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As punições aos assediadores na Copa. E por que o tema ganhou destaque

Vídeos de torcedores assediando mulheres na Rússia repercutiram nas redes, receberam críticas e tiveram consequências concretas para alguns

    Em um vídeo divulgado no primeiro fim de semana da Copa do Mundo de 2018, entre 16 e 17 de junho, um grupo de torcedores brasileiros cerca uma mulher russa gritando “essa é bem rosinha” e “boceta rosa”, em alusão à cor de sua vagina.

    O episódio repercutiu fortemente nas redes sociais e entre órgãos e autoridades do país. Alcançou projeção ainda maior a partir da identificação de Diego Valença Jatobá, advogado pernambucano e ex-secretário de Turismo em Ipojuca, nos arredores do Recife, entre os homens que aparecem nas imagens.

    Um tenente da Polícia Militar de Santa Catarina e um engenheiro civil do Piauí também foram reconhecidos entre os participantes.

    Também gravados na Copa da Rússia, outros vídeos de caráter semelhante surgiram ao longo da primeira semana do evento.

    Torcedores brasileiros e de outras nacionalidades, como argentinos, peruanos e colombianos, induzem pessoas, em sua maioria mulheres, a repetirem frases de teor sexual, ou homofóbico, quando os alvos são rapazes, na língua dos turistas. As pessoas envolvidas não compreendem o que estão dizendo e reproduzem as frases sendo gravadas em vídeo.

    O texto “Brasileiros precisam entender que assédio não é brincadeira”, publicado em 18 de junho de 2018 pelo blog Dibradoras, diferencia a conduta dos torcedores de uma simples piada se baseando, principalmente, no constrangimento, entendido como violência, causado às mulheres que aparecem no vídeo e ao não consentimento delas, que provavelmente não concordariam em aparecer no vídeo se soubessem o significado das frases ditas.

    Além das torcedoras, outra vítima do assédio na Copa foi a jornalista colombiana Julieth González, da Deutsche Welle em espanhol, beijada à força e apalpada no seio por um homem enquanto entrava no ar ao vivo na TV no dia 20 de junho.

    O que foi feito

    A conduta machista dos torcedores levou à emissão de notas e em alguns casos causou demissões e a proibição de assistir aos jogos do torneio mundial no estádio.

    Na quinta-feira (21), a Rússia cancelou a credencial de um torcedor argentino que gravou um vídeo no qual induz uma adolescente russa, de 15 anos, a dizer frases obscenas em espanhol.

    A medida atendeu a um pedido do diretor de segurança de eventos futebolísticos da Argentina, Guillermo Madero, de que o torcedor fosse estritamente proibido de comparecer aos estádios do evento, “já que este não representa os demais argentinos na Rússia”.

    No caso dos brasileiros, o governo não decidiu se pedirá à Rússia que retire deles a Fan ID, a autorização para que os torcedores entrem nos estádios durante os jogos.

    Na quarta-feira (20), o Ministério Público Federal do Distrito Federal abriu uma investigação criminal para apurar e identificar a autoria do vídeo, com o objetivo de investigar possível crime de injúria.

    Em Moscou, diplomatas da embaixada brasileira relatam ter recebido e-mails criticando a conduta dos autores do vídeo. Nas redes sociais, circulam pedidos para que sejam punidos e expulsos da Rússia.

    Segundo uma reportagem da Folha de S.Paulo, a ação dependeria de uma queixa formal da vítima, que não foi registrada. Não há lei que criminalize o assédio sexual na Rússia.

    Palácio do Planalto e Ministério das Relações Exteriores se pronunciaram em nota. “Episódios de assédio devem ser combatidos no Brasil ou na Rússia”, diz o comunicado.

    A Polícia Militar de Santa Catarina instaurou um processo administrativo disciplinar contra o tenente que aparece em um dos vídeos, o que pode fazer com que ele seja desligado da instituição. Outro dos envolvidos, um supervisor da companhia aérea Latam Airlines, foi demitido por sua conduta em um dos vídeos.

    Alena Popova, jurista e ativista russa, criou uma petição online que protesta contra a conduta dos brasileiros no primeiro vídeo, que pretende encaminhar às autoridades russas e à embaixada do Brasil em Moscou.

    A conversa sobre assédio na Copa

    Embora provavelmente tenham acontecido, casos de assédio não sensibilizaram tanto ou tiveram consequências do mesmo porte em Copas anteriores.

    “Desde o [movimento] #MeToo, as denúncias de assédio têm aumentado e ganhado mais força quando aparecem na mídia”, disse Mariana Nadai, editora chefe da ONG feminista Think Olga, em entrevista ao Nexo. “E também têm aumentando os casos de agressores que acabam punidos.”

    A organização tem um projeto sobre mulheres e esporte, o Olga Esporte Clube, desde 2016.

    Para ela, uma das razões da hostilidade em relação às mulheres e da misoginia sofrida por elas na Copa é que “o esporte é considerado um espaço essencialmente masculino que, inclusive, impediu por muito tempo o acesso das mulheres”.

    “A marginalização da mulher no futebol, assim como no mundo do esporte em geral, acontece por conta do machismo e aparece na falta de oportunidades. Falta de oportunidade e visibilidade de torneios, falta de investimento nas atletas, falta de espaço para que mulheres jornalistas esportivas possam atuar. Tudo isso se reflete também na forma como as mulheres são tratadas quando ousam desafiar esse sistema para querer fazer parte. Acabamos sofrendo por abusos e assédios de todos os lados — dos colegas de profissão, dos técnicos, jogadores e até da torcida. Não à toa, este ano foi criada a campanha #DeixaElaTrabalhar.”

    Mariana Nadai

    Jornalista

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