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O que era o PSDB quando foi fundado. E o que é hoje 30 anos depois

Partido chega a três décadas de existência com imagem abalada e dificuldades na disputa presidencial de 2018

     

    Uma das principais forças políticas do país, o PSDB completou 30 anos na segunda-feira (25), num contexto de crise de representatividade generalizada, mas enfrentando seus próprios problemas, entre os quais uma grande dificuldade, até aqui, na corrida presidencial de 2018.

    Fundado em 1988, o Partido da Social Democracia Brasileira é uma dissidência do PMDB. Governou o país de 1995 a 2002, com Fernando Henrique Cardoso. Depois disso, continuou em destaque nas disputas nacionais, mas sempre amargando derrotas nos segundos turnos de eleições presidenciais para o PT, seu maior adversário.

    Os tucanos participaram ativamente do processo de impeachment da petista Dilma Rousseff, em 2016, e foram aliados de primeira hora de Michel Temer, de quem tentam agora se distanciar em razão da impopularidade recorde do vice que ascendeu ao poder.

    O PSDB enfrenta denúncias de corrupção, assim como praticamente todos os outros grandes partidos do país. Teve seu então presidente, senador Aécio Neves, afastado do comando do partido após o escândalo da JBS em 2017. Um ano depois, viu outro ex-presidente da legenda, Eduardo Azeredo, ser preso após condenações no caso do mensalão tucano.

    Seu pré-candidato à Presidência em 2018, Geraldo Alckmin, registra o pior desempenho de um tucano na corrida pelo comando do país em ano de eleição. O ex-governador paulista, que já disputou o Palácio do Planalto em 2006 e perdeu no segundo turno para Luiz Inácio Lula da Silva, não chega a dois dígitos nas pesquisas de intenção de voto.

    Alckmin foi alvo de delações da Odebrecht no âmbito da Operação Lava Jato, mas as suspeitas levantadas por executivos da empreiteira estão sendo investigadas pela Justiça Eleitoral, com foco em caixa dois, não corrupção. Há ainda um procedimento no âmbito civil, por suspeita de improbidade administrativa.

    Uma breve história do PSDB

    O Partido da Social Democracia Brasileira foi fundado em 25 de junho de 1988, durante a Assembleia Constituinte, reunião de parlamentares que culminou na criação da Constituição Federal.

    Naquela época, um grupo de políticos insatisfeitos com as práticas peemedebistas decidiu se desfiliar e criar uma sigla própria. Foi quando Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e outras lideranças criaram o PSDB.

    Trata-se de um partido gestado por políticos de São Paulo, onde acumula vitórias eleitorais: os tucanos venceram todas as eleições para governador do estado desde 1994.

    Na primeira eleição presidencial após a ditadura, em 1989, o partido lançou Covas como candidato. O tucano não chegou a ir nem para o segundo turno.

    O partido acabou então apoiando o candidato do PT no segundo turno: Luiz Inácio Lula da Silva. Lula foi derrotado por Collor, que governou país até sofrer o impeachment, em 1992.

    Foi a única vez que o PSDB se aliou ao PT em uma eleição nacional. Desde então, os dois partidos se tornaram os principais rivais um do outro e polarizaram as disputas pela Presidência.

    O melhor momento da história do PSDB foi quando a sigla conseguiu chegar ao comando do país. Isso aconteceu nas eleições de 1994. O candidato era Fernando Henrique Cardoso.

    Fundador do partido, o tucano foi beneficiado pelo sucesso do Plano Real, que havia ajudado a implantar na gestão de Itamar Franco, de quem fora ministro da Fazenda. Aliado ao PFL (hoje rebatizado de DEM), FHC enfrentou e venceu Lula duas vezes no primeiro turno.

    A partir de 2002, foram quatro derrotas seguidas para os petistas na disputa ao Palácio do Planalto. A última ocorreu em 2014, quando Aécio perdeu para Dilma no segundo turno, em uma das eleições mais apertadas da história recente nacional.

    Uma análise sobre os tucanos

    O Nexo entrevistou o cientista político Carlos Melo, do Insper, para entender o processo de transformações do PSDB ao longo de seus 30 anos de existência.

    O que era o PSDB quando foi fundado?

    Carlos Melo Era um acordo de lideranças que estavam à esquerda do PMDB. Eram social democratas e prezavam muito pela questão ética. Tanto que os políticos saíram do PMDB por conta de divergências que tinham com Orestes Quércia.

    Quércia era governador de São Paulo e passou a dominar o antigo PMDB. Mário Covas e Fernando Henrique não se davam com ele. Os dois eram uma facção antiquercista e fundaram o PSDB com a perspectiva do discurso ético na política.

    O que foi o PSDB nos governos FHC?

    Carlos Melo No governo FHC, o PSDB deu um salto. Diria que o governo FHC foi social democrata nas políticas públicas, progressista em relação aos costumes e, embora FHC não goste de admitir, liberal na economia. Ele fez uma reforma liberalizante do Estado no que diz respeito à questão econômica. Essa agenda era necessária. Em virtude disso, o PSDB conseguiu muito respeito, principalmente de economistas. E ganhou a simpatia do mercado financeiro.

    Como os anos petistas de governo afetaram o PSDB?

    Carlos Melo Quando o PSDB vai para oposição, ele tem que se distinguir do PT. Ao longo dos anos, o PSDB se transformou no antagonista do PT, pura e simplesmente. A postura do partido, durante o processo do impeachment de Dilma Rousseff, foi a de aderir à pauta bomba [projetos no Congresso que criavam dificuldades fiscais para o governo].

    A disputa do PSDB com o PT é muito ruim para todos. Ainda mais porque, com o tempo, revelou-se que o PSDB cometia práticas que o próprio PSDB recriminava no PT. Se o PSDB recriminava o mensalão, houve o mensalão tucano em Minas. Se recriminava a relação dos governos com empreiteiras, ficou claro que o PSDB também tinha isso. Em São Paulo, por exemplo, a questão do Rodoanel mostra isso. Sergio Guerra [senador morto em 2014] era presidente do PSDB e foi acusado por relatores de ter ajudado a “matar” uma CPI da Petrobras.

    O que é o PSDB hoje?

    Carlos Melo O PSDB não tem mais uma grande liderança que coloque o partido no eixo social democrata novamente. Vamos lembrar que, em 2012, José Serra [então candidato à Prefeitura de São Paulo] andou discursando contra o aborto e andando com [o pastor] Silas Malafaia para cima e para baixo. Alckmin é conservador. O PSDB, na verdade, foi muito prejudicado pelo vazio que se estabeleceu na direita brasileira durante anos. Ficou sem representante e foi levado, por interesse eleitoral, a dialogar com setores mais conservadores da sociedade. E lá ficou.

    O grande problema, hoje, é que esses setores mais conservadores não reconhecem o PSDB como representante deles. Encontraram um representante legítimo, que é Jair Bolsonaro [pré-candidato do PSL à Presidência]. Há uma grande crise de identidade dentro do PSDB atualmente. Parte daquelas lideranças da fundação morreu. Uma parte fisicamente e outra, politicamente. Os remanescentes, como FHC e o Tasso Jereissati, não dão mais conta do partido.

    Se Mário Covas fosse vivo, eu diria que não haveria hipótese de o PSDB continuar no governo Temer, sobretudo depois das ligações de Joesley Batista [o empresário gravou conversas comprometedoras com Aécio e com Temer]. Covas era um sujeito de muita imposição política e ética. Ele impediu que o PSDB fosse para o governo Collor. Faltou Mário Covas para o PSDB nesses últimos anos. Faltou uma liderança forte e impositiva com respeito nacional. O que a gente viu foi um grande conflito interno. Bancar Aécio e se bancar dentro do governo Temer revelou que o PSDB não se diferencia dos problemas do sistema político que estão aí.

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