenas dados sobre empregos formais. O desemprego, segundo números mais recentes do IBGE, está em 12,9% (o equivalente a 13,4 milhões de trabalhadores).

    O reflexo na exportação

    O Banco Central também identificou influência da paralisação nas transações correntes do Brasil com o exterior. O superávit comercial (quando exportações superam as importações) foi de US$ 729 milhões em maio, 29% a menos do que o previsto pelo BC, de acordo com dados divulgados na segunda-feira (25).

    37%

    foi quanto caiu a média diária de exportações durante a greve, segundo dados do Banco Central

    Os números refletem a dificuldade que empresas tiveram para transportar produtos até os portos. Apesar da queda, a avaliação do chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, é que esses números voltem à normalidade e em junho fiquem estáveis.

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