Ir direto ao conteúdo

Um tour virtual pelos locais sagrados dos povos do Alto Rio Negro

Projeto do Instituto Socioambiental que resultou em documentário se alia ao Google Earth e expõe cosmogonia dos Tukanos da Amazônia

Temas

Ao longo do curso dos rios e afluentes no Alto Rio Negro, na porção noroeste da Amazônia, belezas naturais que poderiam ser vistas como “simples pedras” ou “uma simples ilha” por pessoas de fora, nas palavras dos intérpretes de indígenas do local são espaços sagrados. Cada um tem uma história, narrativas que remetem à origem do universo, dos humanos, objetos e criaturas mitológicas que compõem as culturas locais.

Preocupado com a potencial perda dessas narrativas tradicionais, uma equipe do Instituto Socioambiental acompanhou uma expedição por tais locais com intérpretes da cultura dos povos da família Tukano – composta por 17 etnias, como Bará, Desana, Barasana, Tukano, Piratapuia e Tuyuka. O registro dos locais e das histórias contadas no percurso deram origem ao documentário “Pelas Águas do Rio de Leite”, lançado em março de 2018 e que deve ser exibido em São Paulo em agosto.

A equipe foi liderada pela antropóloga Aline Scolfaro. À revista Galileu, ela disse que o trabalho é importante para pesquisadores, mas também para os povos locais. “Os mais velhos se ressentem que essas tradições, tão importantes para a vida deles hoje, para o manejo ambiental, a medicina tradicional, todo esse arcabouço de conhecimento, esteja sendo esquecido pelas gerações mais novas, formadas na escolarização formal”, disse Scofaro.

O documentário “Pelas Águas do Rio de Leite” está disponível na íntegra no Youtube no canal do Instituto Socioambiental.

Passeio sagrado

Além do registro audiovisual, a expedição ganhou um tour virtual por meio de uma parceria com o Google Earth. “O Sagrado no Alto Rio Negro” mostra alguns dos lugares mais importantes para os Tukano, com imagens, cantos e narrativas. De acordo com o Instituto Socioambiental, o roteiro da viagem incluiu mais de 60 lugares sagrados. Desses, 11 foram selecionados para compor o documentário e o tour virtual.

Avô do Universo e a Cobra-Canoa

De acordo com a cosmogonia dos povos Tukano, o Avô do Universo é o responsável pela criação do mundo como conhecemos. Os primeiros seres, criados por Ele, são chamados Gente de Transformação, ancestrais dos Tukano.

Conta-se que os antigos embarcaram em uma cobra transformada em canoa que levaria a Gente de Transformação por uma viagem até o centro da Terra. A odisseia começa onde o rio Solimões se encontra – sem se misturar – com o rio Negro, chamado de Rio de Leite pelos Tukano.

Foto: Reprodução/Instituto Socioambiental
Encontro do rio Negro com o Solimões marca o início da jornada
Encontro do rio Negro com o Solimões marca o início da jornada

A Cobra-Canoa então passa a subir o Rio de Leite, fazendo ao longo do caminho diversas paradas. “A cada parada, os ancestrais adquiriam poderes e conhecimentos que até hoje fazem parte da herança cultural das etnias”, diz o Instituto Socioambiental.

Poder de cura

No local onde hoje se situa um vilarejo chamado Paricatuba. Ali, no passado Tukano, ficava a casa de Paricá, onde os ancestrais obtiveram o conhecimento necessário para identificar e curar doenças. Tal poder era obtido pelo paricá, uma substância alucinógena de uso ritual obtida do chá de uma casca de árvore local.

“O vilarejo é um grande sítio arqueológico, riquíssimo em terra preta e fragmentos cerâmicos. Sinal de que antes da chegada dos colonizadores, havia aqui um grande assentamento indígena”, diz o texto que guia o tour virtual.

Preguiça e os peixe-gente

Seguindo pelo rio Negro, o barco da expedição depara com uma grande pedra grafada com desenhos antigos. Os conhecedores da cultura Tukano explicam que se trata da Casa de Aru, o deus Preguiça.

A narrativa tradicional diz que ele saía em sua canoa, com remo, esteira, peneira e cuia. Tais instrumentos aparecem ilustrados nas pedras do local. É ele o responsável pelo frio que alivia a região do calor entre os meses de abril e julho.

Mais adiante, e uma nova “casa” aparece. Dessa vez, os moradores são os wai mahsã, ou os peixe-gente, seres pouco amigáveis que circulam pelas florestas e rios. Quem encontra com eles sem a devida proteção – que envolve oferta de bebida, cigarro e um alimento ritual chamado ipadu – pode cair doente. 

O local, chamado de Casa da Aliança, é onde os sábios celebravam justamente um acordo (que envolve um canto específico com os peixe-gente, a fim de manter pacíficas as relações entre eles e os povos locais.

Foto: Reprodução/Stephen Hugh-Jones/Instituto Socioambiental
Casa de Aru, entidade que ameniza o clima às margens do rio Negro
Casa de Aru, entidade que ameniza o clima às margens do rio Negro

Flautas, escuridão e trovões

O tour continua cruzando com locais importantes como a Casa de Desenhos Rituais – onde há pedras com desenhos de flautas sagradas roubadas nos tempos antigos por mulheres e até hoje vistas em rituais que envolvem a ingestão de ayahuasca (kahpi) – e a Casa do Trovão, figura mais antiga que a humanidade.

Conta-se que naquele ponto do percurso, é comum haver contratempos que tornam a viagem um desafio. Isso porque no mito Tukano, Trovão se irritou com a quantidade de humanos na região e lançou raios sobre a Cobra-Canoa.

“Essa pedra representa nosso Avô Trovão. Abé, o coordenador do dia, nós somos filhos dele. Somos filhos da luz”, disse Raimundo Galvão, conhecedor da etnia Desana.

O mesmo vale para a “Casa da Caixa da Noite”, o local onde nasceu a noite. Ali os ancestrais receberam uma caixa que deveria ser aberta apenas seguindo as instruções do Avô do Universo. Houve, no entanto, quem abriu a caixa sem o devido respeito e dela saíram a escuridão e “muitos outros bichos se espalharam pelo mundo”.

No local, há uma pedra marcada por três buracos, marcas de lanças fincadas por pajés no chão para aguentarem ao temporal originado pela caixa.

Foto: Aloizio Cabalzar/Instituto Socioambiental
Buraco na laje da cachoeira Ipanoré marca ponto em que Cobra-Canoa passou rumo ao centro da Terra
Buraco na laje da cachoeira Ipanoré marca ponto em que Cobra-Canoa passou rumo ao centro da Terra

Centro do saber e pedras sagradas

Ao cabo do trajeto, há uma pequena ilha que engana pela aparência simples. O local, para os Tukanos, é considerado o “centro de transformação do mundo e o ponto central de todo o conhecimento”. Lá, conta-se, uma mulher fez o primeiro parto da história, nasceram as diferentes línguas e o cipó kahpi (usado nas cerimônias de ayahuasca).

“Aqui que a mulher-cobra pariu esses elementos rituais, principalmente o kahpi. Todos os elementos rituais que temos – ipadu, tabaco, kahpi – foram distribuídos aqui para todos. Isso tudo é a raiz do Conhecimento”, disse ao documentário um membro do povo Tuyuka.

Por fim, uma parede rochosa é apontada como a casa de Muhipũ, entidade que representa tanto a Lua quanto o Sol. “Esses dois astros são manifestações de um mesmo ser criador, responsável por vários acontecimentos que deram origem às coisas deste mundo”, diz o texto do tour.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: